A farmacologia tóxica do digital na época do Antropoceno
Pedro Paulo Zanforlin Netto
Doutorando em filosofia pela UFPR
Introdução
Esse trabalho, fundamentado na filosofia de Bernard Stiegler, busca analisar os objetos digitais como um pharmakon e sua relação peculiar com a época antropocênica. A especificidade dos objetos digitais e sua relação com o Antropoceno oferece uma nova perspectiva ao debate clássico sobre essa época geológica, levantando preocupações sobre o início da época digital.
Dado a complexidade da correlação Digital-Antropoceno é importante delimitarmos o sentido que usaremos o termo pharmakon. O termo será entendido sob a interpretação de Jacques Derrida e pode ser traduzido como remédio e ter múltiplas significações contraditórias entre si, como, por exemplo, bem e mal. É também um conceito “inquietante”, pois, ao se tratar de um remédio, à primeira vista, parece ter um fim terapêutico, mas mesmo usado com boas intenções, não há remédios somente inofensivos. Há, portanto, no pharmakon, uma dualidade tóxica e curativa.
Nesse sentido, o conceito de pharmakonnos é adequado para investigar o início da transição digital, dado que a crescente digitalização, na perspectiva de Stiegler, abrange dois pontos antagônicos: tóxico e terapêutico. Por um lado, a rápida evolução da informação, principalmente dos sistemas comunicacionais, seja frequentemente vista como positiva, alberga também muitos perigos, como, por exemplo e em última instância, a automatização do conhecimento e a potencial transformação da humanidade tal como a conhecemos. Uma outra linha de pensamento, mais recente, encara a digitalização do mundo como uma questão ecológica, integrando-a à reflexão sobre o estado atual do Sistema Terra. Nosso objetivo aqui é entender em que medida o digital é um pharmakon e como essa relação com o Antropoceno se manifesta.
Para esclarecer tal relação, exploraremos o conceito de organologia geral de Stiegler, que entende a humanidade como intrinsecamente técnica, composta por três sistemas de órgãos: psicossomático, social e técnico. Os objetos digitais, como órgãos técnicos, são concebidos como próteses que compensam a falta original de qualidades humanas e que antecedem a funcionalidade dos demais órgãos, de modo a beneficiá-losou a prejudicá-los. Em outras palavras, o digital é uma prótese farmacológica na medida em que, como uma terceira memória humana (os objetos digitais guardam em si informações externas à memória humana),influenciam os órgãos psíquicos e sociais, impedindo ou permitindo, em termos simondonianos, a individuação psíquica e a individuação coletiva.
Nesse contexto, o Antropoceno é encarado aqui como uma época negativa, principalmente a partir do crescente controle da indústria sobre os sistemas comunicacionais digitais, adquirindo um caráter sistêmico tóxico-organológico,alterando não somente a forma como pensamos, mas também destruindo habitats humanos e prejudicando a funcionalidade do Sistema Terrestre.
A tecnicidade do ser humano
Um dos pontos que faz da filosofia de Stigler sui generis é a sua concepção de que o ser humano tem como atributo intrínseco a técnica, isto é, o ser humano é técnico per se.
A condição técnica do ser humano é compreendida em dois momentos no livro Thecnicsand Time, v.1: The FaultofEpimetheu. O primeiro ponto é relacionado com a interpretação de Stiegler sobre o mito de Prometeu e Epimeteu no diálogo platônico Protágoras.Em resumo, no mito, Epimeteu esquece de conferir qualidades a humanidade, deixando-a em desequilíbrio com a natureza e, portanto, incompleta (STIEGLER, 1998, p. 188). Essa “falha de origem” é compensada pelo envio, por Prometeu, do fogo, isto é, da técnica, que se torna essencial para a constituição do ser humano. O segundo ponto é baseado na leitura do paleontólogo Leroi-Gourhan sobre a concomitância da hominização e do surgimento da técnica. Nesta leitura, a hominização está ligada com a libertação das mãos e com o processo exteriorização que, do ponto de vista da paleontologia, significa que o aparecimento do humano é o aparecimento do técnico, tendo eles a mesma origem e mútua essência (STIEGLER, 1998, p. 141).
