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Cuidado em tempos de crise: entre o poder salvacionista e a estética da existência

Cassiana Stephan
Doutora em Filosofia UFPR

É muito difícil falarmos em cuidado de si, dos outros e do mundo em nossos dias. Quando nos deparamos com a tragicidade do mundo, torna-se quase fantasioso falar em cuidado. Essa fantasia nos foi trazida pelos últimos escritos de Michel Foucault e, embora ela sustente nossas esperanças intelectuais, éticas e políticas, não sei dizer se eficazmente a colocamos em prática. A proposta do cuidado me parece ser inoperante mediante a tragicidade do mundo.
Sabemos, contudo, que o mundo não é inatamente trágico. O mundo se torna trágico. A tragicidade do mundo é efeito de uma manipulação, isto é, efeito da mobilização super eficaz de vários pares de mãos que escalonam a violência a partir da construção e do manejo de tecnologias que, em si mesmas, também não são trágicas. Com base nisso, pergunto-me: e quanto às mãos? Elas são em si mesmas trágicas?


Penso bem a ponto de afirmar: não, acho que não, embora talvez Jacques Derrida estivesse certo ao dizer que essas mãos nunca foram mãos. Essas mãos sempre foram patas, patas de um lobo que usa as luvas teológicas de Deus ou as luvas laicas do Estado, ambas luvas de cordeiro, de um homem-cordeiro, cordeiro de Deus e cordeiro do Estado-providência. Como nos explica Derrida em A besta e o soberano, mais especificamente no encontro de 12 de dezembro de 2001:

Os lobos reais ultrapassam, sem pedir autorização, as fronteiras nacionais e institucionais dos homens e de seus Estados-nações soberanos; os lobos na natureza, como se diz, os lobos reais são os mesmos aquém ou além dos Pirineus ou dos Alpes; mas as figuras dos lobos pertencem, elas, a culturas, a nações, a línguas, a mitos, a fábulas, a fantasmas, a histórias (DERRIDA, 2016, p.26).

Alguns lobos, os lobos que trabalham em vista da paz atrelada à tragicidade do mundo, são considerados mais humanos do que outros lobos, ou seja, do que os lobos que se recusam a ceder suas patas às luvas pastorais do cordeiro (sejam elas providas por Deus ou pelo Estado). Sem dúvida alguma, o poder pastoral continua a atuar nessa biopolítica que é, antes, uma zoopolítica, tal que indicado por Derrida (DERRIDA, 2016, p. 493-494). Nesses casos, em que o poder civilizatório cai como uma luva, o poder pastoral é exercido pela mescla entre cristianismo, sionismo e imperialismo capitalista.
Sou incapaz de detalhar a genealogia dessa mescla: falta-me, pois, arcabouço histórico-filosófico para tanto. Seja como for, não é a genealogia dessa mistura que quero abordar aqui. Do mesmo modo, para o momento, pouco me interessa as dissonâncias entre Foucault e Derrida. Por meio da presente narrativa, o que quero questionar é o seguinte: A) qual é a relação entre as mãos dos lobos, as patas dos homens e a tragicidade do mundo? B) Lobisomens são capazes de cuidar? C) Caso o sejam, esse cuidado pode – e quiçá deve – escapar da agenda salvacionista do poder pastoral?
Foucault nos explica na entrevista “Le sujet et lepouvoir”, publicada em 1982, algumas das características do salvacionismo pastoral:

1) É uma forma de poder cujo objetivo final é assegurar a salvação dos indivíduos no outro mundo. 2) O poder pastoral não é simplesmente uma forma de poder que ordena; ele deve também estar disposto a se sacrificar pela vida e salvação do rebanho [...]. 3) É uma forma de poder que não se preocupa somente com o conjunto da comunidade, mas com cada indivíduo em particular, durante toda a sua vida. 4) Enfim, essa forma de poder não pode se exercer sem que se conheça aquilo que se passa na cabeça das pessoas, sem explorar suas almas, sem forçá-las a revelar seus segredos mais íntimos (FOUCAULT, 2001, nº 306, p.1048).

