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Como o cinema pode fazer pensar? Uma reflexão sobre percepção de ideias

Emiliana Santana Maia
Mestranda em Educação (UESB)

Introdução
O cinema é uma forma de arte e como tal possui a capacidade de ser tanto uma ferramenta de entretenimento quanto um meio didático de reflexão sobre questões filosóficas e científicas. A relação entre filosofia e cinema pode oferecer novas perspectivas sobre as experiências humanas. No presente texto abordaremos, a título de exemplo, o filme O ponto de mutação, baseado no livro homônimo de Fritjof Capra. Este filme, além de abordar a revolução proposta pela física contemporânea, questiona a visão mecanicista de René Descartes, propondo uma nova visão de mundo mais integrada e holística.

No que segue, pretendo discutir a relação entre o cinema e a filosofia, utilizando o filme O ponto de mutação como base para traçar um paralelo com a física clássica, aquela apresentada pelo filósofo René Descartes. Abordar o tema através de uma obra cinematográfica supõe conceber o cinema como instância que transcende a área estrita do entretenimento. Para além de servir de entretenimento, um filme pode servir como uma ferramenta didática para ilustrar dilemas humanos e científicos. Como é sabido, o referido filme tem como base o livro de Fritjof Capra, no qual o autor discute a ruptura causada pela física quântica em relação à visão mecanicista de mundo herdada de Descartes. Em que medida a física quântica pode ser considerada um novo paradigma?

A evolução da percepção na ciência
Capra, no livro O ponto de mutação, critica a visão cartesiana, ainda presente nas ciências e na sociedade. Descartes, no século XVII, desenvolveu um pensamento racionalista que se tornou a base do método científico moderno. O racionalismo cartesiano é fundamentado na ideia de que a razão é a principal fonte de conhecimento verdadeiro, em oposição aos sentidos, que são suscetíveis de enganos. O filósofo francês ao estabelecer a famosa máxima “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”), sugere que a única certeza inquestionável é a existência do sujeito pensante.
Descartes foi quem primeiro propôs a separação metodológica e radical entre mente e corpo – mais radical e decisiva que aquela divisão platônica –, cujo resultado está presente até hoje na expressão dualista da natureza que algumas teorias adotam como ponto de partida. Acusa-se Descartes de ser o iniciador da abordagem dualista da ciência moderna, no interior da qual o ser humano e a natureza são concebidos como entidades separadas e analisadas de forma fragmentada.
Em contraste, a física quântica, que emergiu no início do século XX, propôs um paradigma completamente diferente. Enquanto a física clássica, que Descartes ajudou a fundar, concebia o mundo como uma máquina composta de partes isoladas, a física quântica revelou que as partículas subatômicas não se comportam de maneira previsível ou determinística, mas possuem propriedades de incerteza e interdependência. Segundo o princípio da incerteza (HEISENBERG, 1927), não é possível medir simultaneamente e com precisão a posição e a velocidade de uma partícula, o que desafia a visão cartesiana de um mundo mecanicista e perfeitamente previsível.
Além disso, a física quântica apresenta a ideia de entrelaçamento quântico, através do qual, as partículas podem estar interligadas de forma instantânea, independentemente da distância entre elas (EPR Paradox, 1935). Essa interconexão sugere que tudo no universo está interrelacionado, desafiando a visão cartesiana de um mundo fragmentado e mecânico. Capra adota essa visão em seu livro, sugerindo que a revolução quântica oferece uma compreensão mais integrada da realidade, a partir da qual a natureza não é vista como uma máquina, mas como um sistema dinâmico e interconectado. O seu livro revela que há uma evolução na percepção da ciência, logo, da realidade como um todo.

