Ateísmo e liberdade
Jasson Martins
Doutorando emFilosofia UFBA
Professor de Filosofia UESB
O ateísmo é a doutrina filosófica que pretende negar a existência de Deus. Esta teoria não se contenta, portanto, apenas em constatar a ignorância sobre o tema. É essa a postura do agnóstico. O ateísmo não somente afirma uma descrença, mas defende que a crença em Deus não passa de uma ilusão e um erro. Esta doutrina cresce cada vez mais nas sociedades modernas em razão da perda da influência da religião, fato que Max Weber chamou “o desencantamento do mundo”. O referido desencanto acaba reforçando os laços próprios da modernidade: a laicidade, a racionalidade científica, etc. Nesse contexto, uma consequência perceptível e inegável, ganha cada vez mais espaço: a reflexão sobre a crença religiosa.
Uma abordagem filosófica sobre o ateísmo deve responder a seguinte pergunta: qual o seu fundamento e quais são os seus argumentos para uma correta oposição aos dogmas que fundam as crenças religiosas? A resposta deve levar em conta o seguinte pressuposto filosófico-racional: se é possível justificar o ateísmo é possível justificar a possibilidade do homem pode viver sem religião ou fundar uma moral sem referências religiosas. Por fim, podemos perguntar: o que se ganha com uma eventual justificação do ateísmo? Será que uma justificativa do ateísmo corrobora com a possibilidade dar um sentido à existência humana sem a crença em Deus?
É um fato que alguns vivem muito bem sem Deus e de maneira muito virtuosa, a exemplo de Spinoza. É nesse sentido que a discussão que eu pretendo apresentar, a partir de uma discussão sobre o ateísmo, diz respeito à existência de Deus e não sobre a prática religiosa. Em termos simples e direto, quero responder uma pergunta que sempre me diz respeito e que eu a formulo assim: quais razões tenho para crer ou para não crer? Para realizar esse empreendimento, seguirei aqui um plano simples: inicialmente, vou interrogar as razões que alguém pode dispor para crer em Deus, através do exame da questão das “provas da existência de Deus”; em seguida, refazer a pergunta, mas de modo inverso, para saber se há boas razões para não crer.
A crença é diferente do saber
De início, gostaria de distinguir o seguinte: há diferença entre crença e saber. No contexto de disciplinas clássicas tais como “História da filosofia medieval” e “Problemas metafísicos” é possível apresentar argumentos a favor e contra a existência de Deus. Meu interesse é menos explícito. Eu gostaria de saber se é possível expor algumas “razões” que podem nos incitar a pensar que Deus não existe, apesar das razões apresentadas. Tenho consciência que essa discussão ultrapassa o quadro da ciência e não existe “prova”, no sentido científico ou jurídico do termo. Se houvesse provas estas permitiriam uma verificação de tal ou tal teoria sobre Deus. O que temos são apenas hipóteses relativas à existência ou a não existência de Deus que, na condição de hipóteses, não são científicas e não são passíveis de serem testadas. Eu gostaria de ir além da crença e poder afirmar que ela não é a única via.
Me interessa saber se podemos procurar justificações ou argumentos através de raciocínios filosóficos. No âmbito da justificação do tema eu aceito que o debate sobre a existência ou não existência de Deus existe e dificilmente será suprimido ou concluído, no contexto filosófico. Por isso me sinto instado a levantar questões sobre as razões que temos de crer ou de não crer. A falta de prova nunca foi um problema para a filosofia realizar a sua tarefa, logo, a falta de uma prova cabal sobre a existência de Deus (e sobre as nossas crenças) não impede que eu procure justificar (e não provar) filosoficamente algo sobre o tema. Justificação, no contexto filosófico, não quer dizer demonstração no sentido de verificação científica, mas uma argumentação plausível. De modo sintético: temos razões para supor que Deus não existe?
