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A vontade como afirmadora da vida em Nietzsche

Jadilson Almeida Vilas Boas
Mestre em Memória, História e Sociedade (UESB)

Introdução

No final do século XIX, Nietzsche empreendeu uma crítica até certo ponto irônica e ao mesmo tempo radical aos valores tradicionais da cultura ocidental que ele considera decadentes. Somada à crítica a certos valores tradicionais, a sua reflexão crítica alcança tambéma ideia platônica de universalidade dos valores bem como ao cristianismo, este em uma vinculação direta à metafísica que o sustenta.
Ao declarar guerra a todos os domínios da civilização ocidental, o autor de Além do bem e do mal, notou a seguinte inconsistência: os filósofos da modernidade julgavam estar vivendo em um mundo novo (moderno), mas aceitavam que o passado greco-romano deveria ser respeitado na construção desse novo mundo e, consequentemente, do novo homem. Desse modo, a sociedade moderna pode ser entendida como um conjunto amplo de modificações nas estruturas sociais do Ocidente, a partir de um processo longo de racionalização da vida. A modernidade está inserida emum contexto cultural estritamente vinculado ao pensamento ocidental e reflete esse processo de racionalização nas esferas da política, da filosofia, da cultura e da ciência.


O objetivo do presente estudo é analisar o tema da moral a partir de alguns aspectos no interior do pensamento de Nietzsche. Advertimos ao leitor, que a discussão sobre a moral é um tópico longamente debatido ao longo da história das ideias. No que segue abaixo gostaríamos de reconstruir a crítica de Nietzsche direcionada à moral.

Crítica como modo de filosofar

A crítica de Nietzsche à existência de valores universais aparece especialmente em duas importantes obras: Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro(1886) e Genealogia da moral: uma polêmica (1887). Em Além do bem e do mal, foco do nosso estudo, o filósofo reflete sobre a moral como uma prescrição de formas de agir com base em valores considerados universais. É um fato que os filósofos sempre se preocuparam em encontrar os fundamentos da moral, isto é, os valores básicos que garantem a existência de uma moral. O importante para Nietzsche é que nenhum deles preocupou-se com a própria moral no sentido de não problematizá-la, uma vez que ela sempre foi considerada dada.
É nesse contexto histórico-filosófico que o filósofo alemão lança o seu desafio: é preciso refletir sobre a própria moral, não do ponto de vista ideal, mas a partir daquela moral praticada ao longo da história. Para o autor, ao contrário do que teorizou os filósofos atenienses Sócrates e Platão, a moral é produzida historicamente, de acordo com a situação do indivíduo no contexto social. Esse seu ponto de vista pouco convencional, renovou a discussão dos temas clássicos, a saber, a verdade, a moral, o cristianismo... promovendo uma crítica radical de todos os valores da cultura ocidental.É nesse contexto que Nietzsche pode ser considerado o pensador cuja crítica à tradição filosófica, clássica e moderna, foi mais marcante.
A esse respeito, no horizonte do argumento, entre estilo e comicidade, Nietzsche “zomba do racionalismo crítico moderno, de sua pretensão de fundamentar nosso conhecimento e nossas práticas” (MARCONDES, 2010, p. 249). Desse modo, um de seus alvos prediletos é Kant, como revela a passagem a seguir:

[...] Kant se orgulhava da sua tábua de categorias, ele dizia com essa tábua nas mãos: 'Isto é a coisa mais difícil que já pôde ser realizada em prol da metafísica'. – Compreenda-se bem esse 'pôde ser'! Ele estava orgulhoso de haver descoberto no homem uma nova faculdade, a faculdade dos juízos sintéticos a priori (NIETZSCHE, 1998, I, § 11, p. 17).