De acordo com Foucault, o salvacionismo pastoral, que caracteriza sobretudo o cristianismo, modula-se na sociedade contemporânea na forma do problema do Estado-providência que “não coloca somente em evidência as necessidades ou as novas técnicas de governo do mundo atual. Ele deve ser reconhecido por isto que ele é: uma das extremamente numerosas reaparições do delicado ajuste entre o poder político exercido sobre os sujeitos civis e o poder pastoral que se exerce sobre os indivíduos vivos” (FOUCAULT, 2001, nº 291, p.963). Se pensamos com Derrida, podemos dizer, a partir de Foucault, que o poder pastoral se exerce sobre os indivíduos lobos, impondo-lhes o disfarce humano ao fazê-los portar luvas brancas manufaturadas com a lã do cordeiro.
É interessante notar que as luvas brancas vão se tornando cada vez mais encardidas à medida que tornam o mundo trágico. O problema é que essas luvas, ao eficazmente interagirem com as chamas do incêndio, da pólvora e da bomba, poluem o ar que respiramos. Ao poluírem o ar que respiramos, essas luvas se auto-poluem: é assim que o mundo se torna trágico. Mas, por que poluímos? Qual é mesmo o objetivo de tanta poluição? Já não me lembro mais. Perdi-me em meio à escatologia da luva de cordeiro que transforma o lobo em homem.
Após um esforço mnemônico, recordo-me de que poluímos em vista da salvação dos indivíduos que querem a paz para a civilização. Então, podemos afirmar que essas patas que se tornam mãos ao portarem as luvas brancas da colonização também cuidam? Poluir, através do incêndio, da pólvora e da bomba, é cuidar da paz para a civilização? Se assim for, o cuidado, ao contrário do que afirmei no início desse ensaio, não seria uma fantasia. Se assim for, talvez o cuidado seja realidade violenta em nome da paz. Que tipo de cuidado é esse?
Trata-se do cuidado atrelado às táticas de governo do poder pastoral. Trata-se do cuidado salvacionista. De fato, Foucault nunca nos disse que o cuidado é bom em si mesmo. Acho que ele tampouco nos disse que o cuidado é produtivo em si mesmo, eficaz em si mesmo. Não há apenas um cuidado ou o cuidado, por excelência. Concebo que esse raciocínio possa ser desenvolvido a partir de uma breve consideração de Foucault acerca da paz, publicada em 1983, na Revue de l' Institut International de Géopolitique. Nessa ocasião, Foucault afirma:

[...] a noção de paz no singular me parece uma noção duvidosa, parece-me que a noção mesma de pacifismo deve ser reexaminada desse ponto de vista. Pacifismo para qual paz? Pacifismo em relação a qual paz ou em relação a qual guerra velada pela paz que foi decretada? Essas são reflexões que me vem ao espírito e me parece que, do ponto de vista da investigação do que há de singular sob essa singularidade tirânica, despótica e cega da paz, será preciso fazer uma série de investigações (FOUCAULT, 2001, nº 337, p.1357).

