Arte e subjetividade na estética de Luigi Pareyson
Gabrielle Ferreira Oliveira
Licenciada em Filosofia (UESB)
Introdução
A arte sempre desempenhou um papel central na história da humanidade, desde a primeira manifestação artística com as pinturas rupestres até os movimentos pós-modernistas do século XX e XXI. Em todas as fases, a arte transcendeu o mero âmbito estético para se tornar uma forma de expressão, de conhecimento e de transformação, dialogando diretamente com a subjetividade do artista, exprimindo vivências, emoções e percepções sobre o mundo. Seria possível a teoria da formatividade proposta por Luigi Pareyson elucidar a relação entre o artista e sua obra?
A teoria da formatividade é uma proposta inovadora sobre a criação artística, compreendendo-a como um processo múltiplo e contínuo, no qual o autor e obra se moldam mutuamente ao longo da construção criativa.
Entender a relação entre arte e artista é compreender a relação entre a subjetividade e a produção artística. Se há uma inseparabilidade do autor e sua obra, nosso objetivo é demonstrar como a arte é construída por elementos que ultrapassam o mero formalismo técnico ou as habilidades de quem a cria, reafirmando a conexão existente entre a obra e a subjetividade.
Essa análise se baseia no seguinte pressuposto: a arte não é apenas reflexo da realidade, mas uma maneira ativa de criação que possibilita ao artista interpretar e dar sentido às suas experiências. No panorama da formatividade, cada obra de arte se faz única, pelo processo que a constrói, uma execução ramificada entre as vivências, sua cotidianidade, mudanças e desafios.
Luigi Pareyson e a teoria da formatividade
Pareyson dedicou-se ao desenvolvimento de suas teorias com ênfase nos campos da ontologia e estética; diante do contexto cultural e intelectual da época, o italiano buscou uma nova perspectiva para compreender a experiência e a criação artística, propondo uma visão inovadora que se distanciava do formalismo estético dominante, culminando em uma teoria própria, que nasceu e floresceu entre 1950 e 1954, denominada teoria da formatividade.
Para o filósofo italiano a estética estava além dos princípios de intuição e expressão. Se para Croce, a centralidade da arte residia na unidade indissociável de intuição e expressão, sua teoria não se atém ao processo técnico da criação ou ao esforço do artista. Para ele, a arte surge em meio à intuição e se realiza como expressão no momento em que é intuída:
[...] podemos ainda acrescentar que o conhecimento intuitivo é o conhecimento expressivo. Ele é independente e autônomo em relação a intelecção; indiferente às discriminações posteriores de realidade e irrealidade e às formas e percepções, também posteriores, de espaço e tempo; a intuição ou representação distingue-se do que se sente e recebe, da onda ou fluxo sensitivo, da matéria psíquica, como forma; e essa forma, essa tomada de posse, é a expressão. Intuir é exprimir, e nada mais que exprimir (nada a mais e nada a menos) (CROCE, 2016, p. 35).
Mesmo ambos partilhando que a arte é inseparável da atividade criativa, Croce sustenta que a arte revela a capacidade do artista de organizar suas intuições em formas expressivas, enquanto seu contemporâneo vai além, elencando novas perspectivas para o processo artístico, como afirma Íris Fátima da Silva:
Pareyson apresenta, diferenciando-se de Croce, uma estética de caráter sistemático, partindo da experiência concreta da arte para individualizar a essência. [...]. Croce baseia-se numa ideia de arte pautada na realidade concreta, sendo que a visão e a interpretação resultam desta mesma ideia e são condicionadas a um caráter redutivo da ideia de arte (SILVA, 2013, p. 42-43).
A teoria da formatividade foi desenvolvida em um contexto de disputa com outras teorias. Pareyson observou que as simples definições não satisfaziam o grande interesse pela arte, porque “[...] ao homem moderno não interessa mais o contentar- se com a contemplação estética [...], ele inventou para si mesmo a imprescindibilidade do refletir e do pensar sobre a arte” (SILVA, 2009, p. 139). Sua abordagem procura unir produção e formatividade, como modo de atender às novas exigências do período, algo que a antiga estética croceana não conseguia mais abarcar: “[...] era mais que tempo, na arte, de pôr a ênfase no fazer mais que no simplesmente contemplar” (PAREYSON, 1993, p. 9).
Em sua obra principal Estética: teoria da formatividade, ele defende a aplicação do termo em vez de estética da forma: primeiro, para evitar que a denominação de forma com seus inúmeros significados possa dar margem para ambiguidade, dando a entender o termo como conteudista ou de mero formalismo; em segundo lugar, para garantir a evidência que sua teoria buscava conceituar, ou seja, evidenciar o processo dinâmico na construção da obra de arte. A intenção formativa já constitui a produção da obra antes do seu nascimento e permanece com ela mesmo após sua conclusão.
