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Sociedade do cansaço, vida desacelerada e direito ao sono

Renato Nunes-Bittencourt
Doutor em Filosofia - UFRJ

No presente texto abordamos a ideia de Sociedade de Cansaço tal como categorizada por Byung-Chul Han como uma etapa do capitalismo neoliberal da sociedade de desempenho, bem distinta dos paradigmas da antiga sociedade disciplinar marcada pelo controle extrínseco da subjetividade humana, e de que maneira os mecanismos performáticos da dominação neoliberal se sustentam pela aceleração vital e pela captura do que há de mais recôndito na subjetividade humana, a fruição do sono.

Capitalismo e otimização das forças vitais pela sociedade disciplinar

O capitalismo não é um sistema monolítico, ele se reconfigura ao longo das eras e dita o ritmo da vida humana sob os seus mecanismos operacionais. Seja através de parâmetros ou hedonistas, o capitalismo apresenta em essência a busca pela rentabilidade e pelo pleno aproveitamento do tempo. O recorte se inicia na ideia de sociedade disciplinar conforme o dispositivo Panóptico apresentado por Jeremy Bentham:

Quanto mais constantemente as pessoas a serem inspecionadas estiverem sob a vista das pessoas que devam inspecioná-las, mais perfeitamente o propósito do estabelecimento terá sido alcançado. A perfeição ideal, se esse fosse o objetivo, exigiria que cada pessoa estivesse realmente nessa condição durante cada momento do tempo. Sendo isso impossível, a próxima coisa a se desejar é que, em todo momento, ao ver razão para acreditar nisso e ao não ver a possibilidade contrária, ele deveria pensar que está nessa condição (BENTHAM, 2019, p. 20).

O olhar total do monitoramento dos corpos laborais é a continuação do projeto iluminista na sua marcha do progresso industrial e a necessidade humana em se controlar toda forma de contingência que prejudique a produtividade e, por conseguinte, impeça o beneficiamento social. As estruturas organizacionais modernas se pautam pelo regime de vigilância, monitoramento, padronização, uniformidade e hierarquização, influenciando a formação sociocultural de um tipo de ser humano disciplinado e funcionalizado conforme as necessidades de uma civilização cada vez mais urbana e concentrada em grandes metrópoles agitadas e aceleradas em suas diversas circulações.

A fiscalização exercida pelo Panóptico é a manifestação mais pura do controle contínuo exercido pela sociedade disciplinar, regulamentando intimamente as ações, determinando padrões de gosto e modelos de conduta que devem ser seguidos pela massa social de maneira extrínseca, ou seja, as normas operacionais são externas ao sujeito domesticado pelas regras. Foucault, ao se descrever os procedimentos disciplinares da modernização tecnocrática das formas de vida, afirma que
Quanto mais numerosos esses observadores anônimos e passageiros, tanto mais aumentam para o prisioneiro o risco de ser surpreendido e a consciência inquieta de ser observado. O Panóptico é uma máquina maravilhosa que, a partir dos desejos mais diversos, fabrica efeitos homogêneos de poder (FOUCAULT, 2010, p. 192)
Vemos, então, a consolidação de um agenciamento capitalista da sociedade que exige não apenas a divisão rígida das funções laborais, como também a capacidade dos detentores dos meios de produção em estabelecer sólidos meios de imposição de técnicas de poder que alcançam aglomerações multitudinárias de sujeitos submissos aos imperativos verticais da elite plutocrática. Os desajustes sociais promovidos pelas revoluções industriais encontrou uma massa laboral dispersa e fragilizada que paulatinamente se organiza em movimentos proletários de insubmissão ao crivo das forças capitalistas, e para evitar que a hegemonia patronal fosse dissolvida, a pragmática intelligentsia burguesa se encontra na necessidade imperiosa de realizar ajustes internos em sua estrutura de dominação, para que através dessas pequenas mudanças a estrutura econômica permanecesse a mesma. A culminação do método taylorista e sua dita administração científica, capitaneada pela expertise da engenharia de produção, explicita muito bem essa realidade operacional:


A direção deve fornecer professores para instruírem o novo trabalhador nas melhores e mais simples movimentos, e os operários lentos devem ser constantemente cronometrados e auxiliados, até atingirem a velocidade conveniente. Todos aqueles que, depois do ensino devido, não quiserem ou não poderem trabalhar de acordo com os novos métodos e no ritmo requerido, serão dispensados (TAYLOR, 2012, p. 66).


