Existência e estilo: Kierkegaard e os sentidos da comunicação indireta
Leonardo Araújo Oliveira
Professor da UESB
Doutorando em Filosofia - UFMG
Quase sempre relacionada a pseudonímia e a ironia, a ideia de comunicação indireta se torna vazia se apenas repetirmos essas noções e não pensarmos em algumas consequências delas no interior da proposta kierkegaardiana. O objetivo do minicurso – do qual o presente texto é um resumo –, é investigar os sentidos do projeto kierkegaardiano de comunicação indireta, pensando de que maneira ela se desdobra nos seguintes objetivos: a) ocupar a posição do interlocutor; b) persuadir sem o enfrentamento direto; c)encaminhar ideias sem o recurso a argumentação em sentido estrito (criando narrativas e personagens, usando do humor); d) desenvolver uma forma não tirânica de exposição, que preserve a liberdade do interlocutor/leitor; e) encontrar a forma adequada de comunicar páthos internos que se perdem nos convencionalismos da comunicação objetiva; f) levar a linguagem ao limite através de micro torções e inversões de sentido.
A ironia socrática é um modelo para a comunicação indireta kierkegaardiana. O pensador dinamarquês compartilha com Sócrates a prática da ironia como uma sedução filosófica, dentro de um conjunto de estratégias de argumentação que envolvem a captura do leitor.Kierkegaard (1991, p.244) afirma que “o irônico entende do assunto [de adequação de personagem] e possui um lote considerável de máscaras e fantasias à sua livre escolha”. Mas antes de Platão é o próprio Sócrates que é em si mesmo “mascarado”, fazendo uso da ironia e se colocando no lugar da ignorância, pois a ironia consiste tanto em “fingir saber quando se sabe que não sabe, como fingir não saber quando se sabe que se sabe” (KIERKEGAARD, 1991, p. 218).
Se Kierkegaard admite em maior grau a influência da figura de Sócrates em seu próprio pensamento, levando-a em consideração, no Conceito de ironia, sob os três grandes testemunhos gregos (Aristófanes, Platão e Xenofonte), é preciso reconhecer uma herança platônica no que diz respeito ao apagamento do Eu na escrita, se colocarmos em relevo o fato de que Kierkegaard optou por marcar a maior parte de sua produção com assinaturas de pseudônimos, através dos quais o jogo de se mostrar e se ocultar é evidenciado pela voz dada aos variados Eus contidos na obra do autor dinamarquês.
Kierkegaard não oculta o caráter imprescindível desse tipo de abordagem na expressão de suas ideias – como afirma nas últimas páginas do Pós-escrito: “A pseudonímia não teve uma base acidental em minha pessoa [...], e sim uma base essencial em minha produção” (KIERKEGAARD, 2010, p.602). Tais relações se esclarecem com as seguintes passagens de O Ponto de vista: “Pode enganar-se um homem em vista do verdadeiro e, para lembrar o velho Sócrates, enganá-lo para o levar ao verdadeiro” (KIERKEGAARD, 1986, p.48).
A ironia se faz presente, quando é válido enganar o discípulo para levá-lo ao verdadeiro. Como dito n'O conceito de ironia: “A ironia é, como o negativo, o caminho; não a verdade, mas o caminho” (KIERKEGAARD, 1991, p. 278). Mas o que significa, aqui, enganar? Logo após o reconhecimento [da influência de Sócrates] supracitado, o pensadordinamarquês afirma que essa é a única maneira de proceder quando se lida com quem se encontra na condição de vítima de uma ilusão (KIERKEGAARD, 1986, p.48). Diferente do diálogo falado de Sócrates e do diálogo escrito de Platão, a tática kierkegaardiana paradissipar a ilusão é o que ele denomina de comunicação indireta.
Existe, assim, um sentido estratégico nessa escrita, que visa um tipo de interferência na cultura, mas que precisa comportar em si uma abertura para o contato com os indivíduos. Trata-se da ênfase na escolha individual, por isso Kierkegaard vê como um problema se colocar no lugar do mestre de discursos de autoridade, pois este se adéqua melhor ao que ele denomina de“multidão”. Tomando o procedimento socrático como exemplo e influência: “a ironia é absolutamente contrária ao social e uma ironia 'em maioria' é, eo ipso, uma coisa inteiramente diversa da ironia” (KIERKEGAARD, 1986, p. 58).