O debate sobre a Deus, reconhecido como um ser transcendente, não é diretamente perceptível ou captável através do testemunho dos sentidos. Apesar disso, nosso espírito pode pensá-lo mas sem ter o conhecimento, quer dizer, sem ter a possibilidade de fazer a experiência diretamente e de maneira tangível. Deus, na condição de ser, pode ser pensado. Para isso, basta partirmos do seguinte pressuposto geral e razoável: se Deus existe, ele está além do mundo percebido da experiência humanamente possível.
A existência de Deus pertence, portanto, não ao mundo do conhecimento e do saber racional e verificável. O seu solo natal é o mundo da crença, da fé: eu posso nesse sentido teorizar Deus mas não posso obter e transmitir um saber sobre ele. Como ser transcendente, ele está situado fora do campo da experiência e, portanto, ninguém sabe se Deus existe (o que não impede que exista crentes). Isso significa que, por definição, a ciência, que valida teorias a partir de um processo de verificação experimental, não pode decidir esse debate, nem a favor nem contra. Não há provas materiais, fatos objetivos, que nos permitiriam decidir, de modo cabal sobre existência de Deus. Negar a existência de Deus, seria, então, possível? Eu respondo: não. A razão é essa: apesar de ser impossível provar a existência Deus, é possível admitir que a crença N'ele é algo possível.
O mesmo raciocínio que reconhece a impossibilidade de provar a existência de Deus serve de ponto de partida para a seguinte afirmação: desde milênios, a religião é caracterizada como uma questão de esperança ou de convicção pessoal e não uma questão de certeza. Jamais houve prova direta e indiscutível da existência de Deus, ao lado da fé inabalável de sua bondade, grandeza e justiça. É verdade que algumas religiões afirmam que existe elementos objetivos que nos permitiriam crer em Deus – milagres, revelações, aparições, existência de textos sagrados, etc. –, mas estes elementos não podem ser aceitos, de fato, como provas da existência de Deus. Os milagres não são fatos que atestam, racionalmente, a existência de Deus visto que eles só valem para aqueles que creem. Sem dúvida pode haver caso de cura repentina e inexplicável, mas jamais essas curas são “milagrosas”, uma vez que elas seriam totalmente contrárias às leis da ciência, ou seja, alguma coisa de radicalmente impossível.
Assumo, com Spinoza, que o milagre não pode ser aceito como prova de que Deus existe. Independentemente do que eu penso, admito que o crente pode aceitar a existência do milagre. O que eu não estou disposto a admitir é que o crente, a partir de uma repentina modificação de um estado biológico, deduza a existência de algo que não é/não existe biologicamente. É nesse sentido que afirmamos que os “milagres” são tais para aqueles que creem. Podemos ficar surpresos por uma cura inexplicável; mas afirmar que esta cura é produzida por um ato divino, não prova a existência de Deus. O que “milagre” prova, então? Eu respondo: o milagre apenas confirma a evidência da crença.
Gostaria de fazer uma distinção que pode ser útil: quando imaginamos, nós cremos o que pode significar que a crença é tudo que temos. Mas há uma diferença: enquanto imaginamos não afirmamos nenhum conhecimento. Eis um ponto de confusão contínua: a ilusão, que as religiões esquecem tão frequentemente, consiste, então, em falar de crença (ou seja, hipóteses inverificáveis, com dito acima) como se tratasse de conhecimento. A tentação é grande, então, de tomar aquilo que não passa de uma fé por um saber estabelecido que alguém poderia impor aos outros. Do ponto de vista filosófico eu reconheço que refletir sobre a existência de Deus consiste, inicialmente, em admitir os limites do conhecimento humano sobre esse assunto. Em resumo: a crença é distinta do saber se entendemos por saber o resultado controlado de uma experiência, assim como conhecer é diferente de saber.
