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Literatura e educação: a desbarbarização
como resistência em Adorno

Gledinélio Silva Santos
Doutorando em educação (PPGE/UFSCar). Bolsista Capes

A presente análise tem como objetivo explorar a interseção entre literatura e educação à luz da teoria crítica de Theodor W. Adorno, com ênfase na noção de desbarbarização como um ato de resistência cultural e intelectual, assim como uma alternativa possível para uma educação crítica que desafie o status quo. Adorno oferece um conceito complexo de desbarbarização que pode ser aplicado ao papel da literatura na educação, cuja análise crítica ao ser realizada busca entender como a literatura pode se estabelecer como um espaço de resistência à razão instrumental e à cultura de massa, e se colocar contra as forças de conformismo e alienação presentes na sociedade moderna. Ao fim, espera-se que tal diálogo entre literatura e educação possa indicar possíveis caminhos para a formação de sujeitos autônomos e críticos.


O pensamento do filósofo e sociólogo Theodor W. Adorno(1903-1969), um dos principais expoentes da Escola de Frankfurt, oferece uma abordagem crítica à relação entre cultura, sociedade e educação. Mais conhecido por sua análise sobre a indústria cultural (ADORNO, 2020) e a forma como esta contribui para o conformismo e a alienação, Adorno também apresenta em sua obra o conceito de “desbarbarização” como resistência contra essas tendências.
Uma vez que a cultura de massa se apresenta como expressão da razão instrumental, cuja função se baseia na homogeneização, isto é, no uso da razão como agente da instrumentalização do homem. A teoria crítica, desenvolvida por Adorno, oferece uma análise profunda sobre a relação entre razão e barbárie. Para ele, a razão instrumental, característica da modernidade, em vez de emancipar o homem, o instrumentaliza, transformando-o em um mero instrumento de produção. Nesse contexto, a cultura de massa emerge como uma expressão máxima da razão instrumental, padronizando gostos, comportamentos e ideias, e contribuindo para a alienação do indivíduo. Diante desse cenário, ao oferecer uma linguagem singular e autônoma, a literatura pode se opor à linguagem instrumental e à padronização cultural, contribuindo para a formação de sujeitos críticos e autônomos.
Em contraposição à barbárie, na medida em que “Progresso e barbárie estão hoje tão emaranhados na cultura de massas que só uma ascese bárbara contrária a esta e ao progresso dos meios pode restabelecer a ausência da barbárie” (ADORNO, 1993, p. 43), Adorno utiliza o termo “desbarbarização” para descrever um processo pelo qual a cultura e a educação contribuem para a emancipação do indivíduo, afastando-o da barbarização da vida cotidiana imposta pela sociedade capitalista. A desbarbarização implica, desta forma, num movimento em direção à crítica, à autonomia e ao pensamento reflexivo, contrastando com a passividade e a aceitação acrítica das condições sociais e culturais predominantes.
Para Adorno, a desbarbarização deve ser um objetivo da educação crítica e da cultura – certamente um dos objetivos mais urgentes nos dias atuais –, que deve promover a capacidade de questionar e de resistir à hegemonia cultural, visto que “A desbarbarização da humanidade é o pressuposto imediato da sobrevivência” (ADORNO, 2022, p. 126). Diante do presente exposto, a literatura desempenha um papel crucial nesse processo, ao proporcionar uma experiência estética que desafia as normas estabelecidas e estimula a reflexão crítica.
Pensar a literatura como ferramenta de desbarbarização é, em alguma medida, compreender a escrita literária e a própria literatura como formas mais acessíveis ao indivíduo que busca um contato mais íntimo com a obra de arte. Sobretudo porque, através da experiência literária, não apenas é possível perceber a realidade com os olhos do artista, como também dar ao texto uma nova interpretação concernente à nossa subjetividade. Em outras palavras, pensar a literatura como ferramenta de desbarbarização requer o que podemos denominar aqui de três movimentos, sendo o primeiro: pensar a linguagem poética como um desafio à linguagem instrumental; em segundo, conceber a experiência estética como um momento de interrupção e reflexão, e em terceiro, considerar a literatura como um espaço de utopia e de crítica social.
O homem comum, em sua correria cotidiana na resolução de compromissos urgentes, pode, a princípio, seguir sua jornada indiferente à presença ou à ausência da Arte, como se essa não fosse o fio que tece o mais profundo contato com seu próprio ser, ou com os outros que cruzam seu caminho. Contudo, é inegável que a escrita, a dança, o canto e a pintura não apenas ecoam no exterior e no interior de si mesmo, mas está presente na humanidade desde os tempos remotos da Pré-história, e, mesmo que tal argumento seja questionável ou carente de considerações irrefutáveis, é lícito afirmar que a sobrevivência da espécie humana e seu florescimento se devem justamente à linguagem, essa que, em última instância, revela-nos o seu ápice de beleza na obra de arte.
Ao tomar como ponto de partida a pergunta sobre de que modo a leitura e a escrita literária atuam no processo de constituição do sujeito e as possibilidades de sentidos da sua existência, busco compreender a dimensão emancipatória proporcionada por tais experiências. Em última instância, meu objetivo é analisar a formação do pensamento crítico por meio da leitura, da escrita e da literatura, assim como os seus reflexos na sociedade.
Tal procedimento convida e exigeter consciência que a escrita literária não deixa de ser o exercício criativo de uma nova realidade, na medida em que o sujeito passa a perceber o mundo a partir de suas próprias experiências, de suas raízes, sua ancestralidade, seu lugar de fala e suas vivências comunitárias. Processo dissertativo este que, por sua vez, coloca a memória como questão latente a ser analisada, uma vez que é por meio dela que ocorre o encontro de si consigo mesmo, como afirma Walter Benjamin:

Pois um acontecimento vivido é finito, ou, pelo menos, encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois (BENJAMIN, p. 37, 1994).

Destarte, tal ato rememorativo, ou travessia feita pelo sujeito por meio da escrita, tende a revelar um mundo pretérito que reverbera no presente e implica de maneira significativa em seu futuro. Como se tal procedimento atuasse como um despertar para a vida, ou como abertura do olhar para um mundo novo até então oculto/invisibilizado.

Para refletir uma coisa como ela, o sujeito deve devolver-lhe mais do que dela recebe. O sujeito recria o mundo fora dele a partir dos vestígios que o mundo deixa em seus sentidos: a unidade da coisa em suas múltiplas propriedades e estados; e constitui desse modo retroativamente o ego, aprendendo a conferir uma unidade sintética, não apenas às impressões externas, mas também às impressões internas que se separam pouco a pouco daquelas (ADORNO; HORKHEIMER, 1986, p. 175-176).

Se a jornada do artista é, de algum modo, uma busca pela plena realização de si mesmo, como criador e ser crítico, é importante destacar que essa inquietação que surge dessa procura nunca se esgota no ato de criar, como se a vontade se saciasse ao se confrontar com o desejado. O próprio termo se revela claro, quando entendemos o fazer artístico como uma ação que se alimenta de sua própria urgência. É uma necessidade vital, um chamado que se estabelece como um imperativo de uma vida estética, cuja essência não precisa de outras justificativas.
Via de regra, subtende-se que toda criação pressupõe uma intenção, um destino para aquilo que é produzido com o intuito de se obter algum resultado, ou lhe conceder algum propósito existencial. Ao impor-se diante de um mundo excludente por meio da arte, o sujeito acentua o desejo de arrogar a autoria da própria vida, contra toda e qualquer força coercitiva. Trata-se, em certa medida, de uma insubmissão e insurgência àquilo que fere a condição humana na sua individualidade. E como a obra de arte fala a cada um de maneira diferente, não apenas no resultado final como também durante a sua criação e concepção, esse falar da obra não é uma voz imperativa que abarca a todos de igual modo. Ou que sua função seja informar, fazer com que se torne conhecida a verdade ou qualquer coisa que o valha.
Ao promover uma interação entre os sujeitos e as mais diversas expressões artísticas, incluindo-se aqui a literatura e a escrita literária, promove-se aquilo que há em nós e que se desperta nessa relação com a experiência estética. Quer seja uma música, por exemplo, que nos transporta para algum lugar perdido na memória e distante do tempo; quer seja uma imagem que nos remete a outra e a tudo o que foi vivenciado naquele momento; ou a emoção provocada pela cena de um filme, um romance ou um poema, despertando sentimentos adormecidos ou ainda latentes. É assim, vezes em conta, que a arte nos coloca diante daquele que um dia fomos.
A literatura, em sua capacidade de explorar e questionar a experiência humana, oferece um espaço para a desbarbarização. Por meio da narrativa, da crítica social e da experimentação formal, a literatura pode expor e desafiar as convenções e os preconceitos da sociedade. Para realizar essa função social, a literatura deve se afastar da função de mero entretenimento e se engajar em uma crítica profunda da realidade social.
Em termos práticos, através de exemplos históricos, como o realismo de Machado de Assis, o realismo crítico de Charles Dickens ou a experimentação formal de James Joyce, entre outros exemplos, podemos observar como a literatura pode promover uma consciência crítica. Esses autores, e muitos outros, utilizam a narrativa para questionar e criticar as estruturas sociais e culturais de seu tempo, contribuindo para a desbarbarização dos leitores.
De que modo então a educação e a formação crítica se correlacionam neste contexto? Se de um lado, a educação tradicional e a reprodução da ordem social, são sintomas desse projeto de barbárie em curso. Visto que:


Enquanto a marcha da civilização se desenvolvia sem plano e de modo anônimo, o espírito objetivo não era consciente do elemento bárbaro como necessariamente a ele inerente. Na ilusão de estar a fomentar a liberdade, quando o que fazia era facilitar a dominação, recusava pelo menos contribuir diretamente para a sua reprodução (ADORNO, 1993, p. 130).

Por outro lado, “Enquanto a sociedade gerar a barbárie a partir de si mesma, a escola tem apenas condições mínimas de resistir a isso” (ADORNO, 2022, p. 126), uma vez que, “A barbárie é justamente o contrário da formação cultural (Cf. ADORNO, 2022, p. 126), e por isso desenvolver uma educação crítica e a formação de sujeitos autônomos é uma ação urgente, utilizando-se da literatura como ferramenta para o desenvolvimento do pensamento crítico.
Adorno argumenta que a educação deve ser um processo de formação crítica, que permite aos indivíduos questionar e resistir à conformidade social. Nesse contexto, a literatura é uma ferramenta pedagógica vital, exercitando nos alunos a leitura crítica e a análise literária, visando desenvolver habilidades de pensamento independente e críticos.
Ora, se “a desbarbarização não se encontra no plano de um elogio à moderação, uma restrição das afeições fortes, e nem mesmo nos termos da eliminação da agressão” (ADORNO, 2022, p. 126), cabe não apenas refletirmos sobre o ambiente educacional, muitas vezes gerador de inúmeras violências, mas tentarmos avançar na compreensão desse exercício literário, e assim pode oferecer uma maneira de explorar diferentes perspectivas e experiências, desafiando os alunos a reconsiderar suas próprias crenças, preconceitos e postura perante o outro e a si mesmo. Compreender a educação baseada em uma abordagem crítica à literatura é, portanto, afirmar que ela não só promove a desbarbarização, mas também prepara os alunos para serem cidadãos ativos e pensantes em uma sociedade complexa. O que por sua vez requer colocar em pauta questões como o papel do educador.
Embora a literatura e a educação tenham um potencial significativo para a desbarbarização, há inúmeros desafios a serem enfrentados, como, por exemplo, a comercialização da educação e a pressão por resultados mensuráveis, que tendem limitar a capacidade dos educadores de implementar práticas pedagógicas verdadeiramente críticas. Além disso, a predominância de uma abordagem utilitária na educação pode enfraquecer o papel crítico da literatura. Para superar esses desafios, é necessário um compromisso com uma abordagem educacional que valorize a literatura não apenas como um meio de transmissão de conhecimento, mas como um espaço para a criação, como espaço de crítica e de reflexão. Em síntese, educadores e instituições devem se empenhar em criar currículos que integrem a literatura de maneira que favoreça a desbarbarização e a resistência cultural.
A relação entre literatura e educação, vista através da lente da teoria crítica de Adorno, revela um potencial transformador significativo, uma vez que, como dito, ela pode servir como uma forma de resistência contra as tendências de conformismo e alienação na sociedade moderna. Ao estimular a reflexão crítica e desafiar as normas culturais, a literatura pode desempenhar um papel essencial em um processo educacional que visa a emancipação e o pensamento autônomo. Dito de outra forma, educar para desbarbarizar não é outra coisa senão um projeto de educação voltado para a contraposição ao conformismo e à identificação com o ideologicamente estabelecido, em resumo, trata-se de uma educação voltada para a promoção de uma resistência frente ao processo de barbárie em curso.
A promoção de uma educação crítica que valorize a literatura como um meio de desbarbarização é fundamental para a construção de uma sociedade mais reflexiva e justa. Em última análise, a desbarbarização não é apenas uma resistência cultural, mas um caminho para uma educação que fomente a autonomia intelectual e a consciência crítica.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, W. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
ADORNO, T. W. Minimamoralia: reflexões a partir da vida danificada. São Paulo: Ática, 1993.
______. Educação e emancipação. 4 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2022.
______. Indústria cultural. São Paulo: Unesp, 2020.
ADORNO, T. W., HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar. 1986.