Uma das características importantes da ironia reside no fato de que ela pressupõe um espaçamento entre exterioridade e interioridade, na medida em que uma das consequências do discurso irônico é trazer consigo um sentido que não reside no sentido das palavras comumente acordado, ou seja, trata-se de dizer algo, querendo dizer outra coisa. Para Kierkegaard, categorias existenciais precisam encontrar formas muito específicas de expressão. Assim é com verdades ético-religiosas. Kierkegaard (2013 p.273-274) conclui então, a partir de Climacus, que a “forma” adequada para a comunicação desse tipo de conhecimento “tinha de ser então indireta. [...]A interioridade não pode ser comunicada diretamente, porque expressá-la diretamente seria exterioridade” (KIERKEGAARD, 2013, p.277).
No jogo de máscaras não cabem apenas pseudônimos, mas também personagens. Kierkegaardpassa de um para outro. O pseudônimo Johannes Climacus, autor de Migalhas filosóficase do Pós-escrito às migalhas, tem uma biografia de juventude, sendo assim o protagonista de É preciso duvidar de tudo. Não se tratam apenas de personagens ficcionais, são personagens também conceituais. O cavaleiro da fé, o sedutor, todos se integram de algum modo a narrativas. Mas não existem apenas esses tipos de personagens. Há também aqueles que encenam um teatro de ideias em textos não narrativos, como é o caso do pensador objetivo e do pensador subjetivo, presentes noPós-escrito. Tratam-se de tipos que expressam modos de pensamento, mas também modos de existência, na medida em queos modos de pensamento revelam modos de vida, no sentido de que existem ideias que poderiam vir apenas de determinadas configurações existenciais.
Essa combinação de textos mais acadêmicos com uma escrita que carrega tons dramáticos, acena para uma compreensão do poder dos afetos como acompanhamento das ideias. Trata-se de uma concepção afetiva da própria escrita, do texto como um conjunto de movimentos gestuais. O aspecto formal tem seu desdobramento no conteúdo, uma vez que Kierkegaard é bem conhecido na história do pensamento como um investigador de emoções a exemplo da angústia, do desespero, da melancolia etc.Nessa atenção a aspectos existenciais da escrita, Kierkegaard não apenas se preocupacom a carga afetiva de seus próprios textos, mas com as obras de outrem, quando no Pós-escrito, por exemplo, analisa a figura do sujeito que, pensando logicamente, acredita se elevar por sobre as exigências vitais/existenciais, propondo, assim, a ideia de pensar o “estado anímico daquele que pensa lógico” (KIERKEGAARD, 20013, p.96).
As figuras do pensador subjetivo e do pensador objetivo/abstrato, desenvolvidas pelo filósofo dinamarquês, são muito úteis pra refletir sobre a comunicação indireta. Elas podem ser compreendidascomo tipos dentro uma obra que revela muito já em seu título: O “Pós-escrito às Migalhas filosóficas”, que se diz “conclusivo”, mas “não científico”. A direção mais imediata parece ser Hegel, na medida em que o autor da Fenomenologia do espírito explicita a necessidade de transformar filosofia em Ciência, a partir de um sistema que possibilite o alcance do absolutoA verdadeira figura, em que a verdade existe, só pode ser o seu sistema científico. Como afirma Hegel, o seu objetivo é colaborar para que a filosofia se aproxime da forma da ciência – da meta em que deixe de chamar-se amor ao saber para ser saber efetivo –é isto o que me proponho (HEGEL, 1992, p.23).
Esse alcance vem de uma grande lógica que seja também uma ontologia, de um sistema que abarque logicamente o ser em geral. A questão de Kierkegaard é precisamente demarcar a impossibilidade de um sistema da existência.O que Kierkegaard nomeia de pensador objetivo poderia ser o filósofo/cientista capaz de fazer uso de instrumentos lógicos para sistematizar a realidade e, com isso, restituir uma relação essencial: a ligação direta entre pensamento e ser. É isso que Hegel busca fazer, depois da crítica kantiana, uma reconstituição que interliga subjetividade e objetividade, expressa na célebre insígnia de que o real é racional e na ideia de que “o interior deve se tornar exterior” (HEGEL, 2007, p.22). O pensador subjetivo, por sua vez, perceberia que a existência rompe com a relação direta entre pensamento e ser(KIERKEGAARD, 2013, p.208-209).
