Epiméleia: o legado de Sócrates para uma vida feliz
Zalboeno Lins
Doutorando em Filosofia (UERJ)
“Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como que um aprendizado em vista dela”.
(Michel de Montaigne)
INTRODUÇÃO
O diálogo Fédon está teoricamente situado na fase da maturidade de Platão e traz as argumentações de Sócrates sobre a imortalidade da alma e também a narrativa sobre o último dia da sua vida, antes de tomar o veneno ao qual foi sentenciado. Os discípulos visitam seu mestre num dia da primavera de 399 a.C. e a 'presença' da morte é notadamente marcante ao longo de todo o diálogo.
No diálogo, a personagem Fédon narra o último dia passado com Sócrates, para Equécrates, que deseja saber mais daquela ocasião. Logo no começo da conversa, Fédon fala de sua admiração pela postura do mestre naquelas derradeiras horas(cf. FÉDON, 58e): “o homem me parecia felicíssimo, Equécrates, tanto nos gestos como nas palavras, reflexo exato da intrepidez e da nobreza com que se despedia da vida”. E o que se nota no decorrer da conversa entre Fédon e Sócrates, é uma discussão em torno de temas filosóficos (cf. FÉDON, 59a), sem lamentações, como uma última oportunidade de ouvir do próprio mestre ensinamentos que fortalecessem os que estavam ali e também para resgatá-los da cilada do senso comum sobre o medo da morte. Para Sócrates – ao longo de diversas passagens do diálogo, como iremos apresentar – a morte é a libertação da alma em relação ao corpo. É a possiblidade de apreender o que é verdadeiro, belo, uno, bom e justo. A possibilidade de conhecer o que permanece.
A prova da imortalidade da alma será argumentada por Sócrates com seus discípulos em dois eixos principais: a partir do estabelecimento de ideias opostas e pelo pressuposto da participação da alma com o que é incorruptível, afastando-se do que é corruptível, como pretendemos apresentar logo mais adiante.
Mas além da morte e da imortalidade da alma, ao longo de todo o diálogo, Sócrates se posiciona como um mestre, diante de seus discípulos, sempre de modo muito pedagógico e cuidadoso. Mesmo diante da iminência de sua própria morte, não se descuida de repetir um ensinamento muito presente também em outros diálogos: o cuidado de si (επίμέλεια).
Justamente sobre isto, precisamos destacar a relevância do sentido deste termo (επίμέλεια): cuidado, atenção, dedicação, diligência com vigilância atenta. No contexto deste diálogo, já bem no final, vemos um reforço sobre o direcionamento/ensinamento ético socrático: que é o cuidado de si, como forma de não esquecer (descuidar de si) e então, com uma condição franca e sincera consigo (παρρήσια) em vista de ter uma relação ética autêntica de abertura com os outros.
Neste sentido, Foucault, em A coragem da verdade, destaca que o tema, nas obras do 'ciclo da morte' de Sócrates (Apologia de Sócrates – sobre o processo, Críton – sobre uma possível fuga da prisão e Fédon – sobre seus últimos momentos) “começa pela evocação de uma coisa que vai ser importante ao longo de todo o ciclo: o risco de se esquecer de si (soimême)” (FOUCAULT, 2011, p. 65). É o que podemos resumir sobre o método socrático, bastante conhecido: quando o Oráculo de Delfos disse que Sócrates era o grego mais sábio, ele se dispôs a uma busca (ζέτεσις). Em seguida, partiu para a prática do seu detalhado e conhecido exame investigativo (εξέτασις) e para o ensinamento do cuidado de si (επίμέλεια), como fortalecimento de si para um bem agir com os outros. Este método, para Foucault, resume com propriedade o objetivo da missão socrática que deve
[...] zelar permanentemente pelos outros, cuidar dos outros como se fosse seu pai ou irmão [...]. Para incitá-los a cuidar, não da sua fortuna, não da sua reputação, não das suas honrarias e dos seus encargos, mas deles mesmos, isto é, da sua razão, da verdade e de sua alma. Eles devem cuidar de si mesmos. Esta definição é capital (FOUCAULT, 2011, p. 74).