Sobressai, nesta passagem, um tanto quanto irônica, o tipo de crítica de Nietzsche à tradição filosófica do idealismo alemão, às suas pretensões de descobrir algo profundo, a saber, os fundamentos de nosso conhecimento e de nosso agir moral. Já em uma passagem contida na obraGenealogia da moral, o filósofo do martelo adverte: “Todas as ciências devem doravante preparar o caminho para a tarefa futura do filósofo, sendo essa tarefa assim compreendida: o filósofo deve resolver o problema do valor, deve determinar a hierarquia dos valores” (NIETZSCHE, 1998, I, § 17, p. 46).
De modo muito breve, o leitor pode notar que a crítica – à tradição filosófica, à moral e à religião –, não é apenas o objetivo da reflexão de Nietzsche, mas faz parte do seu modo de filosofar. Sua crítica ao pensamento metafísico, visa romper com a tradição que tentava filosofar baseada em certos princípios nos quais os valores morais estavam vinculados às “verdades suscitadas pelo além”. Nesse processo de crítica o filósofo alemão descobre que o problema da civilização é algo antigo e nasceu com a filosofia grega: o próprio surgimento da filosofia grega, com seu método lógico-científico em detrimento do pensamento mítico, que repousa na instauração do predomínio da razão, da racionalidade argumentativa, da demonstração, em detrimento da vida.
Desse modo, a tradição a partir de Sócrates e Platão, ao estabelecer a razão como modelo imprescindível da maneira de filosofar, cria obstáculos para o desenvolvimento de uma filosofia voltada para a afirmação da força vital do homem. Com Nietzsche, a crítica à filosofia é dirigida ao todo e não uma crítica restrita apenas à moral ou ao fundamento da moral. Sua crítica revela-se como um modo de filosofar, cujo ponto de partida está ligado à origem da filosofia, na Grécia.

A razão: um problema a partir de Sócrates e Platão

O estilo de Nietzsche,de caráter polêmico e irreverente,aforismático e fragmentário, visa realizar a crítica à cultura grega e sua consequente influência no desenvolvimento do pensamento ocidental. Na valorização da razão como aspecto de fundamental importância à cultura do século XIX, está presente toda a herança socrático-platônica, que para se impor “[...] aniquilou outra forma extremamente rica, que compreendia uma maneira de interpretar o mundo, a mitologia” (GRUNEWALD, 2013, p. 8).
Através do mito e da tragédia, os gregos expressavam esse elemento vital no confronto entre o homem e o seu destino, visível na figura do herói que pretende superar seus limites, como uma forma do homem se relacionar com o mundo, com a natureza, consigo mesmo e com os deuses. O nascimento da filosofia, na avaliação de Nietzsche, eliminou esses modos de superação e de relação; ao torna-se a única via explicativa, empobreceu a expressão da vida.
É nesse sentido que podemos compreendera crítica filosófica nietzschiana ao pensamento clássico grego. O seu ponto de partida é o questionamento à tradição filosófica e sua origem, notável através dos seus desdobramentos culturais.Para tanto, ao analisar a passagem da mitologia para o pensamento lógico-racional e o consequente surgimento da filosofia no período clássico, Nietzsche observa que algo de fundamental se perdeu ali, ou seja, “[...] a filosofia, segundo ele representada por Sócrates, o 'homem de uma visão só', instaura o predomínio da razão, da racionalidade, da lógica, do conhecimento científico, da demonstração” (MARCONDES, 2010, p. 248).
