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A Filosofia de Nietzsche: noções introdutórias

José Carlos Silva Rocha Costa
Doutorando em Filosofia (UFBA)
Professor estatutário do Estado da Bahia

A crítica tradicional divide a obra de Nietzsche em três fases: juventude (ou pessimismo romântico), fase intermediária (positivismo cético) e a fase da transvaloração dos valores. Embora essa divisão siga a cronologia e reúna temas semelhantes em cada fase, não deve ser vista como uma regra rígida. Existem três problemas com essa periodização: 1) Nietzsche não propôs essa divisão; 2) algumas ideias aparecem em todas as fases; 3) a divisão pode sugerir uma separação artificial entre períodos. Apesar dessas limitações, a periodização ainda serve como um guia útil para a análise da obra de Nietzsche. A seguir, apresentaremos de forma sintética os conceitos, noções e problemas fundamentais principalmente das duas últimas fases do pensamento de Nietzsche.
A noção nietzschiana da morte de Deus.


O projeto filosófico de Nietzsche está profundamente vinculado ao processo de secularização, que se resume de forma emblemática na célebre expressão “Deus está morto!” do aforismo §125 de A Gaia ciência(1882). No contexto da modernidade, observamos uma diminuição da relevância de Deus como símbolo supremo da transcendência. A divindade já não ocupa o papel central que outrora teve na orientação da vida intelectual e cultural do Ocidente. A morte de Deus sinaliza o fim da plausibilidade dos valores judaico-cristãos, manifestando-se na crescente desconfiança em relação a qualquer realidade metafísica, religiosa ou moralmente fundamentada no suprassensível.
Em síntese, a morte de Deus reflete uma crescente desconfiança na existência de uma realidade mais “verdadeira” e “superior” àquela em que habitamos. Diante desse diagnóstico cultural e da ruptura com essências e fundamentos divinos, o insensato dramatizado por Nietzsche no aforismo §125,O homem louco, se destaca entre os homens do mercado e aponta o assassino de Deus. Ao questionar sobre o destino de Deus, o homem louco responde: “Nós o matamos!” O verdadeiro culpado é facilmente identificado: o homem moderno e reativo, responsável por substituir a teologia pela ciência. Assim, a bem-aventurança celeste deu lugar ao bem-estar terreno, enquanto a autoridade da igreja foi destronada pela razão e pela crença no progresso histórico, criando um vazio de sentido que frequentemente conduz ao niilismo.
Segundo Nietzsche, quando a crença em Deus e em uma ordem moral do mundo não são mais sustentáveis, os indivíduos podem começar a acreditar na imoralidade absoluta da natureza e na ausência de finalidade e sentido dos afetos psicologicamente necessários. Isso implica uma mudança radical na perspectiva moral e existencial. Nietzsche argumenta que o niilismo não surge de um aumento do desprezo pela existência em si, mas sim da perda de fé em uma interpretação específica da existência. “Uma interpretação desabou; mas, pelo fato de que ela passava por ser “a interpretação”, parece que não há mais qualquer sentido na existência” (NIETZSCHE, 1887, 4 [71], KSA 12.212). Quando essa interpretação, que era considerada a interpretação dominante, desmorona, pode parecer que não há mais sentido na existência e que tudo é vão. Como afirma (NETO, 2017, p.45), se Deus for apenas uma concepção humana, então, ele surgiu em um determinado ponto no tempo e pode desaparecer algum dia. Por outro lado, se a “morte de Deus” é uma consequência do desenvolvimento da história ocidental, Nietzsche não pode ser considerado o único responsável por isso; na verdade, essa responsabilidade deve recair sobre toda a civilização ocidental.
O procedimento genealógico e a crítica a moral ocidental
A compreensão do termo “genealogia” é fundamental nos textos de maturidade de Nietzsche. Em linhas gerais, o termo pode ser caracterizado como um novo método de investigação e sintetiza bem o modo de exposição de sua filosofia. A etimologia do termo genealogia compõe-se do prefixo “gen” ou “gene”, remetendo à herança de antepassados que constituem a linhagem ou tronco familiar de um indivíduo. Ao se somar ao sufixo “logia”, comumente traduzido por “estudo”, o termo denota o conhecimento da linhagem ou ascendência. Nietzsche é o primeiro pensador a utilizar essa terminologia na filosofia, conservando o sentido de investigação das “origens”. É a partir dessa perspectiva singular que Nietzsche, como genealogista, se empenha em identificar as origens históricas e naturais dos valores morais. Sua investigação revela que os valores são construções históricas, resultantes de combinações e variações culturais e sociais contingentes.
Essa metodologia genética se caracteriza por dois aspectos: primeiramente, o método genealógico se configura como uma investigação regressiva das pulsões ou instintos que deram origem a uma determinada moral, religião ou filosofia enquanto fontes de valores ou interpretações. O segundo aspecto é a consequência do primeiro e se caracteriza pela investigação do valor dos valores, constituindo, desta forma, uma nova exigência descrita por Nietzsche no prefácio da obra Genealogia da moral.
A investigação dos valores enquanto sintomatologia da vontade de potência investiga a origem das condições que o homem criou para si, expresso no par axiológico dos valores “bom” e “mau” e discute qual o valor que esses valores carregam no sentido da promoção ou obstrução da vida. Essa visão de mundo, explicitada através da prática do método genealógico, permite fazer a distinção entre duas esferas distintas da origem dos valores. Por um lado, temos a moral dos senhores; por outro, a moral dos escravos. Enquanto a primeira moral valoriza a afirmação deste mundo e da vida forte, sadia e transbordante, cujos impulsos coadunam e explicitam uma superior vitalidade de vontade de domínio, a moral dos escravos, em contrapartida, é a moral da negação da força dos instintos em nome de uma transcendência, em vista de um além, de um céu. Segundo o filósofo, a moral dos escravos se caracteriza pela falta de confiança na vida terrena, refletindo uma vontade exausta e enfraquecida.
Em síntese, o método genealógico configura-se como uma reavaliação crítica dos valores que sustentam a moral moderna. A aplicação dessa abordagem implica uma desconfiança em relação à ideia de uma tábua de valores absoluta. Assim, a tarefa dos filósofos – um caminho aberto por Nietzsche – é problematizar tanto o valor quanto a hierarquia dos valores. Essa problematização nos prepara para o que Nietzsche designa como a futura objetividade filosófica, desafiando-nos a repensar os fundamentos da moralidade e a buscar novas perspectivas sobre a vida e os valores que a orientam.
O projeto de transvaloração de todos os valores
O projeto de transvaloração pode ser visto como um movimento destinado a contestar os valores estabelecidos pelo platonismo e pelo cristianismo, que, na visão de Nietzsche, espalham o desprezo pelo mundo sensível e a negação do corpo. Portanto, “transvaloração” refere-se à iniciativa do filósofo de superar a decadência da civilização ocidental e, ao mesmo tempo, inaugurar uma nova era moral para o Ocidente. Dado que o tempo é contado a partir do marco mais representativo da antiga moral, faz sentido reiniciar essa contagem a partir do começo da transvaloração.