A idiossincrasia entre a teoria da formatividade e a vida
Como a teoria da formatividade pode favorecer a compreensão da idiossincrasia que há entre arte e vida? Assim como arte, para o autor o agir humano também é interpretativo, criativo e inventivo. Por ser assim, o fazer gera formas de singularidade e de autonomia e se mostra como um reflexo do dinamismo característico da vida que também está presente na arte.
A novidade da proposta de Pareyson, embora todas as definições existentes capturem características essenciais da arte e de sua produção, consiste no fato de de apreender de maneira plena a essência da arte em sua totalidade. Sua teoria procura corrigir essa deficiência, ao se estruturar partindo do agir humano, pleno da espiritualidade e da personalidade de quem se propõe a fazer da obra de arte o reflexo de quem a realizou.
A característica principal da teoria da formatividade é que ela não separa a produção e a invenção, reconhecendo nestes dois momentos a atividade inerente a toda experiência humana: “[...] um certo modo de fazer que, enquanto faz, vai inventando o modo de fazer: produção que é, ao mesmo tempo e indissoluvelmente invenção” (PAREYSON, 1993, p. 20). Complementa o autor que a “[...] atividade artística consiste propriamente no formar, isto é, exatamente num executar, produzir e realizar, que é, ao mesmo tempo, inventar, figurar, descobrir” (PAREYSON, 1989, p. 32). É possível reforçar e ampliar a relação entre a vida, o fazer e a inventividade, como bem descreve Umberto Eco:
Toda a vida humana é, para Pareyson, invenção, produção de formas; toda a operosidade humana, seja no campo moral, seja naqueles do pensamento e da arte, engendra formas, criações orgânicas e completas, dotadas de compreensibilidade e autonomia próprias: são formas produzidas pelo operar humano, tanto as construções teóricas quanto as instituições civis; tanto as realizações cotidianas e aquelas empreendidas pela técnica quanto um quadro ou um poema (ECO, 2023, p. 11).
Ao reforçar essa dimensão da teoria, Eco evidencia que o conceito não se limita a arte em um sentido restrito, mas permeia todas as áreas em que o ser humano atua. Reafirmar a concepção pareysoniana do fazer humano como interpretativo, criativo e inventivo, gera formas munidas de singularidade e autonomia, um reflexo do dinamismo característico da vida e da arte.
Essa estruturação desenvolvida por Pareyson (1993) não tinha por objetivo construir uma metafísica da arte. O seu objetivo era realizar uma análise da experiência estética, um estudo do ser humano enquanto artista e no ato de fazer arte. Para Francesco Napoli, com a teoria da formatividade, o propósito de Luigi Pareyson era pensar a arte a partir da experiência dos artistas, todavia, sem perder o caráter filosófico que a estética exige:
A proposta pareysoniana é a de que se passe a pensar a arte inserida no e emergindo do mundo prosaico, para que se possa enfrentar problemas que passam despercebidos na grande maioria das estéticas, como o caráter fabril do processo artístico, a tentativa e o erro, o improviso, o aspecto material (NAPOLI, 2008, p.15).
Para Luigi Pareyson a principal diferenciação de sua teoria das demais teorias existentes, consiste no fato de jamais desprezar a qualidade artística em si. Se as diversas teorias da arte acentuavam os condicionamentos históricos, materiais, sociais, antropológicos, culturais, a teoria da formatividade frisa o profundo caráter humano contido em cada obra.
A teoria da formatividade, na arte, mostra-se de modo triplo: através de um conteúdo, de uma matéria e de uma lei. O conteúdo diz respeito a vida, a personalidade e as emoções do artista. Esse aspecto emerge durante o processo criativo, à medida que o artista vai construindo a obra e descobrindo o que a mesma deseja também se expressa. A matéria é o concreto, o que torna a arte palpável: tintas, palavras, sons, e todo material que representa fisicamente o que o artista constrói. A lei diz respeito a estrutura organizadora que rege a própria obra. O artista não possui outra lei a não ser sua própria regra, que se torna seu guia no resultado que vai obtendo a cada estágio de elaboração da obra. Dessa forma, a obra é, ao mesmo tempo, lei e resultado, obtidos durante o processo de formação.
É nesse sentido que é possível afirmar a inseparabilidade entre autor, arte e vida, pois não há como realizar uma compreensão ou contemplação da obra se essa interpretação for feita como um processo meramente técnico ou como manipulação de elementos. É através da subjetividade do artista que se torna possível a manifestação da interação entre conteúdo, matéria e a lei.