Sabendo que a crença é distinta do conhecimento, parece que não teremos jamais provas objetivas, no sentido de uma validação de nossa hipótese, através de uma experiência, da existência de Deus. O que é possível é tentar demonstrar e, portanto, “justificar”, as ideias de várias formas. Aqui apresentarei dois modos de “demonstração”, em dois níveis distintos: o primeiro partindo da validade de uma teoria pelas experiências (é o caso nas ciências da natureza); o segundo partindo de uma justificação através de raciocínios e argumentos (é o caso da filosofia).
É decisivo ter isso claro e assentado: posso não ter provas (frutos do saber) mas ter razões (frutos da crença ou não em Deus) capazes de justificar minhas convicções. Partir das convicções e tentar justificá-las, é próprio da fé e não da ciência. Esse procedimento pode confundir a crença e o saber: não posso equiparar minhas opiniões (minhas crenças pessoais) e meus conhecimentos (que visam a uma certa objetividade e exige um processo de verificação). O elemento não dito está na base de muitos mal-entendidos: isso só ocorre por que minhas convicções não são saberes e eu não posso dispor de argumentos racionais em favor de minhas crenças. Por outro lado, a incerteza não suprime a escolha, caso suprimisse o próprio pensamento estaria em risco. Ser ateu, neste caso, não é saber que Deus não existe, mas crê-lo inexistente. O ateísmo não caracteriza a postura de alguém que pode provar que Deus não existe; o ateu afirma que ele não crer na existência de Deus. O ateu, portanto, reivindica e mantém a distinção apontada antes: ele não confunde ou equipara a crença a um saber. Ele sabe que são coisas distintas e argumenta de modo a não suprimir essa distinção.
Podemos seguramente fazer a escolha da neutralidade e optar por uma suspensão do juízo (a exemplo dos céticos), afirmando que eu não posso me pronunciar, visto que não existe meios de tender para um lado ou outro. Também podemos afirmar que sobre os deuses não se pode dizer nada, dada a minha finitude e falta de visão do todo. Importa esclarecer: alguém que não possui uma opinião sobre algo não é cético é agnóstico, pois afirma que não é possível justificar nem o ateísmo, nem a hipótese contrária. Apesar disso é possível continuar a discussão e mostrar que os argumentos de uns e de outros podem ser colocados uns contra os outros. Posso, então, refletindo sobre a questão da existência de Deus, saber (não crer) se posso ter razões para crer ou razões para não crer na sua existência.
O fundamento das provas da existência de Deus
A teologia tradicional tenta demonstrar, através de uma série de raciocínios, que Deus existe. Essas “provas” são de fato simplesmente argumentos e não são verificáveis. O objetivo destas “provas” é convencer: não são provas no sentido científico, não são provas obtidas a partir da verificação de uma hipótese; trata-se de um conjunto de raciocínios que tentam demonstrar a existência de Deus. Existe na teologia tradicional, três séries de argumentos em favor da existência de Deus: a prova ontológica, a prova cosmológica e a prova físico-teológica.
A primeira é, verdadeiramente, muito surpreendente e obscura, mas terá uma longa vida e um vivo sucesso. Encontramos a prova ontológica, expressa, com pequenas modificações, em Descartes, Spinoza, Leibniz, Hegel, etc. Seu “inventor” foi Anselmo de Cantuária (séc. XI). Esta prova visa demonstrar, grosso modo, que o simples fato de nós termos a ideia de Deus é já uma prova de sua existência, no sentido em que a definição implica a sua existência. Trata-se, então, de realizar uma espécie de raciocínio lógico (um artifício lógico, poderíamos dizer) para afirmar que Deus existe “por definição”.
