O problema da hierarquia na filosofia de Nietzsche
Ícaro Souza Farias
Doutor em Filosofia pela UFRJ
Professor de filosofia da rede estadual do Estado da Bahia
É legítimo pensar os homens hierarquicamente? Ou melhor, é admissível estabelecer critérios e, a partir deles avaliar qual modo de ser é superior ao outro? É fato que comumente costumamos estabelecer parâmetros que nos permitem qualificar positivamente ou não uma conduta moral, uma prática cultural, política ou até mesmo um gosto estético qualquer, conquanto nem sempre tenhamos clareza de como fundamentamos tais juízos. Muitos, no entanto, costumam endossar a relatividade dos valores humanos, considerando que não há como aquilatar os modos de ser do homem numa perspectiva hierárquica. Outros não despendem sequer uma pequena parte do seu tempo para refletir sobre tais questões. Contudo, a pergunta persiste: o modo de viver, pensar e avaliar a vida pode ser pensado sob a ótica da hierarquia? Para Nietzsche, não é só possível como necessário.
O 'problema da hierarquia' na obra de Nietzsche aparece nominalmente no prólogo escrito em 1886, acrescentado a Humano, demasiado humano(1878).No livro em questão o filósofo escreve: “supondo que nos seja permitido, a nós, espíritos livres, ver no problema da hierarquia o nosso problema” (NIETZSCHE, 2013, Prefácio, § 4, p. 13). Nietzsche ressalta que esta questão não poderia ter brotado precocemente, mas sim “ao meio dia de nossas vidas”, onde já tivesse sido reunido um conjunto de experiências – alegria/tristeza, penúria/prodigalidade –, que tivessem sido intensificadas em nós. Em um fragmento póstumo Nietzsche escreve:
A necessidade profunda da tarefa que domina todas as fatalidades possíveis de cada homem na qual uma tarefa se fez carne e ao mundo” – no meio da minha vida, eu compreendi quanto o problema da hierarquia necessitava de preparativos para surgir finalmente em mim: - o quanto eu precisei experimentar estados de felicidade e angústia os mais variados, sem nada perder, saboreando e sondando tudo até o fundo [...] (KSA, 1 [238]).
Vê-se que foi necessário percorrer um caminho, acumular conhecimentos, para enfim poder dizer “Eis aqui um mais elevado, um mais profundo, um abaixo-de-nós, uma longa e imensa ordenação, uma hierarquia que enxergamos: eis aqui – o nosso problema!” (Ibid).
Nietzsche neste prefácio elege o “problema da hierarquia” como nosso problema – dos espíritos livres. Partindo da afirmação do filósofo, é possível considerar o referido problema como a questão central de sua filosofia? O termo hierarquia (Rangordnung) não é um dos mais mencionados na obra de Nietzsche. Entretanto, pensar em perspectiva hierárquica é uma prática constitutiva da filosofia nietzschiana. Ao longo da obra de Nietzsche é possível observar que o filósofo considera formas de vidas superiores e inferiores, ascendentes e declinantes. Quanto à importância da questão da hierarquia em sua filosofia, Nietzsche nos diz em um fragmento póstumo do final da primavera de 1886, “minha filosofia visa a hierarquia” (KSA, 7 [6]). Mas, o que isto significa? De qual hierarquia estamos falando? Num fragmento da primavera de 1888, Nietzsche responde, “o que me interessa é o problema da hierarquia na espécie humana, em cujo progredir absolutamente não acredito, o problema da hierarquia entre tipos humanos que sempre existiram e sempre existirão” (KSA, 13. 481, 15 [120] da primavera de 1888). De maneira semelhante em Além do bem e do mal, no capítulo nono (“O que é nobre”), seu autor afirma:
Toda elevação do tipo “homem” foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e diferenças de valor entre um e outro homem [...] (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, § 257, p. 153).
Sempre existiu e existirá entre os homens a hierarquização. Em diferentes épocas e obedecendo a diferentes valores morais, os homens podem ser avaliados pela ótica da hierarquia, levando em conta que as épocas não caminham em escala evolutiva. Noutros termos, não se pode considerar a era presente superior às precedentes. Assim como Nietzsche avalia hierarquicamente as épocas (o renascimento como superior à modernidade, por exemplo), haveria também diferença qualitativa entre as morais. Do ponto de vista da moral, Nietzsche não visa a moral individualista nem a coletivista. “Ficar longe dos dois movimentos, a moral individualista e a moral coletivista, pois mesmo a primeira ignora as hierarquias e quer dar a cada um a mesma liberdade para todos” (KSA, 12. 7 [6] da primavera de 1887). Nietzsche reivindica uma nova perspectiva para interpretar a moral.
Comumente, a noção de hierarquia quando considerada entre os homens é compreendida como diferenças de poder político, social e religioso. Para Deleuze, “fazemos da igreja, da moral, e do Estado os senhores ou detentores de toda hierarquia” (DELEUZE, 2018, p. 50). De fato, a distinção entre as pessoas do ponto de vista do domínio político e/ou social institui diferenças de grau de poder. Há homens que exercem mais poder sobre outros; há inclusive aqueles que fazem disso seu propósito de vida: dominar, subjugar, reduzir a vontade alheia à sua – são imperativos dos que perseguem a hierarquia nesse sentido.