Necessidade de uma mudança paradigmática
O filme O ponto de mutação (1990) aborda a necessidade de uma mudança paradigmática na sociedade, propondo uma visão sistêmica do mundo como alternativa ao pensamento mecanicista predominante. Enquanto no livro Capra analisa como a visão cartesiana e reducionista influenciou negativamente diversas áreas, a exemplo da ciência, da economia, da medicina e da política. Capra argumenta que essa visão fragmentada contribuiu para crises ambientais, sociais e de saúde. Como solução, propõe uma abordagem holística e ecológica baseada na interconexão de todos os sistemas, inspirada na física quântica e na ecologia profunda.
O filme, dirigido por Bernt Capra (irmão do autor), dramatiza essas ideias por meio do encontro de três personagens em Mont Saint-Michel, na França. Os personagens principais discutem o impacto do pensamento cartesiano sobre a política e a sociedade, a partir de figuras representativas de diversas áreas de atuação humana. Assistimos o político Jack Edwards (defensor do pensamento tradicional cartesiano) em diálogo com o poeta Thomas Harriman (ex-político), com o objetivo de entender mais profundamente a realidade). Ambos refletem sobre como a visão cartesiana de um mundo mecânico afetou a forma como percebemos a natureza, a sociedade e até a política.
A cientista Sônia Hoffman, por sua vez, faz uma avaliação e mostra o quanto a visão mecanicista levou a uma fragmentação da realidade, tanto no campo das ciências quanto da ação política. Em sua avaliação uma nova maneira de ver o mundo é necessária para resolver os problemas globais atuais. Ela sugere que a física quântica oferece uma visão holística, a partir da qual tudo está interligado e a adoção de princípios de ação em bases holísticas pode ser uma forma de superarmos a “crise de percepção” hoje em vigor e permitir que enfrentemos com mais eficácia questões como a superpopulação e as crises ambientais.
O filme, assim como o livro, sugere que a humanidade está em um ponto de mutação, ou seja, um momento crítico no interior do qual mudanças profundas são necessárias para garantir um futuro sustentável. Comparada às mudanças ocorridas, a exemplo da visão heliocêntrica do mundo que superou a visão geocêntrica, a mudança exigida e entrevista pelos personagens do filme, pode ser caracterizada de paradigmática. Não se trata de mudar um determinado aspecto, mas de uma percepção da natureza de um modo completamente distinto do nosso modo habitual.

A crise de percepção: leitura e a experiência visual
No livro O ponto de mutação, Capra apresenta a ideia de uma crise de percepção, afirmando que a maioria dos problemas da humanidade – ambientais, sociais, econômicos e políticos – decorre de uma visão fragmentada e mecanicista do mundo. Ele argumenta que, para superar essas crises, precisamos adotar um pensamento sistêmico, que reconheça a interdependência de todas as coisas.
Nos séculos XVI e XVII, a visão medieval do mundo passou por uma transformação radical. A ideia de um universo orgânico, vivo e espiritual foi substituída pela concepção de um mundo mecânico, com a metáfora da "máquina do mundo" tornando-se central na era moderna. Esse processo foi impulsionado por revoluções nas áreas da física e da astronomia, culminando nas descobertas de Copérnico, Galileu e Newton. A ciência do século XVII foi marcada por um novo método de investigação, defendido por Francis Bacon, que incluía a descrição matemática da natureza e o raciocínio analítico proposto por Descartes. Reconhecendo o impacto fundamental da ciência nesse período de transformações, os historiadores chamaram os séculos XVI e XVII de Idade da Revolução Científica (Capra, 2006).
Ler essa ideia no livro e vê-la representada no filme são experiências distintas. O livro exige uma reflexão ativa: Capra conduz o leitor por uma jornada intelectual, explicando historicamente como a ciência e a filosofia construíram a visão de mundo cartesiana, e como a física moderna, a biologia e a ecologia demonstram a necessidade de uma abordagem mais integrada. A leitura nos permite absorver, questionar e compreender conceitos, subjacentes aos dois paradigmas que tem norteado nossa visão de mundo: a mecanicista e a ecológica ou holística. Assim, afirma Capra:

O antigo conceito de Terra como mãe nutriente foi radicalmente transformado nos escritos de Bacon e desapareceu por completo quando a revolução científica tratou de substituir a concepção orgânica de natureza pela metáfora do mundo como máquina. Essa mudança, que viria a ser de suprema importância para o desenvolvimento subsequente da civilização ocidental, foi iniciada e completada por duas figuras gigantescas do século XVII: Descartes e Newton (CAPRA, 2006, p. 54).