É importante destacar que a επίμέλεια sempre designa um cuidado no sentido positivo – diligente e atencioso. Não se refere a um aspecto de vigilância pela violência, como a de um feitor. É também um cuidado da alma, buscando livrar-se da opinião dos outros, com o uso do λόγος, com propósito de se livrar do que é injusto, mal e perecível. Para Foucault, “é esse o testamento de Sócrates, sua última vontade” (FOUCAULT, 2011, p. 97).
E agora o mais relevante e último pedido socrático a seu discípulo, já no final do diálogo: “'Críton', exclamou, 'devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida'” (FÉDON, 118a). Para caracterizar, cabe uma breve recapitulação de que Asclépio era filho de Apolo e Sócrates, tendo recebido a indicação divina, a partir da profecia do Oráculo, como sendo o homem mais sábio de Atenas, remete o pedido para uma última homenagem ao deus. E ao mesmo tempo, um agradecimento pela 'cura' que a divindade lhe proporcionou, bem como a seus discípulos. Observemos que o verbo está na primeira pessoa do plural: 'devemos' e para Foucault isso é um
[...] agradecimento à ajuda dada pelo deus, enquanto deus curador, a todos os que, Sócrates e seus discípulos, empreenderam se ocupar de si mesmos (epimeleîsthai), tratar de si mesmos, cuidar de si mesmos (therapeúein), no sentido de cuidar e de curar, como diz Sócrates com frequência (FOUCAULT, 2011, p. 98).
Nesse contexto fica evidente também a ênfase imperativa de Sócrates: “não te esqueças” (no original μή άμελησητε)ou o mesmo que dizer: não sejas negligente e tenhas cuidado consigo. De fato, fica evidente a preocupação de Sócrates com seus discípulos quando ele volta a reforçar o cuidado de si, o não se descuidar e não se negligenciar. O mestre pede para cuidar de si e dos outros. Talvez uma espécie de formação de uma 'grande rede', um tecido de φιλία, de cuidado de uns para com os outros.
Quais podem ser as implicações nas relações éticas, pela não observância desta última lição socrática? Se interpretarmos literalmente é o abandono de si e de descaso consigo e talvez, um consequente desprezo pelo outro. Uma sociedade com indivíduos 'anestesiados' e tomados pelo senso comum, num franco abandono do λόγος e um esvaziamento de propósitos éticos. Outra implicação que vemos é que com o descuido de si, esses homens se tornam facilmente manipuláveis, já que estão com a alma enfraquecida e tomada por falsas opiniões, são facilmente comandados.
O tema da επίμέλεια perpassa todo o 'ciclo da morte' de Sócrates, como vimos anteriormente sendo o seu principal testamento filosófico, que ecoa até hoje, como um farol de ensinamento ético para um bem viver, através do uso do λόγος e do autoconhecimento. Esta última lição é também uma grande aposta deixada pelo mestre de Platão, como destaca Grimaldi: “eis que o encantamento socrático está concluído. Nem as contradições, nem a impostura, nem as ironias deste mundo nos surpreendem mais” (GRIMALDI, 2006, p. 63).
O núcleo fundamental do diálogo Fédon é a imortalidade da alma, onde Sócrates vai discorrer sobre este tema com seus discípulos e por outro lado busca convencê-los de não temerem a morte. Esses dois eixos de argumentos atravessam todo o diálogo, culminando com o ensinamento do cuidado de si (επίμέλεια).
É a partir da articulação entre esses três princípios pretendemos apresentar como Sócrates indicava um caminho para uma vida feliz e todos os desdobramentos éticos correlacionados. A seguir, vamos trazer trechos do diálogo que possam fundamentar este nosso argumento.