Por ocasião do surgimento da filosofia, algo relacionado à vida se perdeu. É nesse sentido que o filósofo alemão constata que o início desse período coincide com o período de decadência do homem, pois confere ênfase à racionalidade lógica iniciada por Sócrates e que “Platão, posteriormente, sistematizou a concepção metafísica que culminou na desvalorização do mundo sensível e na supervalorização do mundo ideal” (GRUNEWALD, 2013, p. 6). Nessa perspectiva, o homem parece ter perdido uma relação mais próxima com a natureza e suas forças vitais evidenciadas no período anterior e notável nasrealizações do gênio helênico que antecederam ao surgimento da filosofia. O pressuposto de Nietzsche é que na época dos mitose das tragédias, havia algo de fundamental que impulsionava a cultura e não se compara às aquisições da razão e da chamada cultura clássica.
Ao se distanciar da natureza e das forças vitais, imprescindíveis à afirmação e à exaltação da vida – vitalidade que encontra sua expressão nos rituais dionisíacos, na dança, na embriaguez –, Nietzsche constata que o espírito dionisíaco foi abandonado em prol da exaltação da razão e do intelecto, que ele caracteriza como espírito apolíneo. Ao se debruçar sobre a cultura e a civilização europeias, Nietzsche é levado a criticar a modernidade por sua sobrevalorização do uso da razão em detrimento dos instintos, bem como critica a sua tentativa de equilibrar o caráter racional e o caráter instintivo do homem. Interessa ao filósofo alemão questionar, problematizar essa elevada aposta segundo qual a razão deveria comandar a vida dos homens. Sua crítica acaba revelando o que está em vigor, em meio as posturas racionais empreendidas a partir de Sócrates e Platão e que são retomadas na sociedade moderna, “[...] um mesmo indexador que as uniformiza” (BRANDÃO, 2007, p. 170).
Portanto, ao se debruçar na tentativa de harmonizar a razão e o instinto do homem, incompatível ao modelo moderno de pensamento, Nietzsche retoma à Grécia pré-socrática, cujas características são a mitologia, a tragédia, os rituais dionisíacos, a música grega, um período de transição do período arcaico para o clássico. Através do uso do termo “pré-platônicos”,para se referir aos pensadores que vieram antes de Sócrates, Nietzsche empreende críticas a essa tradição filosófica e aos seus valores. Para ele o ato de passar em revista a tradição visa também restaurar os valores primitivos ali existentes que poderiam ser apresentados hoje.
Se a razão, aquela de origem socrático-platônica, ao superar a visão dionisíaca do mundo, tornou-se um problema para o desenvolvimento de uma filosofia voltada para a afirmação da força vital do homem, pois esta em sua forma afirmativa visa uma intensidade máxima da vida, de uma vida que não seja mais empobrecida, enfraquecida, mas ao contrário, a mais intensa e a mais viva possível. É nesse sentido que interessa à razão contemporânea – aquela da época de Nietzsche e da nossa – revisar a sua própria história e mostrar o quanto a institucionalização da religião e a criação de uma determinada moral não revelam uma evolução da cultura, mas sim a sua decadência, quando observada à luz da cultura grega arcaica.