E o tempo é contado pelo dies nefastus[dia nefasto] com que teveinício essa fatalidade – pelo primeiro dia do cristianismo! –Porque não pelo último? A partir de hoje? –Transvaloração de todos os valores!...(NIETZSCHE, 2007, p.80, grifos do autor).

O projeto de transvaloração dos valores está intimamente ligado a um tipo de naturalismo, que busca criticar e criar novos valores ao esclarecer todos os processos da vida, incluindo as formações culturais e sociais, como manifestações puramente naturais, afastando-se de crenças transcendentes. Nesse contexto, a tarefa dos filósofos do futuro é radicalizar o niilismo moderno, transformando-o em uma ferramenta para criar e legislar. Essa abordagem destaca a urgência de confrontar a devastação causada pelo niilismo contemporâneo.
A noção nietzschiana de Vontade de Potência
Em Assim falava Zaratustra, Nietzsche defende que o modo de ser de todo ente vivente é vontade de potência (cf. Za/ZA II. Do superar a si mesmo). Ora, podemos definir a noção nietzscheana de vontade de potência como uma espécie de anseio constante por domínio e poder. Um impulso cego que deseja, a todo o momento, se exercer de forma impositiva numa luta por mais potência e dominação sobre o alheio. Logo, a maneira de ser de cada ente vivo consistiria nesse querer subjugar e se impor frente aos outros viventes. Em outras palavras, o combate por mais potência se daria entre todas as esferas da vida.
O corpo para Nietzsche é uma estrutura regida por uma pluralidade de células adversárias em combate permanente por mais potência. Em suma, o corpo é um processo instável de conflitos entre impulsos ou forças em permanente tensão: “Com o combate, uma célula passa a obedecer a outra mais forte, um tecido submete-se a outro que predomina, uma parte do organismo torna-se função de outra que vence – durante algum tempo” (MARTON, 2010, p. 50). Os seres vivos, o pensamento e a própria consciência são constituídos por essa pluralidade de forças em luta. Não existe, nesse sentido, uma alma pré-existente que possibilite o pensamento do indivíduo, mas sim, relações de forças fisiológicas naturais que, tradicionalmente, estão relacionadas à mente ou à alma. Nietzsche, por seu lado, concebe a vontade de potência em pressuposto para a compressão do mundo.

Supondo, finalmente, que se conseguisse explicar toda a nossa vida instintiva como a elaboração e ramificação de uma forma básica da vontade – a vontade de potência, como é minha tese –; supondo que se pudesse reconduzir todas as funções orgânicas a essa vontade de potência, e nela se encontrasse também a solução para o problema da geração e nutrição – é um só problema –, então se obteria o direito de definir toda força atuante, inequivocamente, como vontade de potência. O mundo visto de dentro, o mundo definido e designado conforme o seu “caráter inteligível” – seria justamente “vontade de potência”, e nada mais (NIETZSCHE, 1992, p. 43, tradução modificada).