Hierarquia, contudo, pode ser pensada em outra perspectiva, considerando a noção de superioridade e inferioridade, excluída de critérios sociais de poder. Superioridade como independência, autoafirmação, não alimentar necessidade da chancela alheia, não nutrir a sede de aplicar a desforra sobre o outro a fim de obter satisfação, afirmar a diferença. E inferioridade como dependência, necessidade de ser tutelado, autocomiseração, ressentimento, culpa, negação da diferença. Conforme Deleuze em Nietzsche e a filosofia, esta é a noção de diferença hierárquica com a qual Nietzsche corrobora.
O filósofo francês entende que para Nietzsche o fraco é aquele cuja própria força está separada do que pode – o triunfo das forças reativas sobre as ativas: Deleuze entende por força reativa aquela que nega a si própria, cujo sentido é meramente adaptativo, que nunca se afirma, que jamais afirma sua própria diferença, que sempre visa a adequação.A interpretação deleuzeana está mais amparada na leitura das obras tardias, principalmente, em Além de bem e de male Genealogia da moralonde Nietzsche melhor desenvolve os conceitos de vontade de potência, força, ativo, reativo, nobre, escravo etc.
Minha hipótese é de que o problema da hierarquia se desenvolve progressivamente na obra de Nietzsche, adquirindo pouco a pouco um papel central em sua filosofia. O propósito aqui é investigar como e por quais razões o filósofo procedeu desta forma. Procuraremos esclarecer sobre como a temática da hierarquia vai ocupando um lugar privilegiado na filosofia de Nietzsche, pensando-a a partir da noção de tipo (Typus), culminando em seu projeto genealógico.
Hierarquia em Nietzsche denota a classificação qualitativa em gradação de valores, afetos, e forças que podem ser avaliadas como superiores (ativas) ou inferiores (reativas) – questão que será esclarecida no transcorrer do texto. A tipologia surge na filosofia de Nietzsche como “ilustração”, como recurso conceitual para exemplificar formas de vida (os tipos) em ascensão ou decadência, afirmativa ou reativa – expressando diferentes níveis hierárquicos.
Entendo que o conceito de tipo em Nietzsche significa um modo de ser. Cada tipo reúne características subjetivas, afetivas e forças que nele prevalecem, que expressam uma forma de comportamento, um modo de se relacionar com o mundo e de atribuir sentido à vida, que no interior da obra de Nietzsche exerce um papel elucidativo de seus conceitos. O homem moderno, o socrático, o trágico, o espírito livre, o espírito cativo, o ressentido, o nobre, o escravo são tipos. O ressentido, por exemplo, é composto de traços específicos, de qualidades que fazem dele um 'modelo' de uma espécie de vida. Como explica Deleuze, “vemos qual é o sintoma principal desse tipo: uma prodigiosa memória.” (DELEUZE, 2018, p. 149-150). Em outras palavras, o ressentido padece da ausência da capacidade de esquecer. Assim, o ressentimento e a mágoa se entranham nele. “Um tipo é, com efeito, uma realidade ao mesmo tempo biológica, psíquica, histórica, social e política” (DELEUZE, 2018, p. 148).
Não tratarei aqui de todos os 'tipos' ilustrados na obra de Nietzsche, pois são muitos. Os tipos que serão estudados que podem ser pensados em chave hierárquica, sendo considerados como superiores ou inferiores, segundo a maneira pela qual cada um se institui, organiza sua dinâmica própria de sentir, de se relacionar, de administrar seus afetos, suas próprias forças. O que a meu ver está em questão no problema da hierarquia é, precisamente, a avaliação qualitativa de tipos de vida, modos de existir.
Não se trata aqui de procurar desvelar, encontrar a verdade que serviria de lastro para orientar a conduta humana. Muitos filósofos se propuseram a encontrar a verdade mesma das coisas, do mundo, da moral. A propósito, a noção de verdade criada e reverenciada por muitos filósofos ao longo da tradição filosófica é alvo de questionamento de Nietzsche.
Se o que está em vigência não é mais a verdade, um valor abstratamente levantado em edificação metafísica, de onde partiremos para pensar as noções de força e fraqueza? Se Nietzsche não opera por princípios incondicionados e absolutos, ele privilegia e parte do corpo, que afinal, como ele mesmo diz, não é o que temos, mas o que somos. O corpo é locusmesmo da vida, tudo que vivemos ocorre nele e, por meio dele. Como bem sinalizou Deleuze, não há relação, seja ela política, religiosa, afetiva que aconteça fora do corpo. O que um corpo expressa? Sintomas, que podem ser sinais de enfermidade ou de saúde, que sinalizam força ou fraqueza. Em um corpo há forças afirmativas e negativas que lutam entre si. Em alguns corpos prevalecem às primeiras forças e em outros as segundas. Dizer que algumas forças prevalecem, dominam significa dizer que o corpo nunca é formado por uma única força, porém, por várias; ele é múltiplo: constitui uma multiplicidade. Na multiplicidade que nele habita há relações de mando e obediência, ou seja, é estabelecida uma hierarquia na relação.