Se eu defino Deus como o ser supremo, nada maior que ele pode ser concebido (“um ser tal que nada de maior não pode ser pensado”, dizia Anselmo), como sendo o ser infinito, perfeito. Se assumo esta definição posso, então, deduzir, segundo Anselmo, que se Deus não existisse, não seria nem o maior, nem o mais perfeito, nem o mais infinito, o que é contrário à sua definição. Deus existe, portanto, “por definição”. Esse argumento foi retomado por Descartes no início da modernidade (séc. XVII). Para ele seria impossível pensar Deus de outro modo, logo, só podemos pensá-lo como ser existente. A sua formulação da prova é admirável e brilhante por sua força de persuasão e o filósofo francês a apresenta, em sua versão melhorada do argumento ontológico, nos seguintes termos:
[...] do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência, segue-se que a existência é inseparável dele, e portanto que ele existe verdadeiramente; não que meu pensamento possa fazer que isso seja assim e que imponha às coisas alguma necessidade; mas, ao contrário, porque a necessidade da própria coisa, a saber, da existência de Deus, determina meu pensamento a concebê-lo dessa forma (DESCARTES, 2005, p. 102).
A segunda prova, a prova cosmológica, foi exposta por Leibniz. Essa prova é também chamada de prova pela contingência do mundo. Trata-se de partir do fato que o mundo existe e que é preciso encontrar uma explicação, uma causa da sua existência, afinal nada existe sem razão. Logo, o mundo não é causa dele mesmo visto que ele é contingente, ou seja, não é necessário. Se o mundo é contingente (não necessário), ele poderia não existir. É preciso, portanto, encontrar sua causa, ou melhor, sua razão suficiente, em outra coisa que não ele mesmo o que implica pensar que o fundamento do mundo está fora do mundo. Se a razão de ser do mundo for contingente, ela deve ser explicada por uma causa que deve ser, por sua vez, explicada por uma outra e assim até o infinito.
Para explicar a causa do mundo é preciso, portanto, pressupor uma primeira causa, ou seja, chegar a uma razão suficiente do mundo, conceber a um ser que não tem necessidade de ser explicado por outra causa. Dito de outro modo, é preciso justificar a existência do mundo através da existência de um ser absolutamente necessário que não pode não existir. Em outros termos, só é explicar a existência do mundo contingente através de uma referência a um ser exterior ao mundo contingente que, por sua essência, é um ser necessário. Qual poderia ser este ser? Deus se impõe, então, como a causa, a razão suficiente do mundo e de todas as coisas.
Esse argumento aparece também, com outra elaboração, em Tomás de Aquino e pode ser resumido assim: um ser contingente pode ser causa de outro contingente; mas a razão última do ser contingente é o Ser que é por conta própria, o ser de si mesmo e esse ser é Deus (Cf. Suma teológica, Suma contra os gentios e O ente e a essência).
A terceira prova é a prova físico-ontológica que encontramos em Voltaire (1978, p. 69, nota 2), expressa na famosa analogia do relógio: “O universo desconcerta-me e não posso supor / Que esse relógio exista e não haja relojoeiro”. Esta é uma prova popular visto que simples, logo, mais fácil de compreender. Ela é fundada sobre a ideia de ordem e finalidade. Trata-se de constatar que o mundo possui uma ordem, uma complexidade e uma beleza extraordinárias. Quem faz essa constatação pode fazer a seguinte inferência: uma tal estrutura não seria possível sem a intervenção de uma inteligência ordenadora. O pressuposto que a razão se impõe a si mesma é o seguinte: apenas o puro acaso não teria jamais realizado algo assim tão fascinante e ordenado. É uma teoria “cósmica” que ressalta a beleza do mundo e tal organização complexa e harmoniosa não poderia, portanto, vir de um mecanismo cego, mas somente de Deus.
Eis, em resumo, as principais “provas”, as mais invocadas, aquelas que se querem “provas” da existência de Deus. O que pensar dessas razões de crer em Deus e destas teorias justificadoras da existência de Deus? Como explicar que existe, no interior da filosofia, vários argumentos questionando a ideia da existência de Deus? Se há razão ou razões para questionar a existência de Deus, podemos invocá-las para defender um certo tipo de ateísmo e tornar a argumentação mais coerente.