Nesta perspectiva, a vontade de potência como vontade orgânica se configura como o emaranhado de forças que compõe o organismo de forma plural. A vontade de potência se manifesta no jogo múltiplo dos impulsos, superando resistências, fazendo alianças, provocando coalizões, superando a si mesma e, nesse processo, se assenhora de novas configurações e interpretações, como afirmar o filósofo do martelo:[...] há de existir um algo que quer crescer, que interpreta cada outro algo que quer crescer a partir de seu valor. Nisso são iguais – Na verdade, interpretação é um meio próprio de assenhorar-se de algo. (O processo [Prozess] orgânico pressupõe um ininterrupto interpretar) (NIETZSCHE, 2008, p. 328, grifos do autor).
A doutrina do eterno retorno.
A doutrina do eterno retorno desempenha um papel significativo na cosmologia de Nietzsche e está intimamente relacionada à sua crítica e sua proposta de transvaloração dos valores. Esse conceito pode ser interpretado como uma visão de mundo cíclica, que compreende o universo como um eterno retorno das mesmas forças e estados cósmicos. Os primeiros contornos dessa tese são delineados em A Gaia ciência, no aforismo § 341, intitulado “O maior dos pesos”.
Seguindo a linha interpretativa ético-existencial que envolve o “desafio” do demônio, Nietzsche expõe a ideia da absoluta e infinita repetição circular de todas as coisas. Caso a vida eterna transcendente, conforme afirmada pela tradição cristã, não exista, restando apenas esta vida terrena com todos os seus prazeres, mas também dores e angústias, surge a questão do impacto que o eterno retorno teria na existência humana. Seria essa ideia recebida com grande sofrimento ou grande alegria? Nietzsche propõe o eterno retorno como uma alternativa à desvalorização de todos os valores que decorre da “morte de Deus” e da sombra do niilismo que se estabeleceu no ocidente. A afirmação da repetição cíclica de todos os eventos representa a mais elevada forma de afirmação da vida que se pode alcançar.
Além da abordagem ético-existencial, o conceito do eterno retorno também pode ser interpretado como uma tese cosmológica, influenciada pelos debates científicos do século XIX, particularmente pelas teorias da física. Nietzsche, embora não participasse diretamente dos debates científicos, tinha conhecimento das discussões, como a primeira lei da termodinâmica, que descreve o universo como um sistema fechado, no qual não há perda nem ganho de energia, apenas uma transformação cíclica. Independentemente da teoria específica, a visão cosmológica de Nietzsche tem como objetivo central combater e substituir a cosmovisão cristã.
De fato, Nietzsche inicia seu trabalho de crítica aos pilares que sustentam essa visão de mundo ao questionar a cosmovisão cristã. Ao confrontar essa cosmovisão, o filósofo propõe um novo referencial para a criação de valores, que é o amor incondicional à imanência. Isso implica dizer sim ao eterno retorno das forças que nos constituem, como uma crítica ao sentimento de negação do mundo, substituindo-o pela afirmação da vida em sua totalidade natural.
O além-do-homem e a afirmação da vida
Nietzsche atribuiu essa missão de afirmar a vida ao além-do-homem, um conceito fundamental em sua filosofia. Podemos definir o além-do-homem como o ser humano transvalorado, alguém que não mais depende de consolações metafísicas para viver. O além-do-homem representa o sentido da terra, um defensor da imanência, conforme Nietzsche escreve no prólogo do Zaratustra:

O além-do-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: o além-do-homem seja o sentido da terra! Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou não. São desprezadores da vida, moribundos que a si mesmos envenenaram, e dos quais a terra está cansada: que partam, então! (ZA/ZA I, Prólogo § 3, KSA 4.14-15 Tradução modificada).

Nietzsche, como mencionado, propõe diversas abordagens para lidar com essa crise, desde a busca do além-do-homem como uma resposta à ausência de valores divinos até a criação de novos valores reside nos filósofos do futuro. No entanto, a questão crucial reside em identificar “os mais fortes”, aqueles que, ricos em saúde e poder, podem superar os desafios da modernidade e, potencialmente, transcender o seu contexto atual, abrindo caminho para um novo entendimento da natureza humana e dos valores.Nietzsche caracteriza o filósofo legislador como alguém que favorece o surgimento de um tipo superior de ser humano, que ele sugere poder ser o além-do-homem naturalizado. Esse filósofo carrega a responsabilidade fundamental de promover o desenvolvimento humano em sua totalidade. 

Referências bibliográficas

HATAB, Lawrence J. Nietzsche On the Genealogy of Morality:an introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.
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NETO, João Evangelista Tude de Melo. 10 lições sobre Nietzsche. Petrópolis: Vozes, 2017.
NIETZSCHE, F. Samtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA). Herausgegeben von
Giorgio Colli und Mazzino Montinari. 15 Bände. Berlin: Walter de Gruyter, 1999.
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