Trabalhadores dóceis e disciplinados ganhavam mais do que os indolentes, e assim cria-se uma estratégia competitiva para estimular a ampliação constante dos índices de produtividade. Todas as conquistas modernas do desenvolvimento técnico se convertem em instrumentos para se melhor dispor da força laboral do trabalhador, negando-se inclusive as suas raízes humanistas mais elevadas: “No passado, o homem estava em primeiro lugar; no futuro, o sistema terá a primazia” (TAYLOR, 2012, p.23). Temos aqui o trabalho repetitivo, mecânico e alienado que se consolida como o parâmetro de um tipo de capitalismo que expande suas fronteiras de produção e de consumo para todas as partes do mundo e que lucra inclusive com guerras globais que exigem o rígido direcionamento da força de trabalho adestrada para as necessidades bélicas que sempre são lucrativas para os detentores dos meios de produção.

A consolidação da sociedade de desempenho neoliberal

A ideologia neoliberal, defensora do fenecimento do papel do Estado na organização social e da primazia do individualismo privado na conduta econômica do sujeito moderno em detrimento das suas aspirações sociais mais elevadas, permaneceu por muito tempo recalcada nos porões da economia política graças ao triunfo das regulações intervencionistas dos estados-nacionais para a criação de pleno emprego e para a promoção de direitos trabalhistas bastante razoáveis para a preservação de um grau decente de qualidade de vida humana no ambiente profissional. Apesar de ser ainda assim um regime pautado pela venda de força laboral em troca do salário, havia nesse modelo de capitalismo regulado uma alternativa democrática para maior inclusão dos contingentes humanos no mercado de trabalho e mais possibilidades de construção de um projeto de vida de longo prazo que permitia um planejamento racionalizado da existência.
No entanto, crises energéticas globais e o endividamento maciço da estrutura previdenciária estatal trouxeram para a superfície da práxis política o palavreado neoliberal e seu inerente choque de ordem desregulador das instituições, promovendo-se então um novo modus operandi na dinâmica capitalista. A dissolução do bloco comunista acelerou ainda mais a consolidação da agenda neoliberal em sua agressiva tomada de posição no status quo econômico do capitalismo tardio. E então os problemas humanos se tornaram ainda mais atrozes, acreditando-se inclusive que teríamos o triunfo definitivo da democracia liberal, democracia formal calcada na lógica do mercado.
Mediante a radicalização do projeto neoliberal, a sociedade disciplinar cede lugar aos fundamentos econômico-morais da sociedade de desempenho, caracterizada pelo discurso mendaz do “empreendedor de si” que torna o sujeito laboral um devoto dos imperativos mercadológicos que conduzem ao seu próprio esmorecimento psicofísico. O sujeito de desempenho não atua mais sob a coação disciplinar de um poder superior que lhe é externo, mas se torna ele mesmo o poder autorregulador, tornando-se assim ao mesmo tempo senhor e servo na dinâmica rentável do capitalismo neoliberal e sua desertificação civilizacional de um mundo com enfraquecimento das políticas de assistência social e desprestígio das organizações sindicais: “O sujeito do desempenho neoliberal é um servo absoluto na medida em que, sem os senhores, explora-se voluntariamente” (HAN, 2021b, 77).