Razões para defender o ateísmo
Não examinaremos aqui algumas críticas dirigidas às religiões em geral: a) críticas que podem censurar as religiões de terem sido obstáculos ao progresso científico (Giordano Bruno é apenas um exemplo conhecido); b) críticas que podem censurá-las por sua periculosidade em termos históricos e políticos (guerras religiosas, fanatismos...); c) crítica por serem elas um “ópio do povo” (Marx), um “delírio coletivo”, um “platonismo para os pobres” (Nietzsche), uma “neurose infantil” (Freud), etc.. Meu objetivo é refletir, teórico-filosoficamente, sobre a existência de Deus e quais razões temos para crer ou não.
Podemos iniciar refletindo sobre as razões negativas, quer dizer, não as razões de ser ateu, mas sobre as razões de não ser crente. Podemos criticar as “provas” da existência de Deus e dizer que estas provas só são verdadeiramente “eficazes” e importantes para a adesão dos crentes. Afinal há crentes (maioria?) que desconhecem estas provas. Podemos recusar, sistematicamente, com efeito, por má vontade em suma, entrar na problemática dessas provas, não aceitando jamais a existência de Deus. Essas provas podem parecer meros jogos verbais, um jogo sofístico para aquele que não crê em Deus. O fato é que estas provas foram elaboradas com um objetivo: convencer o descrente. O seu ponto negativo: estas provas não podem substituir a crença. É bem possível que estas provas pressupõem, talvez, a crença e, a partir daí, leve o crente a reafirmar a sua fé e reconciliar a fé com a razão.
Mas um indivíduo, convictamente, ateu, persuadido que a existência do mal é incompatível com a existência de Deus e que recusa, conjuntamente, que Deus existe, só entende essas provas (que ele não pode testar), como uma vigarice intelectual. Para um espírito esclarecido estas provas soam como uma espécie de pretensão mentirosa do espírito: ao querer demonstrar aquilo que é indemonstrável, produzem argumentos engenhosos. É muito ingênuo pressupor que um simples raciocínio poderia levar um descrente à crença. É preciso não perder de vista: o raciocínio esclarecido, como exige a filosofia, não faz parte do pressuposto da fé religiosa.
Do que foi dito acima, é possível concluir que a filosofia já demonstrou a fraqueza dessa tentativa de demonstrar, racionalmente, a existência de Deus. Kant fará todo um arrazoado para dizer o quanto é estranho querer deduzir a existência de algo simplesmente a partir de seu conceito, ou seja, a partir de sua teorização. Em sua Crítica da razão pura ele fará a crítica da prova ontológica sublinhando que a existência de Deus não pode ser deduzida apenas de seu conceito e que querer demonstrar a existência de uma coisa, através de simples raciocínios, é confundir uma ideia (o conteúdo conceitual) e a existência (o predicado existencial) de uma determinada coisa. O “argumento ontológico” é, portanto, inválido visto que ele não é suficiente para afirmar que Deus existe verdadeiramente, de modo verificável e sensível.
Podemos, portanto, reter o seguinte: estas “provas” da existência de Deus nada prova, logo, é impossível provar a sua existência. A metafísica não é uma ciência, por mais que apresente raciocínios válidos. Estas provas são antes demonstrações, argumentos, certos raciocínios que demonstram, sem dúvida, que a ideia de Deus não é absurda, que é possível que ele exista, mas que, em si mesmas, estas provas não podem nos ajudar a verificar, objetivamente, a sua existência. Resultado: não posso concluir que a prova da existência de Deus demonstre a sua existência real.
A multiplicidade das provas é, por si mesmo, um sinal de sua fraqueza. Se pudéssemos provar a existência de Deus, uma única prova seria suficiente e não teríamos necessidade de produzir outras provas: as demais provas corroborariam a prova inicial (como mostrou Thomas Kuhn). Por outro lado, as razões para crer não são conclusivas, visto que a religião implica uma adesão que é da ordem da crença e não da ordem da demonstração.