A fundamentação da filosofia de Stiegler em uma ontologia epimeteica, como veremos nesse texto, nos fornece conceitos e neologismos para compreendermos a época digital e a época antropocênica trazendo maior lucidez sobre a catástrofe ambiental iminente dos dias atuais. É“jogando luz” sobre esses desafios que poderemos refletir sobre a possibilidade de mudanças que beneficiem, nesse caso, a biodiversidade, o planeta e o própria humanidade.
A dimensão farmacológica dos objetos digitais
A partir da noção de “falha de origem”, a técnica ganha um caráter suplementar para o ser humano. Esses suplementos podem ser entendidos como artefatos ou como objetos técnicos, os quais sustentam as relações sociais do mundo e guardam em si a memória morta. Em outras palavras, dentro do escopo da memória técnica, há também a memória social que incluem as instituições e as culturas.
Nesse sentido, Stiegler amplia a noção de memória ao incluiros objetos técnicos como um terceiro tipo: a memória técnica ou a “retenção terciária”, cuja origem remete aos conceitos husserlianos de retenção primaria, retenção secundária e consciência da imagem. Este último conceito é reelaborado pelo filósofo como retenção terciária, a qual se manifesta em inscrições materiais que conservam e transmitem conhecimento (STIEGLER, 2018, p. 88), como as pinturas rupestres, ferramentas e livros. Sendo uma memória durável, os objetos técnicos participam de processos intergeracionais de educação e cultura, influenciando o desenvolvimento individual e coletivo.
Stiegler complementa a ideia de participação dos objetos técnicos com o conceito de “transindividuação” de Gilbert Simondon, o qual descreve o compartilhamento de saberes através dos objetos técnicos e o condicionamento destes, tanto do conteúdo mental como o comportamento operatório do indivíduo (SIMONDON, 2020, p. 43). Nesse compartilhamento de conhecimento e informação há o que Stiegler entende como processo de “gramatização”(isto é, de discretização do conteúdo). Esse processo diz respeito a história da técnica na memória. A retenção terciária retrabalha, ou seja, discretiza e seleciona elementos da memória primária (fluxo mental presente) e secundária (rememoração do passado) (STIEGLER, 2010a, p. 31), mondando nossa compreensão de mundo.
A partir do entendimento desses três tipos de memória (psíquica, social e técnica) e de nossa incompletude original, Stiegler cria o conceito de organologia geral. Essa abordagem estuda as relações entre os três sistemas de órgãos que constituem a humanidade: órgãos psíquicos (indivíduos), órgãos sociais (coletivos) e órgãos artificiais (técnicos)(LEMMENS, 2019, p. 92).
Os órgãos artificiais ou digitais, são concebidos como um pharmakon na medida que “compensam” a falta originária de qualidades humanas e gramatizam os órgãos psíquicos e sociais. Os órgãos técnicos, por anteceder o movimento dos órgãos psíquico e social, podemagir de formatóxica ou terapêutica alienando ou emancipando a funcionalidade dos demais órgãos (STIEGLER, 2010a,41).
Nesse sentido, quando há uma nova etapa do desenvolvimento técnico (na atualidade estamos na transição digital),há uma suspensão regras e comportamentos sociais produzindo uma estupidez sistêmica. Essa estupidez inicial é entendida por Stiegler como uma ruptura estrutural relativa ao conhecimento de indivíduos psíquicos e do coletivo (STIEGLER, 2019, p. 25.). Ruptura engendrada, precisamente, por meio da gramatização que ocorre dentro da organologia(STIEGLER, 2010a, p. 31), da imbricação composta pelos três órgãos.
A proletarização dos saberes na época antropocênica
Na atualidade, a ruptura sistêmica em curso é compreendida através do conceito do Antropoceno. Esse termo se refere ao período mais recente da evolução geofísica da Terra, iniciado na Revolução Industrial e marcado pelatransformaçãoda face do planeta por influência da atividade humana, impactando não apenas a superfície terrestre, mas o próprio sistema Terra (BERNHARD, 2018, p. 27) (esse sistema diz respeito as esferas (atmosfera, litosfera, hidrosfera, geosfera, biosfera) que constituem o planeta Terra)).Por se tratar de um evento que ocorre em escala planetária, ao nível dos sistemas técnicos, econômicos e ambientais globais, o Antropoceno “revela uma natureza profundamente tóxica da configuração organológica” (LEMMENS, 2019, p.93).