O sujeito de desempenho se apropria da vigilância operacional que monitora qualquer desvio de conduta e aceita alegremente ele mesmo ser seu fiscal moralizador. Esse precário sujeito de desempenho vive sozinho com suas responsabilidades operacionais, apropriadas ideologicamente como se fossem suas, e assim se converte em uma mônada idiotizada que sempre necessita demonstrar alta performance funcional que seja compreendida como economicamente viável e não corra o risco, sempre iminente, de descartabilidade profissional. O trabalhador, sob o regime da lucratividade neoliberal, torna-se cada vez mais desamparado juridicamente, profissionalmente precário, obrigado ao plano funcional da flexibilidade, em que trabalha muito mais com muito menos certezas e garantias, inclusive submetendo-se continuamente ao risco de morte em operações performáticas que exigem exposição constante em situações de perigo. “Mais empregos, menos direitos”, lema nu e cru dessa dinâmica agressiva que se impõe ao trabalhador solitário. Caberia apenas destacar que “mais empregos” não significam necessariamente “bons empregos”, ou seja, empregos decentes, empregos plenos que satisfazem as demandas materiais de uma sociedade de mercado constantemente inflacionado cujos serviços são inacessíveis para grande parte da população pauperizada e desalentada socialmente.
A confusão entre a dimensão profissional e a dimensão doméstica, graças ao monitoramento onipresente dos aplicativos e do poder absoluto das tecnologias de informação deixam o trabalhador em estado de mobilização permanente, tal como uma situação de guerra continuada sem descanso nem relaxamento. O malfadado trabalho remoto traz para o espaço da casa as urgências aceleradas da ótima performance, suprimindo assim o distanciamento simbólico entre o âmbito privado e o âmbito profissional. Mesmo o deslocamento para o local de trabalho apresenta um traço saudável para o metabolismo humano quando ocorre em situações tranquilas, assim como a inevitável sociabilidade organizacional em um ambiente acolhedor é sempre um estímulo para a solidariedade profissional.
O trabalho remoto não permite desconexão real em relação ao labor. Todo tempo livre deve ser dedicado para otimizar resultados bastante agradáveis para o topo da pirâmide executiva. Estado de Exceção do trabalho gerenciado tecnocraticamente. Diante de qualquer demanda apresentada pela empresa, o trabalhador deve responder imediatamente, em um ritmo acelerado de existência que embota sua percepção da realidade e fá-lo naturalizar essa submissão imediatista controlada pelos aparelhos e aplicativos informacionais. Com efeito, a ideologia gerencial enaltece a personalidade proativa que sempre está ao dispor e age de prontidão a qualquer instante e que assim aceita permanecer controlado digitalmente, talvez para evitar a má consciência de um nada-fazer em tempo livre. Para Byung-Chul Han,