A crítica empreendida contra o cristianismo

Podemos afirmar que uma das características fundamentais do pensamento de Nietzsche se apresenta como crítica profunda aos valores morais do cristianismo. Qual o aspecto central desta crítica? A resposta pode ser assim elaborada: o fato de a religião cristã afirmar uma outra vida, além dessa, em outro mundo. Ao preconizar a eternidade da alma em detrimento desta vida e, por consequência, ao desprezaresse mundo presente e tudo que é material, cria-se uma realidade externa para dar sentido à vida. Essa postura da religião e seus valores morais leva o homem, agora movido por um ressentimento, a criar para si uma fuga em direção a um mundo metafísico, como uma necessidade.
Diante da insegurança e da falta de tranquilidade ao longo de sua existência, o indivíduo parece mesmo ter perdido o sentido do exercício de vida. No entanto, por mais paradoxal que possa ser, essa relação conflituosa que se estabelece entre a vida e o indivíduo, parece apontar na direção de uma perspectiva, na qual ele procura, de forma incessante, encontrar um sentido para a sua vida, pois o homem, cercado por dúvidas e questionamentos em sua vida cotidiana, percebe que falta algo que proporcione sentido, que lhe dê proteção e alívio, que lhe dê a tranquilidade, que lhe forneça um lenitivo capaz de exaltar e justificar a sua existência.
O que fazer diante dessa falta de sentido para a sua vida? Como lidar com aquilo que lhe traz intranquilidade? Defrontado com todos esses desafios, eis que surge algo ao qual esse homem precisa se agarrar. Eis que surge a existência de um mundo, um outro mundo, no qual ele será destacado, essa possibilidade ocupará um lugar distinto e elevado e, muito provavelmente, se tornará uma figura preferida, eminente.
No entanto, ao invés de preencher o vazio com que o homem se deparou ao longo do percurso da sua existência, isto é, não conseguindo apropriar-se das estruturas e coordenadas de sua vida, seus desejos, o cristianismo se revela, segundo Nietzsche, como mais um problemaa ser enfrentado pelo homem. Ou seja, o problema central do cristianismo está numa relação intrínseca e direta com a essência de outro mundo, de outra vida, em detrimento, em desfavor desta vida e deste mundo, desta realidade.
Mas, de onde se origina o combate de Nietzsche contra a religião cristã? Em meio aos ataques e críticas violentas à religião cristã, o autor d'O Anticristo analisa o cristianismo desde as suas origens e afirma que este nasceu e cresceu num terreno desnivelado, falso e que, tempos depois, foi pavimentado pelo apóstolo Paulo, que em contraste com Jesus, transformou a prática da vida de um coração puro, ensinada por Jesus, numa instituição de milagres, numa Igreja que traz em seu bojo recompensas, castigos e pecados. Desse modo, o apóstolo Paulo é certamente um dos expoentes do cristianismo em que mais se evidencia o núcleo da fundação da doutrina cristã, ao formular a ideia cristã do pecado, algo que será retomado, com algumas ressignificações por Agostinho.
Observa-se que Paulo é o criador dos conceitos como além, juízo final, pecado, salvação, entre outros, que farão parte do credo católico cristão vinculados ao início do uso da moral. Todavia, parece mesmo haver uma dissemelhança entre Jesus e o apóstolo Paulo: “Nietzsche põe assim em contraste o tipo de Jesus evangélico e o tipo de São Paulo, o fundador da Igreja. Para Nietzsche, o cristianismo é mais obra de São Paulo do que do Nazareno” (FINK, 1983, p. 147).
Sendo assim, resta saber como o homem, ou melhor, o cristão, ao se sujeitar às exigências da religião cristã, nega e inibe a sua própria capacidade de criação dos valores. A criação de valores a partir de valores transcendentes e fincados no além-mundo está em contraste com a vida humana como a conhecemos e sentimos, marcada pelo fluxo contínuo.

A afirmação da vida

Afirmar e dizer “Sim” à própria vida, sem pressupor outros valores além da vida é uma das ideias-chave da filosofia de Nietzsche. No prefácio da obra Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro, doravante ABM, o filósofo do martelo critica os dogmáticos, além de fornecer os pilares que darão sustentação às expressões usadas por ele no desenvolvimento das considerações sobre a ideologia dogmática. No Prólogo da obra ABM, Nietzsche apresenta a história da filosofia atrelada às concepções históricas do dogmatismo e afirma que “zombadores” no presente insistem e mesmo sustentam “que todo dogmatismo está no chão, ou mesmo que está nas últimas” (NIETZSCHE, 1992, p. 7).Ou seja, ao fazer um diagnóstico do dogmatismo, Nietzsche destaca o processo pelo qual, ao mesmo tempo, dissolve o pensamento dogmático.
No capítulo primeiro de ABM, Dos preconceitos dos filósofos, Nietzsche se interroga sobre a vontade de verdade que atravessa toda a história da filosofia, pois “A vontade de verdade, que ainda nos fará correr não poucos riscos, a célebre veracidade que até agora todos os filósofos reverenciaram: que questões essa vontade de verdade já não nos colocou! Estranhas, graves, discutíveis questões! Trata-se de uma longa história – mas não como se apenas começasse?”(NIETZSCHE, 1992, I, § 1, p. 9).
O início do capítulo é uma provocação apensar também sobre o primado da psicologia. Psicologia aqui, não é a ciência particular mas o domínio específico da cultura explícito através de uma morfologia da vontade de poder:

Toda psicologia, até o momento, tem estado presa a preconceitos e temores morais: não ousou descer às profundezas. Compreendê-la como morfologia e teoria da evolução da vontade de poder, tal como faço – isto é algo que ninguém tocou sequer em pensamento: na medida em que é permitido ver, no que foi até agora escrito, um sintoma do que foi até aqui silenciado (NIETZSCHE, 1992, I, § 23, p. 29).