Como ressalta Pareyson (1989, p. 30): “[...] a obra de arte exprime a personalidade do seu criador, e nela até a mínima partícula é mais reveladora acerca da pessoa de seu autor do que qualquer confissão direta”. Essa perspectiva interpretativa, foi enunciada assim por Ernst Gombrich: “[...] nada existe realmente a que se possa dar o nome de arte. Existem somente artistas” (GOMBRICH, 2022, p. 15). É mérito do autor da teoria da formatividade, reconhecer a subjetividade do criador com um papel central no ato artístico. Nenhuma outra teoria, antes de Pareyson, revelou essa idiossincrasia com tanta pertinência.
Arte, vida e subjetividade
A teoria de Pareyson abre a possibilidade de uma discussão sobre a arte, a vida e a subjetividade. Para o filósofo a ação acompanha toda experiência do ser humano e se faz inseparável de sua vida moral, política e religiosa. A relação entre arte e vida favorece a difusão dos valores, canta as “[...] aspirações do homem, acompanha e decide suas lutas, promove ideias, educa seu espírito” (PAREYSON, 1989, p. 41).
Historicamente a arte foi entendida como uma atividade alcançável após a satisfação das ocupações econômicas e intelectuais, apreciada apenas por seu supremo desinteresse e inutilidade, concebida como um fim em si mesma, ou seja, ela tornou objeto de um deleite. Para o nosso autor a arte, concebida como atividade humana por excelência, perpassa todos esses aspectos da vida humana:
Mundo de sonhos, vôo da imaginação, luta contra o real, remédio para a inquieta operosidade humana, triunfo da inatividade, refúgio na pura contemplação, voluntário isolamento das preocupações que afligem a humanidade na realização de seus ideais e no cumprimento dos seus deveres (PAREYSON, 1989, p. 41-42).
Em outro momento da sua obra o filósofo italiano reforça que o importante é não esquecer que arte e vida são aspectos inseparáveis:
Se a arte pode emergir da vida, afirmando-se na sua especificação, é porque ela já está na vida inteira, [...] ela acolhe em si toda a vida, que a penetra e invade a ponto de ela poder reemergir na própria vida para nela exercitar as mais variadas funções: como a vida penetra na arte, assim a arte age na vida (PAREYSON, 1989, p. 43).
A complexidade do poder artístico é certamente uma das características mais enigmáticas das atividades humanas. Suas singularidades a lançam sobre si mesma, enquanto é invadida e fortalecida pela vida com a consciência de nela ser possível exercer uma missão. Pareyson explica a conexão existente entre arte e as vivências de modo indissociável: viver, realizar-se como ser humano é uma atividade intrínseca à arte e sua expressão. É nesse sentido que a arte possibilita uma relação constitutiva, pois a formatividade não pode ser concebida sem o envolvimento da personalidade:
No artista nem sempre se pode distinguir a vida da arte, e a arte da vida. Mas o seu próprio viver é já formativamente orientado, de sorte que ele pensa, sente e age por formas, e toda a sua experiência é o viveiro de suas intenções formativas que aí se vão esboçando e daí emergindo, como inúmeros insights sugeridos pela própria vida já colocada sob o signo da arte. Além disso, para ele a arte é razão de vida, a tal ponto nela se empenha com toda sua pessoa e para ela faz confluir toda a sua experiência pessoal, intencionalmente dirigida para fins formativos (PAREYSON, 1993, p. 275).
Sintetizar a relação entre arte e vida a partir da compreensão da teoria é afirmar que ambas não apenas coexistem, mas se alimentam mutuamente. A vida fornece à arte a matéria bruta da experiência humana; o artista, no seu processo de criação, transforma esse agir em arte significativa e estruturada. Portanto, arte e vida, na perspectiva da teoria da formatividade, são inseparáveis, em dimensões complementares que se refletem e enriquecem de maneira recíproca.
Ao longo da história, a arte tem sido uma expressão singular da condição humana, uma forma de refletir as vivências, os sentimentos e as transformações de uma sociedade. Mais que uma representação objetiva da realidade, a criação artística emerge, conforme a teoria da formatividade, como processo formativo que implica o sujeito, sua vida, a cultura em que está inserido e suas perspectivas sobre o mundo.
À vista disso, a teoria da formatividade oferece um arcabouço filosófico para a compreensão do processo artístico criativo em conexão com a dimensão subjetiva da arte. O fazer artístico está intrinsecamente ligado ao processo de invenção e criação, no interior do qual o ato criativo é um diálogo constante entre a vida e os desafios de dar forma ao conteúdo emocional e existencial, como o autor afirma:
Toda operação humana é sempre expressiva, no sentido de que é sempre acompanhada pelo sentimento, e brota sempre daquele primeiro olhar da interpretação, daquele sentido das coisas, daquele especial modo de ver, que é característico da singularidade da pessoa (PAREYSON apud SILVA, 2013, p.115).