Em outras palavras, crenças, valores, impulsos dominam em um corpo, enquanto outros, por outro lado, são dominados. A hierarquia marca a contenda entre as partes que dominam e são dominadas e, ao mesmo tempo, expressam sintomas afirmativos ou negativos, que promovem a ascensão ou o declínio em um corpo. O que faz Nietzsche em seu projeto filosófico é analisar, avaliar – como um filósofo médico da cultura – o percurso histórico dos valores que predominaram na cultural ocidental, identificando, criticamente, seus efeitos no corpo e, em última instância, na vida.
O diagnóstico Nietzschiano constata a prevalência da decadéncena cultural ocidental, sobretudo, na modernidade. As forças reativas, negativas se tornaram majoritárias, pois conseguiram suplantar as forças afirmativas. O cristianismo com seus valores é um exemplo do triunfo da decadência. A hierarquia dos fracos, dos escravos, dos sacerdotes conseguiu maior adesão. Mas é uma hierarquia onde a fraqueza, o cansaço do mundo e da vida são sacralizados. Toda crítica nietzschiana contra os valores que ele considera decadentes se deve a sua interpretação da vida. Ora, a vida se dá, desenvolve-se e é criada na imanência com tudo o que há de ambiguidade, contradição, gáudio, tristeza que nela habita.
Os valores do tipo socrático-platônico-cristão são interpretados como sintomas da decadência, pois rejeitam a vida tal como ela se apresenta, procurando dar a ela um sentido que não está nela, mas em um suposto mundo inalcançável, que passa a exercer o papel de postulado principal para julgamentos estéticos, epistêmicos e morais. Quando a interpretação da existência não está mais nela, mas em outro lugar (inacessível), o que é ínsito à vida passa a ser desqualificado, isto é, suas forças, instintos, impulsos são concebidos como algo negativo, antinatural. Assim, quaisquer potências da vida são castradas, reduzidas, dirimidas. Justamente por isso uma religião ou filosofia que depõe contra o corpo promove a fraqueza, a decadência.
Nietzsche identificou os sintomas da fraqueza em sua época e, inclusive, em si mesmo, pensando os tipos que de alguma forma se enquadram na perspectiva da decadência: o tipo socrático, o sacerdote ascético, o espírito cativo, o cristão, os “trabalhadores” da filosofia, o escravo. Nietzsche também pensa nos tipos opostos daqueles, o tipo trágico, o espírito livre, os filósofos do futuro, o nobre como tipologias pensadas para alcançar a hierarquia chancelada por ele. Os tipos aqui abordados não esgotam todas as tipologias pensadas por Nietzsche; há muitas que sequer foram mencionamos, que também poderiam ser analisadas do ponto de vista hierárquico, a exemplo das diversas personagens que aparecem em Assim falou Zaratustra. Cada tipo tem um modo próprio de ser, de cultivar seus valores e, claro, de hierarquizar suas forças. A chave da interpretação hierárquica está na forma como cada tipo se relaciona com a vida: se a denega, ou se a afirma.
A hierarquia pensada a partir dos tipos não é rígida e inalterável. Em outras palavras, aquele que é forte, nobre não o é definitivamente. Ou melhor, aquele que pode ser qualificado como nobre não alcançou um estágio de superioridade incontornável. O que quero dizer é que no forte também pode haver forças reativas, como o próprio Nietzsche elucida, mas prevalece nele à capacidade criativa, afirmativa e do esquecimento, capazes de fazê-lo se livrar de afetos nocivos como o ressentimento. No fraco, por outro lado, domina o ressentimento, a negação da diferença, o ódio. Como procurei explicar, a vontade de potência opera por meio de forças que estão em conflito, não havendo fim para o confronto. Neste combate, as forças afirmativas podem se organizar enquanto unidade e prevalecer sobre forças negativas.
Em suma, pensar a hierarquia para o filósofo do martelo tem um significado basilar em seu pensamento, tese que procurei sustentar ao longo do texto. Entendo que a filosofia nietzschiana está fundamentalmente voltada para a hierarquia – de formas de vida, da qualidade dos afetos, dos valores, da vontade de potência. Desde a sua primeira obra até sua produção derradeira, nosso filósofo parece ter desenvolvido uma linha de pensamento cujas temáticas exploravam a hierarquia por meio das tipologias filosóficas, religiosas, estéticas, que foram ganhando novas abordagens e temas com o desenvolvimento da obra, mas sempre ocupando um espaço decisivo em seu pensamento.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
NIETZSCHE, F. A genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
______. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
______. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das letras, 2013.
______. Fragmentes posthumes XII(Automme 1885-automme 1887). Paris: Gallimard, 1978.
______. Fragmentes posthumes X(Printemps-automne 1884). Paris: Gallimard, 1982.