Desse modo, a psicologia é um instrumento principal que possibilita ir além do bem e do mal. Essa compreensão permite que o autor faça uma avaliação interna tanto da moral, como também da cultura e também da realidade. Para Nietzsche, a opinião dos filósofos não passa de preconceitos morais. Esses preconceitos são resultados de uma necessidade psicológica de assimilação, simplificação e falsificação do fenômeno da vida. Assim, a busca que a filosofia faz em direção a uma verdade universal cai por terra.
Não obstante, segundo Nietzsche, não existe uma moral, mas muitas morais. Todavia, existem dois tipos básicos, a saber, a moral dos senhores e a moral dos escravos. Mesmo que o filósofo do martelo aponte para a existência de dois tipos de moral, podemos reconhecer, no entanto, que elas se encontram estreitamente ligadas à vontade de poder e, portanto, à vida. Sua análise indica que não assistimos a uma separação entre vontade de poder e vida, pois essas duas instâncias se identificam. Para ele, viver é fundamentalmente querer mais vontade de poder. Porém, é preciso esclarecer que poder aqui não se identifica com algo instituído ou algo relacionado ao mérito de ordem exterior, mas como desejo de criar, de formar.
Uma vez que a categoria da vontade de poder é de suma importância para a discussão em torno de uma teoria sobre a afirmação da vida, conforme afirmado em linhas acima, cabe indagarmos: como Nietzsche relaciona vontade de poder e vida? Para ele, a vontade de poder é a própria vida, pois viver é exercer a vontade de poder, querer expandir, crescer. Desse modo, a luta ocorre em todos os âmbitos da vida, mesmo que o filósofo alemão sustente que a exploração nada mais é que uma afirmação da vida. Ou seja, a vida, nessa perspectiva, ao realizar a sua essência, subjuga, agride e conquista o que é mais fraco.
Depreende-se com isso que, segundo Nietzsche, viver é explorar, é dominar, arriscar-se, ir além de si mesmo. É nesse sentido que viver é uma violência, mas, abster-se disso, nada mais é do que negar a vida. Ou seja, a vida é opressão e exploração porque ela é expansão para fora de si mesmo, por meio do exercício da vontade de poder.

Conclusão

O objetivo principal desse texto foi, a partir do pensamento de Nietzsche,investigar a questão da moral como um tema filosófico de grande pertinência na sua filosofia. Para que a moral possa ser questionada, outros fatores fundamentais devem ser considerados, tais como, a maneira como um valor é definido e adotado, a visão de mundo e da natureza humana. Em Nietzsche, essa categoria crítica é a afirmação da vida presente, a vida como valor central, a partir do qual os demais valores são aceitos ou rejeitados. Desse modo, a ideia de universalidade dos valores, defendidos pela tradição filosófica e mesmo pelo cristianismo em sua relação com a metafísica, passa a ser avaliada a partir de uma problematização sobre a vida como um valor perene.
Na perspectiva do filósofo do martelo, o Ocidente construiu uma moral que nega a vida, na medida em que nega a exploração e prega a igualdade entre os seres. O resultado dessa moral é a transformação da vida humana em uma algo negativo ou como meio para uma vida-além, supostamente superior. A essa moral, essencialmente cristã, Nietzsche se opõe de forma veemente ao defender a afirmação da vida no mundo presente, marcada pelo fluxo constante de conflitos. Partindo da concepção que viver é necessariamente entrar em confronto com outras pessoas e com o mundo, Nietzsche aponta limites na concepção de moral como valor universal, movendo a discussão cristã e metafísica para o campo dos problemas existenciais. Enquanto problema existencial, a vontade de poder é a vontade afirmadora da vida.

Referências bibliográficas

BRANDÃO, Eduardo. Nietzsche e a crítica da civilização. In: FIGUEIREDO, Vinícius de (ORG.).Filósofos na sala de aula.São Paulo: Berlendis&Vertecchia, 2007, p. 155-196.[v. 2].

GRUNEWALD, Aline Leite. Nietzsche: crítica da “verdade” metafísica e afirmação da vida terrena. Sacrilegens, v. 10, n.1. jan.-jun., 2013, p. 4-21.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

______. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.