O QUE SÓCRATES DEIXA DE ENSINO SOBRE O CUIDADO DE SI?
Iniciamos com a fala de Sócrates para Cebes, sobre os deuses, que “são nossos guardiões” e em seguida (63b) aborda o motivo para não se inquietar com a ideia da morte:
[...] com minha transferência para junto de deuses que são excelentes amos: se há o que eu defenda com convicção é isso, precisamente. Esse o motivo de não me revoltar contra a ideia da morte. Pelo contrário, tenho esperança de que alguma coisa há para os mortos, e, de acordo com antiga tradição, muito melhor para os bons do que para os maus (FEDON, 63b).
O mestre tenta convencer Cebes a não aceitar a opinião do senso comum e não temer a morte ou o castigo dos deuses, que são bons e são os protetores dos assuntos humanos. Por isso a morte é uma via de possibilidade de estar junto aos deuses. A morte é uma espécie de 'passaporte' para este lugar divino, onde os homens bons estarão reunidos e próximos do panteão divino como afirma Foucault:
[...] em 69d-e, vocês encontram esta pequena frase que passa rapidamente, na qual Sócrates diz: 'estou convencido de que, lá como aqui [lá é no outro mundo, aqui é na terra; M.F.], encontrarei bons mestres (despótas) e bons companheiros. Os bons mestres são os deuses – os deuses que já estão presentes e que acabamos de saber que se ocupam dos homens. [...]. Encontraremos lá – razão por conseguinte para não temer a morte – bons mestres e bons companheiros, como encontramos aqui (FOUCAULT, 2011, p. 87)
Sócrates busca desconstruir a ideia de que após a morte os homens não estarão abandonados, quer seja de bons companheiros ou dos deuses. Neste sentido, no final da Apologia (41c-d), Sócrates ressalta o papel da divindade na vida dos homens: “[...] a certeza de que para os homens de bem nenhum mal pode acontecer na vida nem na morte, e que os deuses não se descuidam de seu destino”. Foucault reforça a interpretação de que não devemos temê-los, porque “os deuses cuidam dos assuntos do homem sábio e, por conseguinte, não há mal possível para este, nem nesta vida nem na outra” (FOUCAULT, 2011, p. 88).
Nos diálogos Fédon, Apologia e Críton, temos o “ciclo da morte de Sócrates”, segundo Foucault. A proposta de Platão é viver exercitando a morte como uma reflexão metafísica e um exercício filosófico e espiritual. No Fédon, especificamente, identificamos esta prática ainda mais evidentemente: que o corpo é apenas um invólucro da alma e sua finitude, a partir de uma especulação filosófica, e não deve ser motivo de intranquilidade. Neste sentido, é o que afirma Nietzsche:
[...] a morte deve ser chamada de gênio propriamente inspirador da filosofia, ou de intermediador das musas para a filosofia: segundo Platão, filosofia é, pura e simplesmente, θανάτουμελέτε. Sem a morte, dificilmente se chegaria a filosofar. Primeiramente, no homem, surge a certeza da morte: o remédio, em contrapartida, são os pontos de vista metafísicos, o cerne de todas as religiões e filosofias (NIETZSCHE, 2020, p. 105-6).
Mas, para além de não temer a morte, qual a definição que Sócrates nos apresenta no diálogo? Como vimos anteriormente, o tema central abordado por Sócrates é a imortalidade da alma e também que a morte não deve ser temida, porque diz respeito somente à matéria física e a alma, sendo imortal, eterna e imperecível (106e), uma vez livre do invólucro do corpo, terá oportunidade de voltar-se para sua condição mais primordial.