A coação do desempenho é destrutiva, fazendo com que autoafirmação e autodestruição sejam uma coisa só. As pessoas se otimizam para morrer. Autoesgotamento indiscriminado leva a um colapso mental. A luta brutal de concorrência atua de modo destrutivo. Ela produz uma frieza de sentimentos e uma indiferença diante dos outros que traz consigo uma frieza e indiferença perante si próprio (HAN, 2021a, p. 19-20).

Toda situação atípica que venha a afetar o sucesso do “empreendedor de si” é considerada como falha desse sujeito de desempenho por sua pretensa incapacidade de se antecipar aos riscos. Todo fracasso é sempre culpa exclusiva desse miserável-laborativo pois ele não se engajou suficiente na luta pelo sucesso profissional. Eis a inoculação do veneno da positividade tóxica no desempenho profissional, o dever funcional acima de tudo onde se marcha para o colapso vital com galhardia. O adoecimento do trabalhador, mal remunerado, globalmente desprotegido, é a consequência imediata desse dispositivo necrófilo, pois o imperativo neoliberal não reconhece a dignidade da pessoa humana do trabalhador, mas antes o enxerga como uma coisa utilitária, mero instrumento para proporcionar a manutenção do sistema capitalista, sempre em nome da apregoada liberdade criativa do espírito neoliberal,
Dormir 6 horas por dia é um requinte indisponível para a grande maioria da massa laboral. Preguiça é o pecado mortal por excelência na moral neoliberal, e para quem não consegue se manter constantemente ativo o recurso aos estimulantes é a solução para que se possa perseverar na labuta funcionalizada. A medicalização é contínua para que o sujeito de desempenho consiga turbinar a sua capacidade laboral e para que se cure o organismo do excesso de atividade profissional que estressa a estrutura psicofísica, em um ciclo vicioso que no fundo é bastante pertinente para as múltiplas segmentações do Capital-Moloch. O culto da performance que se caracteriza pela negação radical de toda impotência exige que os aditivos tonifiquem a capacidade orgânica do sujeito de desempenho: “A sociedade de desempenho se desenvolve, a partir de sua lógica interna, na sociedade do doping. A vida reduzida à função vital desnuda é uma vida que deve ser mantida sadia a todo custo” (HAN, 2017b, p. 268).
O repouso enquanto marco cronológico não é capaz de revitalizar o organismo empobrecido. O cansaço é perene e afeta a estrutura orgânica até a medula da personalidade humana, fazendo do sujeito em tal estado extenuante alguém permanentemente desvitaminado e permanentemente curvado perante as ordens gerenciais, as quais, sempre importante ressaltar, são compreendidas como regras autônomas que potencializam o desempenho pessoal. Temos assim um ser humano desprovido de substancialidade, um mero corpo morto-vivo, um verdadeiro morto em vida, um corpo-zumbi que em verdade é operado por uma causa externa. Não é apenas um cansaço metabólico que pode ser atenuado com um razoável repouso, mas um cansaço ontológico que jamais é superado e dissolve assim a dignidade da personalidade humana. A função unidimensional do homem na lógica do desempenho consiste em trabalhar para produzir em nome de um sistema autofágico que é alheio ao próprio caráter singular do homem: “O excesso de elevação do desempenho leva a um enfarto da alma. O cansaço da sociedade de desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando” (HAN, 2015, p. 71).
Exige-se respostas rápidas e gestos acelerados que sinalizam a interiorização do controle moral do trabalho que subtrai a vitalidade subjetiva daquele que está enredado no capitalismo tecnocrático, daí a importância disciplinar dos aplicativos que impõem aos indivíduos a checagem constante de informações-diretrizes. Tudo é regido pela urgência, palavra que ao ser ouvida ou lida produza agitação no receptor. Chega-se ao cúmulo de se consumir alimentos de maneira extremamente veloz para que não se perca tempo produtivo, para maior desgaste orgânico do trabalhador que não absorve bem os nutrientes ingeridos: “O processo do Capital e da produção acelera-se ao infinito pelo fato de eliminar a teleologia do bem viver” (HAN, 2017a, p. 44). Toda reflexão, todo exercício contemplativo, todo processo deliberativo, todo olhar demorado para a beleza do mundo, ações que demandam uma experimentação singularizada da temporalidade, são vilipendiadas pelo dispositivo gerencial.
Eis assim os fundamentos para o surgimento de uma civilização do Burnout. O esgotamento profissional é a degradação completa do sujeito de desempenho, incapaz de estabelecer uma força contrária ao processo de despersonalização existencial que lhe subjuga. De tanto se investir integralmente na labuta a pessoa perde a sua conexão existencial com a realidade e não consegue assim se libertar do sufocamento moral que o ritmo produtivo gera em seu ânimo fragilizado e cindido. O sujeito de desempenho não apenas trabalha para si, mas para o sucesso incondicional da organização, assumindo encargos que não são seus, sempre em nome da causa maior que norteia a sua existência:

O sujeito de desempenho é incapaz de chegar a uma conclusão. Ele se desperdiça sob a coação de sempre ter de produzir mais desempenho. Precisamente essa incapacidade de chegar a uma conclusão e de encerrar conduz ao Burnout (HAN, 2021c, p. 30).

Reconhecimento profissional ou aumento salarial não resolvem o mal-estar da Síndrome de Burnout, apenas atenuam o impacto destrutivo da incapacidade pessoal em se desconectar psiquicamente do seu ofício usual até que ocorra o seu iminente colapso vital e aí então os dissabores se manifestam em sua existência como uma avalanche de escórias, já que a autocentrada estrutura parasitária estabelecida em torno desse sôfrego sujeito de desempenho é naturalmente incapaz de compreender e auscultar a narrativa de sofrimento de alguém.