A demonstração, diferentemente da crença, é da ordem da razão. A fé é diferente da prova. Deus, por seu turno, é sensível ao coração antes mesmo de ser uma questão de raciocínio, como afirmava Pascal (2005, fr. 424/278, p. 164): “É o coração que sente Deus não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, não à razão”.
Assim, se é preciso distinguir “as verdades da razão” e “as verdades do coração” é para reconhecer os limites do espírito humano e sua incapacidade de demonstrar Deus. O argumento de Pascal, de modo totalmente inesperado corrobora com o argumento que eu estou desenvolvendo: ora, se a crença não é uma questão de razão, mas uma questão de sentimento ou de fé, é provável que exista razões para não crer em Deus. Se o que precede é verdadeiro, resta saber: as razões para não crer são as mesmas razões para justificar o ateísmo?
Justificar o ateísmo
Evidentemente, não existe prova que Deus não existe. Esse fato permanece menos problemático para o ateísmo que para os crentes, à medida que o ateu não afirma a existência de Deus. Ora, se ele não afirma a sua existência, ele não se sente na obrigação de provar sua não-existência. Com efeito, se sentir na obrigação de demonstrar a inexistência de algo que se pensa que não existe é tão absurdo quanto querer demonstrar sua existência. Se alguém raciocinar desta maneira precisará provar que o Papai Noel, os fantasmas, as fadas... não existem. O que parece, evidentemente, sem sentido.
Dissemos que o ateu não tem, nesse aspecto, tanta necessidade de ser justificado quanto o crente da existência de Deus. Se interrogar sobre a possibilidade de uma justificação do ateísmo é, no fundo, querer saber se há uma razão séria para não crer em Deus. Sem dúvida podemos dizer simplesmente que há razões para duvidar que Deus existe visto que sua existência não é passível de experiência. E o contrário: há ao menos uma boa razão para não crermos em Deus?
Se Deus existisse, ele poderia se tornar mais visível, se fazer sentir..., não precisaria se ocultar atrás de seu silêncio e de sua invisibilidade. Não seria mais simples e até desejável que Deus se manifestasse em vez de nos deixar na ignorância e na solidão de nossa condição. Esse silêncio de Deus a seu respeito produz o seguinte resultado: à medida que a nossa angústia e nosso sofrimento chega ao cúmulo, nos interrogamos sobre a “ausência” de Deus e sua “indiferença”. Eis a fonte a partir da qual surge a inquietação que atinge tanto o ateu quanto o crente: é a ausência, a indiferença e o silêncio de Deus que, logicamente, pode ser interpretada como o sinal de sua inexistência. O ateísmo nasce, no fundo, dessa experiência do vazio. É esse sentimento de ausência que revela a inexistência de Deus. O ateu, no entanto, diferentemente do crente, é coerente: do sentimento de ausência de Deus ele deduz a sua inexistência. O crente, do sentimento de presença de Deus, deduz sua existência.
A incapacidade humana de apreender Deus, de defini-lo, de explicar o seu mistério é, então, antes um argumento contra a religião: se o absoluto é incognoscível, porque precisamos pensar que se trata de Deus? A metafísica de Plotino parece indicar uma saída. Podemos, inicialmente, perguntar: de que Deus mesmo se trata? Daquele dos cristãos, dos muçulmanos, dos hindus, dos romanos ou dos gregos? Podemos encontrar razões para não crer nesta experiência da pluralidade religiosa que revela a ilusão que a acompanha: muitos deuses diferentes, muitas expressões de fé em deuses incertos e diferentes, fabricados à imagem do homem. Um olhar de conjunto (à maneira plotiniana) revelaria que todas as expressões de fé se equipara a superstição.