Stiegler argumenta que o Antropoceno é também uma época tecnológica, caracterizada pela interdependência dos órgãos tecnológicos, psíquicos e sociais. O digital, como umpharmakonem seu aspecto negativo,impulsionauma situação de reticulação/gramatização global através do processo de automatização completa. Esteprocesso está intimamente ligado com o que Stiegler chama “proletarização generalizadas dos saberes” (STIEGLER, 2016, p. 6): saber fazer, saber viver e, atualmente em curso, o saber conceituar. Com esse enfoque, o sentido do termo proletariado concerne aqueles que, ao delegar seus saberes às maquinas, tornam-se desprovido de memória.
A Revolução Industrial, marco inicial do Antropoceno (cf. CRUTZEN, 2002), desencadeou um processo gradual de proletarização dos saberes. A automação das máquinas, impulsionada pela lógica de maximizar a produtividade e reduzir custos, levou à gramatização do gesto e à perda do saber fazer (STIEGLER, 2010a, p. 33).Os trabalhadores, destituídos pela automação dos processos de produção, de suas habilidades e conhecimento prático, foram submetidos à alienação e à exploração (LEMMENS, 2018, p. 62).
No século XIX, a superprodução resultante da automação industrial levou o sistema capitalista a fomentar o consumismo através do marketing e da publicidade. Esse movimento adapta o desejo do trabalhador à produção capitalista, ou seja, há uma exploração sistemática do desejo do trabalhador, transformando o desejo em impulso. Impulso que é hoje a base da economia capitalista, gerador de um déficit da atenção, erodindo o “saber viver”(STIEGLER, 2010b, p. 56).
Por último, a época digital, com suas tecnologias avançadas, com a proliferação e a autoprodução de dados (dados pessoais, cookies, metadados, tags), intensificou a proleterização do saber conceituar. Na leitura de Stiegler, essas sociedades hiperindustriais geram dados calculáveis que formam a base de uma sociedade automática, sendo o estágio mais avançado de um processo de gramatização(STIEGLER, 2016, p. 26). A indústria seleciona o conteúdo a ser consumido, alienando os indivíduos e a sociedade de sua capacidade crítica.
Com o conceito de proletarização dos saberes, Stiegler nos indica que a toxidade organológica está “corroendo” ou deteriorando nossa capacidade de conhecimento e consequentemente, o ambiente em que vivemos, nosso lar, o próprio planeta Terra. O cuidado com o conhecimento é a grande questão para Stiegler, visto que essa é a faculdade que tem a capacidade especulativa que opera o que Whitehead nomeia de bifurcação da vida. Em outras palavras, o conhecimento é aquele capaz de realizar uma reversão entrópica (Apud., STIEGLER, 2018, p. 85), ou seja, de lutar contra a destruição da vida ou lutar pela vida.
A negatividade farmacológica do digital no Antropoceno
Após a análise realizada até este momento do texto, é possível dizer que a configuração organológica, surgida no Antropoceno, não só perturba o Sistema Terrestre, como também destrói a alma noética ou intelectiva – responsável pelo pensamento – automatizando a técnica e a mente. A captura sistemática da atenção e da consciência humana em rede digitais, operando à critério da indústria de curto prazo e do tempo real (alusivo ao digital, onde a informação circula de maneira quase instantânea, prejudicando assim, o tempo de reflexão), elimina a “protensão”, ou seja, a possibilidade de uma relação genuína com o futuro (LEMMENS, 2019, p. 94). ParaBloch, a protensão genuínaé o sonho desperto ou diurno, que acompanhado do afeto esperança, exterioriza um material de anseio comum (Bloch, 2005, p. 97), a capacidade de projetar e almejar um futuro melhor.
A infraestrutura das hiperindústrias, funcionando de maneira automática e constante, eliminam o tempo “inútil” de tomada de decisão e reflexão, provocando um curto-circuito a vida cotidiana. Daí que a inovação tecnológica é colocada a serviço da infraestrutura nomeada por Jonathan Crary de regime 24/7, onde não há preocupações a longo prazo e projetos de transindividuações (STIEGLER, 2016, p. 65). O que é eliminado por esse regime neoliberal são as intermitências, as quais são estados de sono e devaneio e, o que é explorado são as vulnerabilidades físicas e psíquicas (CRARY, 2014, p.16), excluindo a esperança de projetos individuais e coletivos a longo prazo.