Portanto, a leitura do livro nos permite reinterpretar as metáforas utilizadas por Francis Bacon para descrever o processo de dominação da natureza, vista como fêmea que deveria ser dominada e cujos segredos precisam ser desvendados e colocados ao serviço do desenvolvimento da civilização. Ao mesmo tempo nos permite refletir sobre as consequências nefastas de uma visão fragmentada da vida, do meio ambiente, visíveis nos problemas sociais, políticos e econômicos. Como superar essa percepção? O autor indica que é urgente e necessária uma educação voltada para a conscientização sobre a interdependência entre os problemas globais que afetam a humanidade, cujo resultado deve ser a criação de novas abordagens que considerem essas interconexões e interdependências com mudanças de atitudes.
Já o filme O ponto de mutação traduz essa crise de percepção em imagens e diálogos. Em vez de apresentar apenas conceitos abstratos, o filme incorpora na conversa entre os três personagens: a cientista (que defende a visão sistêmica), o político (representante do pensamento tradicional e mecanicista) e o poeta, que busca compreender ambas as perspectivas. O diálogo entre os personagens torna a questão mais acessível e emocional, pois a crise de percepção não é apenas um problema intelectual, mas algo que afeta nossas relações, decisões políticas e visão de futuro. O conteúdo imagético do filme torna significativa a leitura do livro.
O filme utiliza a paisagem de Mont Saint-Michel para simbolizar esse momento de transição: um local que se transforma conforme a maré sobe e desce, representando a necessidade de adaptação e mudança. Essa metáfora visual reforça a ideia de que estamos em um ponto de mutação – um momento crucial em que podemos escolher entre persistir em um modelo falho ou evoluir para uma nova forma de pensar e agir.
A crise de percepção, mencionada por Sônia, reflete a necessidade de uma mudança radical na maneira como entendemos a realidade. A cientista critica a ideia cartesiana de um mundo mecanicista, que reduziu a natureza e o ser humano a componentes isolados. Embora, o roteiro do filme não seja uma reprodução literal do livro, no trecho seguinte a personagem diz: “A verdadeira crise não é política, econômica ou tecnológica – é uma crise de percepção. Nossa visão fragmentada do mundo nos impede de ver as conexões entre os problemas e encontrar soluções eficazes”. Assim, a cientista resume bem a ideia central do livro, ou seja, que a ciência cartesiana e o modelo mecanicista fragmentaram o conhecimento em disciplinas isoladas, dificultando a compreensão de problemas complexos, como a crise ambiental ou as desigualdades sociais.
Segundo Capra, esse modelo não consegue lidar com os problemas sistêmicos e interdependentes que enfrentamos hoje, como a destruição ambiental e as desigualdades sociais. O modelo mecanicista, por sua característica reducionista e específica, não é capaz de reconhecer a necessidade de uma abordagem integrada que compreenda e explique de modo coerente os fatores ecológicos, sociais, políticos e econômicos e, assim, contribua para a resolução destes problemas.
Essa proposta de mudança de paradigma é reforçada pela física quântica, que desafia a visão cartesiana ao afirmar que a realidade não pode ser entendida apenas pela análise de suas partes isoladas, mas deve ser compreendida como um todo interconectado. Em vez de fragmentar a natureza, como é a proposta do modelo cartesiano, a física quântica sugere que o mundo deve ser visto de maneira integrada, no interior do qual tudo está interconectado e tudo é interdependente. Essa ideia pode ser a mensagem central do livro que é também o apelo central do filme: qualquer mudança em uma parte afeta o todo.


Conclusão
A partir da leitura do livro, podemos aprofundar na teoria e na história da concepção científica do mundo. O filme, por seu turno, desperta uma compreensão mais intuitiva e sensorial da crise de percepção. Ambas as obras se complementam: o livro fornece a estrutura conceitual e o filme traduz essas ideias em uma expressão visual e emocional. Juntas, as obras contribuem para a realização de questionamentos, tais como: a) como a nossa forma de perceber o mundo afeta nossas decisões cotidianas?; b) de que maneira o pensamento fragmentado contribui para crises ambientais e sociais?; c) como podemos incorporar uma visão mais sistêmica em nossas vidas e comunidades?
Portanto, ler o livro e assistir o filme o Ponto de mutação, são formas diferentes e complementares, de entender a urgência por novas formas de pensar e agir no mundo enquanto pontos chave para transformar a realidade e vislumbrar um futuro promissor para as próximas gerações.

Referências bibliográficas

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2006.
DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
HEISENBERG, Werner. The physical principles of the quantum theory. Chicago/New York: Dover, 1949.
RIBAS, Maria Alice Coelho; CENCI, Márcio Paulo. Filosofia e cinema: possíveis entrecruzamentos. Thaumazein, v. 1, n. 1, 2007, p. 1-9.
PONTO DE MUTAÇÃO. Direção: Bernt Amadeus Capra (112min) Colorido. Legendado. Overseas Filmgroup/Cohen Production: Estados Unidos, 1990.