Tudo isso, não prova a inexistência de Deus e sim revela a incapacidade humana de apreendê-lo, de dizer aquilo que ele é. Novamente podemos perguntar: essa incapacidade pode ser assumida como uma razão para não crer? É o que podemos nomear o ateísmo negativo que consiste em não crer em Deus. Mesmo assim, há razões mais fortes ainda para ser ateu que podem nos levar a crer na inexistência de Deus. Esta segunda via seria o ateísmo positivo e o seu foco visa afirmar sua inexistência.
Uma destas razões de não crer na inexistência de Deus é a existência do mal cuja amplidão (desmedida, terrível e atroz) é tal que não é justificável de nenhum modo. Os argumentos de Leibniz, segundo o qual o mal deve ser considerado como algo necessário tendo em vista um bem posterior e maior, não convém, nem à razão, nem ao crente, nem ao ateu. O raciocínio de Epicuro, anotado por Lactâncio, descreve o problema de modo incontornável:
Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente; o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso; o que do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente; portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão não os impede? (EPICURO, 1980, p. 20).
Dito de outro modo, a própria existência do mal parece invalidar a representação clássica da figura divina providencial: supondo que Deus existe, seria preciso supor que ele não se ocupa de nós e não intervém no nosso mundo (hipótese de Voltaire, ilustrada no Cândido). Mas como, então, explicar esta onipresença do mal, do sofrimento, da desgraça, em um mundo criado por um Deus bom e todo poderoso? Esta é simplesmente a consequência inevitável da própria imperfeição do mundo, como o supõe Leibniz, em seu tratado de teodiceia. É esta uma consequência inevitável do fato de que Deus nos deu uma liberdade?
Conclusão
Assim, mesmo que não exista prova da existência ou inexistência de Deus, podemos compreender que esta crença não é, necessariamente, irracional, como não é irracional a crença na inexistência de Deus. Nós temos, com efeito, razões para crer ou para não crer em Deus e a filosofia e a teologia se apoderam dessas razões para manter esse profundo e saudável debate vivo. É, portanto, possível, efetivamente, “justificar” o ateísmo se entendermos por isso argumentar, através de uma série de razões, que não são redutíveis às provas e às demonstrações científicas: a demonstração não é aqui a verificação.
Foi essa impossibilidade que levou Pascal a fazer da escolha, contra ou a favor de Deus, uma aposta filosófica. Mas se o ateísmo encontra sua justificação teórica, ele ganha em dignidade e legitimidade, no mesmo sentido que as outras crenças. Face ao dogmatismo das religiões, o ateísmo afirma, portanto, que existe um direito de não crer, direito largamente recusado ao longo da história.
O direito de não crer não é um direito equiparado ao direito de crer. Seus defensores não procuram impô-lo aos outros, mas defende que ele deve poder ser enunciado, publicamente, em toda sociedade e ser discutido. Contra o fanatismo pelo qual alguns confundem sua fé com o saber, a irreligião deve poder ser protegida como deve ser igualmente defendido a expressão da crença. Uma sociedade em que ambos os direitos são respeitos não é somente possível, mas também desejável. Em uma sociedade laica, cujo sistema preserva todas as liberdades, a defesa do ateísmo é sinônimo da defesa da liberdade.
Referências bibliográficas
ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Companhia de bolso, 2008.
______. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia de bolso, 2009.
ASLAN, Reza. Deus: uma história humana. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
CALMON, Sacha. A invenção do monoteísmo: deuses feitos de palavras. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
DAWKINS, Richard. Deus um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
EPICURO. Antologia de Textos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os Pensadores).
GUYAU, Jean-Marie. A irreligião do futuro: estudo sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
JONAS, Hans. O conceito de Deus após Auschwitz: uma voz Judia. São Paulo: Paulus, 2016.
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Ensaios de teodiceia: sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. São Paulo: Martins Fontes, 2023.
MILES, Jack. Deus: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006
PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Repensar o mal: da ponerologia à teodiceia. São Paulo: Paulus, 2011.
VOLTAIRE. Tratado de metafísica. In: ______. Os pensadores. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