No contexto do Antropoceno, a configuração digital, moldada pelos critérios da indústria, assume um caráter farmacológico negativo. Ela promove a padronização técnica, psíquica e coletiva, levando à destruição das diferenças culturais e da biodiversidade. Essa padronização compromete a funcionalidade do Sistema Terrestre, como alertado por Stiegler (2016, p. 60), e pode culminar na “sexta extinção em massa do planeta Terra”, como prevê Zalasiewicz (2010, p. 2229).
Conclusão
Em suma, para compreender a farmacologia do digital e sua relação com o Antropoceno, é crucial considerar duas concepções emergentes sobre os tempos atuais: a primeira, a necessidade de romper as fronteiras tradicionais entre natureza, ser humano e técnica. Em um mundo onde o digital permeia cada vez mais os sistemas econômico, agropecuário, educacional, político e informacional, a separação tradicional entre esses elementos impede uma compreensão abrangente da realidade, dada a profunda imbricação desses sistemas com o digital. A segunda concepção ressalta a importância de reconhecer a técnica e o digital como promotores de mudanças significativas em níveis individual, coletivo, social e ambiental.
A farmacologia do digital reside, portanto, em sua capacidade de permear e anteceder todas as dimensões do mundo (natureza, ser humano, técnica), exercendo uma influência antagônica – tóxica ou curativa – sobre elas. No atual estágio da transição digital, a toxidade do digital manifesta-se, sobretudo, na ausência de regulamentação para os objetos digitais e no controle exclusivo da indústria sobre eles. Essa ausência de leis resulta em desinformação (fake news), afetando esferas públicas e privadas, e no aumento de crimes cibernéticos, como fraudes e discurso de ódio. Paralelamente, o controle industrial incentiva o consumismo, gerando um crescente déficit de atenção que degrada a capacidade de conhecimento. O conjunto de todos esses fatores culmina na alienação individual e coletiva, repercutindo na capacidade de conhecimento do ser humano e, consequentemente, na degradação do meio ambiente. Nesse panorama tóxico, a trajetória digital atual nos conduza uma sociedade distópica, caracterizada pela automatização da sociedade e dos indivíduos e pela crescente destruiçãodo planeta Terra.
Referências bibliográficas
BERNHARD, S. O que é o Antropoceno e que tem a ver conosco? Correio do Minho, 2018, p. 27.
BLOCH, E. O Princípio Esperança. Tradução Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. [v. 1].
CRARY, J. 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução Joaquin Toledo. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
CRUTZEN, P.; STOERMER, E. The “Anthropocene”. IGBP Newsletter, v. 41, 2000, p. 17-18.
DERRIDA, J. A farmácia de Platão. Tradução Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005.
HAMILTOM, C. Getting the Anthropocene so wrong. The Anthropocene Review, v. 2, 2015, p. 1-6.
LEMMENS, P. Resentment and the reign of carelessness. In: ______. To mind is to care. Rotterdam: V2,2019,p. 88-96.
LEMMENS, P. Re-orienting the noosphere: Imagining a new role for digital media in the era of Anthropocene. Glimpse, v. 19, 2018, p. 55-64.
SIMONDON, G. Do modo de existência dos objetos técnicos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.
STIEGLER, B. Acting Out. Tradução David Barison, Daniel Ross and Patrick Crogan. Stanford: University Press, 2003.
STIEGLER, B. Automatic Society: The Future of Work.Tradução Daniel Ross. Cambrigde: Polity Press, 2016.
STIEGLER, B. For a neganthropology of automatic society. In:______. Machine. Minneapolis: Minnesota Press, 2019, p. 25-48.
STIEGLER, B. Technics and Time: The Fault of Epimetheus. Tradução Daniel Ross. Stanford: University Press,1998. [v. 1].
STIEGLER, B. The Negantropoceno. Tradução Daniel Ross. London: Open Humanities Press, 2018.
STIEGLER, B.For a new critique of political economy. Tradução Daniel Ross. Cambridge: Polity Press, 2010a.
STIEGLER, B.Taking care of youth and the generations. Tradução Stephen Barker. Stanford: University Press, 2010b.