É por isso que o pseudônimo Johannes Climacus insiste, ao longo do Pós-escrito, que quando o conhecimento de tipo objetivo tenta se aplicar à existência, desemboca numa produção de falsos saberes. Nesse nível argumentativo, Kierkegaard estabelece, no Pós-Escrito, a diferenciação entre pensador objetivo e pensador subjetivo, e o subsequente desenvolvimento do problema da comunicação e da estilística, na medida em que: “Objetivamente, acentua-se: o que é dito; subjetivamente: como isso é dito. Esta distinção já é válida na estética, e se expressa especificamente quando se diz que o que é verdade pode na boca desta ou daquela pessoa se tornar inverdade” (KIERKEGAARD, 2013, p.213, grifos do autor).
Ao pensar no “como” falar sobre categorias e a partir de categorias como existência, subjetividade, interioridade, Kierkegaard (2013 p.273-274) conclui que a “forma tinha de ser então indireta. [...]A interioridade não pode ser comunicada diretamente, porque expressá-la diretamente seria exterioridade”, pois a comunicação direta indica precisamente que a direção é para fora, como a direção do grito, e não para dentro do abismo da interioridade, onde 'temor e tremor' só então são terríveis, o que só pode ser expresso numa forma enganadora” (KIERKEGAARD, 2013, p.277).
A partir da hipótese de que o discurso não se liga diretamente às coisas, ou no mínimo às categorias da interioridade, a comunicação indireta de Kierkegaard aparece como uma possibilidade que pode se apresentar como uma proposta que reconhece nas “falhas” de comunicação, precisamente o seu poder.A própria natureza do páthos interno complexifica a comunicação, fazendo surgir daí a multiplicidade de opções de estilo.
A consequência estética desse último ponto, baseada na referência direta às sensações em contraponto a um pensamento puramente racional, também pode ser percebida em Kierkegaard quando, num contexto de crítica a pretensão especulativa de conceituar objetivamente categorias existenciais, afirma que “existir é uma arte”, bem como quando pensa a estratégia adequada para expressar os conteúdos dessa dimensão: “A comunicação indireta faz do comunicar uma arte” (KIERKEGAARD, 2013, p.292).
O contexto da mesma citação evidencia o problema da comunicação diante do caráter radicalmente individual das experiências, quando Kierkegaard evoca a imagem de dois passantes na rua, e estabelece como tarefa ao comunicador que ela não busque induzir o interlocutor a acompanhá-lo, mas “encorajando-o a seguir seu próprio caminho – e assim é a relação entre um existente e outro existente quando a comunicação diz respeito à verdade como interioridade existencial” (KIERKEGAARD, 2013, p.292).O acordo aqui é que, do ponto de vista das sensações que precedem uma racionalização comunicável, persiste a ideia de que algo da ordem da experiência é inteiramente singular.
Qualquer leitor que decidiu ler alguma obra de Kierkegaard se depara com a questão da pseudonímia e precisa compreendê-la dentro de sua proposta filosófica. Nosso objetivo, como dissemos acima, é aproximar a existência e o estilo como estratégia de escrita que favorece e revela os sentidos da comunicação indireta e, como é natural, serve de ferramenta de crítica à não especificamente a forma sistemática de filosofar, mas todo projeto filosófico que secundariza a relação entre os aspectos formais da escrita e a singularidades das ideias apresentadas.
Referências bibliográficas
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fé e saber. São Paulo: Hedra, 2007.
______.Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 1992. (v. I).
KIERKEGAARD, Søren. Pontodevistaexplicativodeminhaobracomoescritor.Lisboa:Edições70,1986.
______. O conceito de ironia:constantemente referido a Sócrates. Petrópolis: Vozes, 1991.
______. É preciso duvidar de tudo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
______. Migalhas filosóficasou um bocadinho de filosofia de João Clímacus. Petrópolis: Vozes, 2008.
______.Pós-Escrito conclusivo nãocientíficoàs Migalhas Filosóficas (v. 1).Petrópolis: Vozes, 2013.
______.Pós-Escrito conclusivo nãocientíficoàs Migalhas Filosóficas (v. 2).Petrópolis: Vozes, 2016.