O cuidado salvacionista praticado como poder pastoral no âmbito da zoopolítica e sua interface mortífera serve, parece-me, à paz da civilização, à paz dos lobos com luvas de cordeiro. De modo geral – e aqui estou promovendo generalizações que mereceriam problematizações e contraprovas –, o cuidado salvacionista não serve à paz das florestas brasileiras, dos Guarani Kaiowá, dos libaneses, dos sírios e dos palestinos – para citar apenas algumas das grupalidades ou bandos de viventes que não são contemplados pelo cuidado de Deus e do imperialismo-providência. O cuidado salvacionista para a paz da civilização é – diferentemente do cuidado estético da existência, assim como afirmativamente postulado por Foucault –, bastante eficaz. A guerra é, então, um ato de cuidado bastante eficaz; caso contrário, a guerra não seria levada a cabo. Em outros termos, o que quero dizer é que as operações bélicas (legítimas ou ilegítimas) do imperialismo não são investimentos de risco.
Mediante esse cenário polemicamente pacífico, o cuidado estético da existência, afirmado por Foucault como uma possível alternativa ao cuidado salvacionista, parece ser ineficaz e, portanto, fantasioso. Não se trata de uma falácia, mas talvez de uma fantasia. Com isso não quero trazer à tona uma tonalidade pessimista do pensamento foucaultiano. Quando afirmo que o cuidado estético da existência é ineficaz, não o faço de maneira negativa. Diferentemente, concebo que essa modulação do cuidado foi fabulada por Foucault para ser ineficaz, para ser inoperante, tendo em vista que a eficácia parece depender de uma lógica paranoica que alimenta a desconfiança de um lobo em relação a outro. Nesse sentido, mas aqui faço apenas uma indicação, suponho que o cuidado da estética da existência, tal como concebido por Foucault, conversa com a política da inoperância, assim como pensada por Jean-Luc Nancy e Maurice Blanchot no que se refere às suas comunidades inoperantese inconfessáveis. A ineficácia ou ineficiência do cuidado da estética da existência parece sabotar a ideologia produtivista do progresso, da progressão e do evolucionismo civilizatório.
O cuidado estético da existência não pode, então, deixar de ser fantasia. Caso deixe de sê-lo, corre o risco de se tornar um investimento seguro, um investimento salvacionista belicamente eficaz. A inoperância do cuidado estético da existência se deve a seu não enraizamento projetivo e propositivo, ou seja, a seu caráter não incisivo. Em outras palavras, o cuidado estético da existência não responde a um programa civilizatório, como é o caso do cuidado salvacionista. Por isso, tenho a impressão de que as diversas experiências do cuidado estético da existência dependem, sobretudo, do arcabouço da imaginação e não tanto (ou apenas) da racionalidade. Fantasiar ou imaginar o cuidado estético da existência em tempos de crise é criticar as injunções bélicas da violência (legítima ou ilegítima), paradoxalmente perpetrada pela pax civilizatória. Concebo que tal crítica se faz através de um contra-imaginário artesanalmente manejado por lobos que recusam vestir as luvas de cordeiro.
Assim sendo, parece-me que o cuidado da estética da existência não comporta apenas a resistência ao cuidado salvacionista de viés paternalista-civilizatório. O cuidado da estética da existência também parece comportar a persistência dos bandos e conglomerados ameaçados pelas investidas imperialistas ou triunfalistas do poder pela paz. Trata-se de persistir como lobo para, então, resistir como lobo às investidas dos homens-cordeiros. Mas, e como se persiste? Como a floresta persiste? Como os Guarani Kaiowá persistem? Como os libaneses, sírios e palestinos persistem?
Acho que eles persistem com as mãos, com aqueles pares de mãos que, na verdade, também são patas. Eles persistem porque não caíram na historieta salvacionista da luva de cordeiro. É, então, com essas mãos-patas que eles fantasiam o cuidado estético de suas existências. Tal estetização não tem relação alguma com a estilização vazia do existir. Essa estetização tem a ver com a sensibilização e re-sensibilizaçãoco-operativa entre os lobos e suas terras originárias. Persiste-se, portanto, na ineficiência ou ineficácia zoopolítica do cuidado estético da existência. O contra-imaginário colocado em ação no âmbito da persistência que, enquanto tal, resiste às injunções belicamente orquestradas do poder, parece corresponder ao da retomada – retomada das terras e dos vínculos insistentemente expropriados pelas luvas de cordeiro.
A política da retomada, a qual nos remete à palavra Guarani Kaiowá “tekoharã”, como nos explicam Adalberto Müller e Alexandre Nodari no texto “Revisitando a Carta Guarani Kaiowá: repercussões e retomadas”, publicado em 2024, é inoperante justamente porque não congrega a utopia pacifista sustentada pela operação bélica da razão calculativa, a qual é manejada pelos lobos em pele de cordeiro. Isso não quer dizer, contudo, que a política da retomada é ingenuamente resiliente. Parece-me – e aqui lanço apenas um palpite a ser explorado em ensaios futuros – que nem sempre os lobos têm sangue de barata. Isso quer dizer, então, que o valor ético do cuidado não se articula necessariamente ao pacifismo. As articulações entre cuidado e violência são mais complexas do que podemos imaginar – muito mais complexas do que sou capaz de imaginar nesse exato momento.
A título de indicação, eu diria que o cuidado salvacionista atrelado à eficácia política da expropriação é eticamente violento, mas moralmente legítimo. Por outro lado, o cuidado estético da existência atrelado à inoperância política da retomada é moralmente violento, mas eticamente legítimo. Minha hipótese repousa na distinção foucaultiana entre a moral voltada ao código e a moral voltada à ética.
No “Prefácio” ao segundo volume da História da sexualidade: o uso dos prazeres, Foucault (2011) nos explica que a moral voltada ao código instancia e é instanciada pelas normas vigentes em uma sociedade, ao passo que a moral voltada à ética diz respeito à relação que o si entretém consigo, com os outros e com o mundo a despeito (e algumas vezes à revelia) da legitimidade normativa do código. O cuidado estético da existência confina com a moral voltada à ética. Diferentemente, o cuidado salvacionista parece justificar e ser justificado pela legitimidade abstrata da norma. É, então, com base em tal indicação que deixo em aberto a questão acerca da relação entre cuidado e violência em tempos de crise, questão que se alinha às atuais preocupações de Judith Butler (2020) acerca da força da não-violência e dos diferentes sentidos que o termo “violência” pode vir a ter em distintos quadros de referência – em quadros em que o processo civilizatório cai como uma luva ou em quadros em que os lobos não se deixam pastorear.

 Referências bibliográficas

BUTLER, J. The Force of Nonviolence: an ethical-political bind. New York: Verso Books, 2020.
DERRIDA, Jacques. A besta e o soberano (Seminário).Trad: Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2016. [v.1 - 2001-2002].
FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits II. 1976-1988. Paris: Gallimard, 2001.
______. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Trad: Maria Thereza da Costa Albuquerque. São Paulo: Graal, 2012a.
MÜLLER, A.; NODARI, A. Revisitando a “Carta Guarani Kaiowá”: repercussões, retomadas. Raído, 18(45), 2024, p. 08-20.