Por isso, a única maneira da alma ser plena e capaz de conhecer as realidades imutáveis e eternas é após a morte. Mas, como vimos, para que a alma alcance a possibilidade de contemplar o que é verdadeiro e eterno, é preciso que tenha se dedicado à filosofia, seguindo um caminho de educação e de aperfeiçoamento, em direção ao Hades, através das quatro virtudes fundamentais, como afirma Sócrates (114e-115a):
Todo entregue aos deleites da instrução, com os quais adornava a alma, não como se o fizesse com algo estranho a ela, porém como joias da mais feliz indicação: temperança, justiça, coragem, nobreza e verdade, espera o momento de partir para o Hades quando o destino o convocar. Vós também, Símias e Cebes, acrescentou, e todos os outros, tereis de fazer mais tarde essa viagem, cada um a seu tempo. A mim, porém, para falar como herói trágico, agora mesmo chama-me o destino (FÉDON, 114e-115a).
Sócrates está tranquilo diante da morte iminente. Ele tem consciência de que a morte vai libertar a sua alma, mas por outro lado, temos a condição de existência de sua vida: de forma simples, com austeridade e também ensinando a seus discípulos sobre o que Foucault chama de parresía ética:
O modo de vida aparece como o correlativo essencial fundamental, da prática do dizer-a-verdade. Dizer a verdade na ordem do cuidado dos homens é questionar o modo de vida deles, é procurar pôr à prova esse modo e vida e definir o que pode ser validado e reconhecido como bom e o que deve, ao contrário, ser rejeitado e condenado nesse modo de vida. [...]. É sim, uma parresía ética. Seu objeto privilegiado, seu objeto essencial [é] a vida e o modo de vida (FOUCAULT, 2011, p. 130).
Neste sentido, é preciso questionar a maneira como se vive e a relação entre este viver e o modo de dizer, buscando uma harmonia, num modo de franqueza consigo. Uma “triagem de atos”, como explica Foucault: “[...]prestar conta de si mesmo, isto é, de mostrar que relação existe entre ele próprio e o logos (a razão) [...], uma prova que permite distinguir o que se fez de bom e o que se fez de mal na existência” (FOUCAULT, 2011, p. 126).
Como é sabido, ao final do diálogo Fédon vemos as últimas considerações de Sócrates para seus discípulos, que estão naquele momento derradeiro de despedida do mestre. São conselhos que apontam para o cuidado de si e dos outros (115b-c):
Depois de dizer essas palavras, falou Críton: 'Está bem, Sócrates; porém, que determinações me deixas ou a estes aqui, a respeito de teus filhos, ou o que mais poderemos fazer por amor de ti, que nos fora grato executar?'
'O que sempre vos digo, Críton', foi a sua resposta; 'nada tenho a acrescentar: se cuidardes de vós mesmos, tudo o que fizerdes será tanto por amor de mim e dos meus como de todos, ainda mesmo que nada me tivésseis prometido neste momento. Porém, no caso de vos descuidardes de vós mesmos e de não orientardes a vida como que no rastro do que vos disse agora e no passado, por mais numerosos e solenes que fossem vossos juramentos neste instante, não avançareis um único passo.
Por um lado, é bastante representativo ouvir este aviso socrático, o cuidado de si (επίμέλεια), na última etapa do diálogo. Entendemos que há uma importância representativa com o tema desta pesquisa: o conceito da morte e como podemos viver uma vida autêntica e feliz. O mestre discorreu sobre a imortalidade da alma e sobre não temer a morte e, ao final do diálogo, fala sobre este direcionamento ético da επίμέλεια, que pode ser compreendido como o objetivo da missão socrática:
[...] zelar permanentemente pelos outros, cuidar dos outros como se fosse seu pai ou irmão. Mas para obter o quê? Para incitá-los a cuidar, não da sua fortuna, não da sua reputação, não das suas honrarias e dos seus encargos, mas deles mesmos, isto é, da sua razão, da verdade e da sua alma (phrónesis, alétheia e psykhé). Eles devem cuidar de si mesmos. Essa definição é capital (FOUCAULT, 2011, p. 74).