Nesse sentido, a construção da arte, para o filósofo italiano, é composta por problemas que, por mais complexos que pareçam durante sua construção, são eles que moldam a obra. Inspiração, improvisação, linguagem, o domínio sobre ela ou mesmo a falta dele, fazem parte de um processo artístico que se desenrola desde a ideia inicial, passando pelo esboço, e permanece presente mesmo após a finalização. A arte encontra-se profundamente ligada a tudo que a antecede.
Assim, o autor se revela e se transforma por meio de suas obras, tornando o processo artístico um reflexo de subjetividade, nessa perspectiva, Pareyson afirma que “o artista arrasta para a sua arte os seus ideais filosóficos, morais, políticos, religiosos, e, de tal forma deles impregna as suas obras, que estes assumem a função daqueles diversos valores” (PAREYSON, 1989, p. 41).
A partir da teoria da formatividade é possível afirmar que o desenvolvimento artístico apresentado na obra final é o resultado da projeção da interioridade do artista aliada ao diálogo com as transformações históricas e culturais de sua época. O processo criativo é formativo porque envolve o enfrentamento da psique humana em busca de uma forma que dê significado aos sentimentos e às experiências. Transformando dores, perdas, inquietações, felicidades, amores em formas que ressoem e sensibilizem plenamente o espectador, construindo um diálogo com a fragilidade da vida.
Desse modo, a produção artística, como propõe Pareyson, não pode ser desvinculada do autor. Ela é uma expressão profunda do seu âmago, de suas circunstâncias históricas e de seu mundo interior. A obra não é apenas resultado de um talento técnico ou de inspirações momentâneas e sim uma manifestação de uma trajetória singular, marcada por enfrentamentos e pela busca contínua pelo sentido na vida.
Conclusão
As reflexões apresentadas buscaram exemplificar a relação existente entre arte e subjetividade, demonstrando como a experiência do artista se manifesta em cada obra. A partir do conceito de formatividade, que enfatiza um modo de fazer que, ao se realizar, também inventa novas formas de fazer, evidenciamos como o processo artístico se aprofunda na complexidade de cada construção realizada. Ao considerar a arte um campo dinâmico, compreendemos que cada obra é fruto de uma prática contínua de invenção e produção, que se desenvolve ao longo do tempo e não se esgota em sua materialização final. Nesse sentido, Luigi Pareyson iluminou um aspecto esquecido sobre a arte em seu tempo e reescreveu um novo significado para a estética, enfatizando a inseparabilidade entre vida, criação e invenção.
Essa unidade idiossincrática nos convida a pensar a arte como um processo vivo e transformador. Para ilustrar esses conceitos, analisamos pontos que exemplificam como a experiência pessoal e o contexto histórico atuam em suas criações, tornando quase pungente ao espectador sentimentos e emoções. Salientamos como a teoria da formatividade iluminou aspectos fundamentais na construção da arte, à medida que ultrapassou o horizonte teórico e atribuiu significado e sentido ao material. Através da lente da formatividade, podemos afirmar que cada obra é uma janela para o universo interior do artista e do espectador. Com isso, o exercício de um olhar atento, é capaz de ressignificar cada novo contato com as obras, que concomitantemente utilizam a arte como fuga, expressão, deleite ou tudo ao mesmo tempo.
* O presente texto é uma versão, com título diferente e acréscimos, do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Licenciatura em Filosofia apresentado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), sob a orientação do professor Mestre Jasson Martins.
Referências bibliográficas
CROCE, Benedetto. Estética como ciência da expressão e linguística geral. São Paulo: É realizações, 2016.
ECO, Umberto. A definição da arte. Rio de Janeiro: Record, 2023.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2022.
NAPOLI, Francesco. Luigi Pareyson e a estética da formatividade: um estudo de sua aplicabilidade à poética do ready-made. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2008, 121f.
PAREYSON, Luigi. Estética: teoria da formatividade. Petrópolis: Vozes, 1993.
. Os problemas da estética. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
SILVA, Íris Fátima da. Formação da obra de arte: o formar como “fazer” que, enquanto faz, inventa o “modo de fazê-lo”: uma perspectiva estética em Luigi Pareyson. Princípios, v. 16, n. 26, 2009, p. 135-148.
. Formatividade e Interpretação: a filosofia estética de Luigi Pareyson. Tese (Doutorado em Filosofia). Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2013, 310f.