Alternativas provisórias para a ruptura com a sociedade de desempenho

O regime capitalista, em essência, é insustentável. Toda tentativa de se atenuar a sua avalanche destrutiva que marca o produtivismo e o consumismo em um processo autofágico que exige a dedicação econômica plena do sujeito de desempenho impede uma superação plena desse modo de produção e forma de vida. Assim como a Biosfera adentra em uma etapa de desarranjo funcional talvez sem retorno para um possível estado de equilíbrio vital, assim também o ser humano rentabilizado pela performance laboral incondicional. A falta de ousadia em se realizar um genuíno comunismo social atira a ordem planetária e seus viventes ao colapso.
Desacelerar o ritmo da vida não é a ruptura definitiva com o neoliberalismo, mas ajuda na tomada de consciência acerca da despersonalização existencial na qual nos encontramos na celebração doentia da performance produtiva. A desaceleração é tanto uma capacidade pessoal de agir de modo mais lento nas operações prosaicas, como também uma não-aderência aos impulsos performáticos do produtivismo cego que estimula o engajamento em funções que estão além das nossas capacidades funcionais. A dromocracia, regime da velocidade irracionalizada, elimina da vida humana a sutileza dos gestos e o encantamento contemplativo do mundo. A lentidão vital, por sua vez, permite a compreensão dos eventos de uma maneira mais ampla e condoreira, digamos, pois observamos as coisas como um todo e não como meras partes desconectadas. A lentidão vital promove uma concepção ontológica da realidade sob uma perspectiva da eternidade. Tudo o que é muito rápido do ponto de vista performático denota empobrecimento vital. Amar, comer, beber e pensar são condizentes com a salutar lentidão vital,
A dedicação sôfrega ao regime de trabalho elimina do sujeito de desempenho sua sensibilidade estética em relação ao mundo da vida pois todas as ações são metrificadas por critérios de eficácia e de otimização de recursos, em prol de um sempre imprevisível poder de fruição material dos recursos disponíveis pelo mercado, até segunda ordem. Grande parte das ações operacionais realizadas pelo sujeito de desempenho são de pouca serventia real para sua melhor dignificação profissional e apenas exaurem as suas forças vitais, tornando-o então suscetível ao adoecimento completo. Nessas condições, é imprescindível que se desenvolva um pleno senso de autonomia pessoal que dê ao ser humano o discernimento que lhe faça perceber que ao se engajar profissionalmente muito além das suas possibilidades metabólicas reais, a sua empresa lucra em uma exorbitante mais-valia absoluta e estabelece como meta índices ainda mais insanos de produtividade, exigindo dos demais “funcionários-colaboradores” comprometimento similar pela causa corporativa.
Deve-se trabalhar apenas o estritamente necessário e conforme o próprio ritmo singular da pessoa humana e, mais ainda, deve-se diluir o orgulho funcional insuflado pela moral neoliberal de se estimular a invasão perversa de mais e mais tempo de repouso em atividades que são rentáveis somente para a saúde financeira da empresa. Há o infame discurso motivacional segundo o qual “eu trabalho enquanto você dorme”. Ora, quem não dorme mergulha de maneira ainda mais acelerada para a sua própria morte e perde certamente a última defesa existencial contra a insalubridade da sociedade de desempenho: “A negação do sono é uma desapropriação violenta do eu por forças externas, o estilhaçamento calculado de um indivíduo” (CRARY, 2014, p. 16).
Na dinâmica frenética da positividade produtivista o horror da degradação moral da experiência do sono reside em se sonhar que se está enredado nas minúcias do trabalho estressante. Entre vigília e sonho não há mais um hiato salutar. A mentalidade do trabalhador torna-se tão paranoica que se normaliza psicologicamente a devoção profissional ao serviço. Por conseguinte, o dito “direito ao sono” não é uma mera palavra de ordem humanista, mas sim uma necessidade fundamental de nossa fragilizada condição humana que não visa apenas reparar nossas energias vitais para um novo ciclo de ação produtiva no dia seguinte, mas a dimensão da vida que não pode ser colonizada por forças invasoras ao serviço do Capital-Moloch.

Conclusão

Experimentar convenien- temente o tempo do sono não é uma fuga da realidade concreta e dos seus problemas inerentes, mas sim uma arma radical para justamente enfrentarmos salutarmente as suas contradições estruturais com nossas forças vitais organizadas e equilibradas. Dormir é então um ato político de resistência ao regime capitalista e sua morte sempre positivada. Enquanto permanecemos em vigília, os detentores dos meios de produção dormem placidamente em suas alcovas assépticas.

 Referências bibliográficas

BENTHAM, Jeremy. Opanóptico.Tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
CRARY, Jonathan. 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução: Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2014. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Tradução: Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2010.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução: Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
____. Agonia do Eros. Tradução: Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017a.
____. Topologia da violência. Tradução: Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017b.
____. Capitalismo e impulso de morte: ensaios e entrevistas. Tradução: Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis: Vozes, 2021a.
____. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente. Tradução: Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis: Vozes, 2021b.
___. Favor fechar os olhos: em busca de um outro tempo. Tradução: Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021c.
TAYLOR, Frederick W. Princípios de administração científica. Tradução: Arlindo Vieira Ramos. São Paulo: Atlas, 2012.