ALGUMAS ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES
O tema do cuidado de si marca a última fase do diálogo Fédon. A época de Sócrates foi o período chamado 'de ouro' da antiguidade clássica. Pouco tempo depois, aquela sociedade mergulhou numa fase de derrocadas ético-políticas, com a invasão de Alexandre e, em seguida, com o período helenístico, quando Atenas perde sua autonomia política. O mundo grego estava em mudança, testemunhando um declínio dos valores éticos e políticos tradicionalmente conhecidos até então. Uma espécie de tentativa de apagamento das conquistas ético-políticas e das relações da πόλις em nome de um individualismo desmedido.
Mas por outro lado, eis que Sócrates deixa como um dos seus legados justamente a επίμέλεια, como nos lembra Foucault, retomando aspectos centrais do Fédon: “[...] 'fazei o que vos digo sem cessar [...]. Não é nada de novo'. E o que é que Sócrates diz sem cessar, que não é nada de novo e que é a última vontade que vai transmitir a seus filhos, seu círculo, seus amigos? 'Cuidai de vós mesmos (hymônautônepimeluúmenoi)” (FOUCAULT, 2011, p. 97).
Podemos nos perguntar, então, como esse cuidado de si se converte em termos éticos e políticos? Lembremos do Oráculo de Delfos mais uma vez. Apolo era o deus do arco – da lira e da flecha. O deus que deixou a Sócrates a missão de ensinar sobre o autoconhecimento e também o afastamento da ύβρις – dos excessos e das desmedidas, como caminho indicativo para uma vida harmônica. O cuidado de si, em última análise, como relembra Foucault, “[...] é na medida em que os deuses também cuidaram de nós. Foi preocupando-se conosco que, precisamente, eles enviaram Sócrates para nos ensinar a cuidarmos de nós mesmos” (FOUCAULT, 2011, p. 99).
Em nossos tempos, ante toda a truculência que testemunhamos, os ensinamentos de Sócrates nos indicam que nada é tão atual quanto o exercício filosófico do voltar-se para si, do autoconhecimento, pela via do λόγος culminando com a possibilidade do cuidado de si para ser possível cuidar do outro. Esta exigência fica bem evidente quando observamos a origem etimológica do termo επίμέλεια, que é a junção de uma preposição (επί), 'bem junto de' com e um verbo (μέλω), 'cuidar de'.
Entendemos que as atribulações e perturbações da vida cotidiana da época do período clássico da filosofia grega têm muitas semelhanças com nossos tempos. Tanto no século V a.C., quanto nos dias atuais, entendemos que o tema da finitude desta vida corpórea suscita múltiplas inquietações, que provocam outras tantas reações, que estão unicamente no plano da δόξα.
Mas, com o uso da razão, do 'conhece-te a ti mesmo', cada indivíduo é convidado viver uma vida longe dos sofrimentos para a alma, voltados para o seu refinamento, em direção ao mundo transcendente da estabilidade e da επιστήμη. Como nos diz Foucault ao final de sua conferência: “[...] não se esqueçam de fazer o sacrifício ao deus, a esse deus que nos ajuda a nos curarmos quando cuidamos de nós mesmos” (FOUCAULT, 2011, p. 99). É justamente este o último pedido de Sócrates a Críton, no Fédon: “devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!”.
Quando nos deparamos com o imperativo “não te esqueças” (“μή αμελήσητε”), mais uma vez, somos lembrados do reforço socrático, na forma de aconselhamento ético, para não nos descuidarmos, não sermos negligentes, nem conosco e nem com os outros. Por outro lado, uma última homenagem a Apolo, pois Asclépio era filho do deus e Sócrates, que recebeu uma indicação divina do Oráculo de Delfos (templo apolíneo) como sendo o homem mais sábio de Atenas, neste último ato, vai reverenciar o deus e ao mesmo tempo reconhecer a sua condição de homem mortal e de alma imortal.
O verbo utilizado por Sócrates é o 'devemos', que está na primeira pessoa do plural; revela um vínculo de amizade entre o mestre e seus discípulos. Este por ser entendida como um último cuidado que Sócrates manifesta com todos, porque foram curados da δόξα.
Como vimos, o Fédon é um diálogo sobre a imortalidade da alma e os aspectos que falam a respeito desta imortalidade, incluindo principalmente uma alma livre das falsas opiniões e dos falsos discursos (misologias). Quais seriam essas falsas opiniões? Sócrates indica, ao longo das passagens citadas, por exemplo, o medo da morte e da miséria. E no campo da ética, o cuidado de si (επίμέλεια). Esta é a consideração final de Foucault, na aula de 15 de fevereiro de 1984, quando ele diz que a última vontade de Sócrates é:
[...] que vocês cuidem de si mesmos. E pela segunda vez de forma simbólica, remetendo desta vez não mais ao cuidado que os homens devem ter consigo mesmos, mas ao cuidado que os deuses têm com os homens para que eles tenham cuidado por si mesmos, sob a forma do sacrifício a Asclépio (FOUCAULT, 2011, p. 99).
Destacamos quão relevante é esta análise de Foucault no aspecto ético: os deuses cuidam dos homens, são zelosos para e se ocupam deles; e estes devem ser e estar atentos e cuidarem de si, sem temores e sem violência, com zelo. Porque neste contexto, a επίμέλεια não tem sentido de uma vigilância como a de um feitor, por exemplo, como se tivesse um olhar de cerceamento e eventual punição. Ao contrário, é uma diligência de solicitude positiva de uns para com os outros. Uma dedicação recíproca ou uma ética do cuidado, que é tão ancestral, quanto a própria história do homem, como afirma o pesquisador Sidarta Ribeiro, em seu Sonho manifesto:
[...] desde o Paleolítico Superior existem evidências de que nossos ancestrais desenvolveram uma sofisticada ética do cuidado, baseada nos valores da atenção, da responsabilidade, da comunicação, da responsividade, da competência, da confiança, do respeito, da solidariedade e da pluralidade. Nossa ancestralidade é violenta, mas certamente é também amorosa, altruísta e capaz de esmerados cuidados parentais (RIBEIRO, 2022 p. 72).
Por fim, qual poderia ser o fio condutor, a partir do diálogo, para uma vida feliz? A morte, como vimos, é da condição do que é perecível, é inelutável e inescapável. A morte é um aspecto natural da matéria corpórea, como escreve Nietzsche: “[...] a morte é corporal. Por meio de que haveria a alma de perecer?”(NIETZSCHE, 2020, 106). A alma, pois, é imortal. Por outro lado, há de se cuidar de si e dos outros, como é recomendado por Sócrates ao final do diálogo.
E neste cuidado reside um voltar-se para si, uma busca pelo autoconhecimento e um afastamento das faltas opiniões e dos falsos discursos. Porque os deuses são bons, eternos e cuidam dos assuntos dos homens, estes devem justamente ser cuidados consigo e com os outros, buscando um caminho de uma vida feliz em επίμέλεια.
Referências bibliográficas
FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade: o governo de si e dos outros II.São Paulo: Martins Fontes, 2011.
GRIMALDI, Nicolas. Sócrates, o feiticeiro. São Paulo: Loyola, 2006.
MONTAIGNE, Michael. Ensaios. 1ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1972.
NIETZSCHE, Friedrich. Introdução ao estudo dos diálogos de Platão. São Paulo: Martins Fontes, 2020.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. 3 ed. Belém:Edufpa, 2015.
______. Críton. 3 ed. Belém: Edufpa, 2015.
______. Fédon.3 ed. Belém: Edufpa, 2011.
RIBEIRO, Sidarta. Sonho manifesto: dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico.São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
