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Platão e Aristóteles: a exigência
do autoconhecimento para a vida ética

Liliane Soares Santana
Mestranda em Educação (UESB)
Professora estatutária do Estado da Bahia

Na Grécia antiga a filosofia sempre foi marcada por sua contribuição ao processo de educação e até mesmo à elevação da alma. Grandes filósofos se destacaram pelos seus ensinamentos, tanto para a vida privada, quanto para a vida pública. No entanto, o ato de filosofar não era acessível a todos e o papel desempenhado pelo professor era descrito de forma distinta na Grécia Antiga. Aristóteles, por exemplo, mentor de Alexandre o Grande, cuja função lhe rendeu prestígio e reconhecimento.

Os sofistas, por sua vez, cobravam por seus ensinamentos e ensinavam assuntos diversos, receberam duras críticas por também priorizar o ensino da oratória e da retórica, características importantes para o desenvolvimento da persuasão durante os debates na ágora.
Com o passar dos séculos, a filosofia ganhou destaque no processo de aquisição de conhecimento e, faz alguns anos, o seu ensino passou a ser obrigatório no ensino médio no Brasil. No entanto, vários questionamentos surgiram em torno da contribuição prática da filosofia para os estudantes, como por exemplo sua aplicabilidade para o mercado de trabalho. Críticas como essa, logo foram combatidas, pois a Filosofia enquanto área de conhecimento, contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo dos estudantes, além de ajudar na formação de uma visão de mundo coerente e questionadora em torno dos dogmas que cegam e alienam as mentes dos sujeitos. Sendo assim, a disciplina contribuiria para a realização de qualquer atividade laboral.
Mesmo que a filosofia atualmente seja reconhecida pelo seu valor em relação a sua contribuição para a emancipação dos indivíduos enquanto sujeitos dotados de consciência crítica, a profissão do professor ainda não é plenamente valorizada. Este texto tem por objetivo refletir sobre a filosofia de Platão e Aristóteles e mostrar como estas ainda influenciam a sociedade contemporânea. Mesmo que seus ensinamentos tenham sido elaborados há séculos, suas teorias continuam a influenciar a autonomia intelectual e do pensamento crítico dos sujeitos que delas tem acesso.
A alegoria da caverna e sua função pedagógica na filosofia de Platão. A filosofia de Platão teve grande relevância para o mundo grego, bem como para a construção da filosofia medieval, principalmente para a patrística, mas a importância de seus ensinamentos, transcende o seu tempo histórico, o que torna sua filosofia ainda atual. Platão, ao propor um modelo de educação para a polis grega, não restringiu seus ensinamentos apenas à formação individual, mas elevou seus princípios ao campo da política e da justiça. O filósofo considerava que o conhecimento deveria romper com o individualismo para poder ir em busca do bem comum, tão necessário para a vida na polis. No livro A república, Platão propõe um modelo de educação que deve preparar a vida dos cidadãos em prol da justiça, essa construção de virtude está diretamente ligada a ética onde as ações humanas devem ser voltadas ao bem da coletividade.
Pensar essa perspectiva pedagógica e ética, defendida por Platão, torna o seu pensamento ainda atual, pois a nossa sociedade vive um momento de busca incessante pelo sucesso individual; a ideia de hedonismo – propagada pelas mídias e redes sociais–, tende a levar o ser humano a comportamentos e atitudes individualistas e egoístas, pontos que contrariam os ensinamentos de Platão. Manter o senso de coletividade em nossa sociedade é um grande desafio. Afinal, como afirma Blaise Pascal (2011, p. 27), o ser humano na tentativa de satisfazer o seu vazio existencial, se apega a qualquer coisa para saciar os desejos supérfluos de suas vidas tediosas, mesmo que isso seja insignificante.
Romper com essa condição apresentada por Pascal, implica substituir essa visão ilusória de felicidade propagada pela sociedade hodierna, por objetivos de vida mais profundos, através dos quais as ações dos sujeitos se ancorem no autoconhecimento, no fortalecimento das ligações comunitárias e nos valores éticos. Platão compara esse desejo do ser humano por bens materiais ou prazeres da carne para se alcançar a felicidade, como ilusões do mundo sensível, onde os prazeres momentâneos tem a função de desviar o homem da Ideia de Bem que só pode ser alcançado no Mundo das Ideias.
A filosofia de Platão nos faz refletir sobre a necessidade de construir uma educação que possa realmente emancipar o indivíduo, não apenas para o conhecimento formal e pessoal, mas para a vida em sociedade. Pois em uma sociedade em que o egoísmo é priorizado em detrimento dos interesses coletivos, pensar no aperfeiçoamento moral e intelectual proposto pela filosofia platônica seria uma forma de romper com as barreiras impostas pelo individualismo da nossa sociedade hodierna.
O livro A república é umas das grandes obras escritas por Platão. O livro foi estruturado todo em forma de diálogos, uma das marcas registradas do filósofo. Nesta obra o autor apresenta temas diversos: como a ideia de política, justiça, educação e ética. A obra é dividida em dez livros e o personagem principal é Sócrates que, por meio do diálogo, aborda temas importantes sobre a construção da cidade ideal e justa. Nos trechos que se seguem, faremos uma breve abordagem sobre a educação, como sendo uma das direções apontadas por Platão, para o homem superar sua condição de ignorância e passar a trilhar o caminho do conhecimento e do Bem.
Para alcançar o nosso propósito, vamos analisar o livro VII de A república. É neste livro que Platão apresenta a sua famosa Alegoria da Caverna, através da qual o autor utiliza uma metáfora muito bem estruturada para descrever a passagem do homem da ignorância até a ascensão ao conhecimento. Leiamos um trecho central:

– Depois disto– prossegui eu– imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles (PLATÃO, 2017, 514a-b).

Para Platão, somente a educação pode libertar o homem das amarras da ignorância. Na referida alegoria, o processo de formação educacional do ser humano é narrado a partir do momento em que ele se liberta da caverna. Uma alusão clara ao mundo sensível ao qualo homem está preso às amarras da ignorância. O mundo sensível é o lugar das coisas múltiplas, das cópias imperfeitas, o lugar em que se encontra tudo o que se opõe ao mundo das ideias.

– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? (PLATÃO, 2017, 515c-d).


Nesta passagem podemos observar que sair das amarras da ignorância é uma tarefa árdua que exige não só o desejo de alcançar o conhecimento, mas um esforço individual que nos causa dor e espanto. Voltar os nossos olhos para enxergar a verdadeira luz do conhecimento não é uma tarefa fácil, mas segundo Platão é a única forma de conectar o homem ao conhecimento. Segundo Platão (2017, 518d): “[...] a educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correcta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso”.
A educação é um processo árduo e contínuo, que capacita o ser humano a viver a vida de forma virtuosa e voltada para o bem comum. O papel do filósofo é de conduzir os indivíduos a saírem da caverna. Acessar o conhecimento não é só transformador para o homem enquanto indivíduo, mas para todos que o cercam. Pois um homem sábio direciona o seu conhecimento para elevar sua alma e assim alcançar a Ideia do Bem.
A ética de Aristóteles e sua influência para a sociedade contemporânea. Foram grandes as contribuições de Aristóteles para a história da filosofia. Suas obras versam sobre diversos temas, tais como: a ética, a metafísica, a estética, a biologia, a lógica, a política e a arte. Para esse texto, vamos refletir sobre a ética e sua influência para o desenvolvimento da virtude humana.
Aristóteles possui uma séria preocupação com a conduta correta que o homem deve manter em seu convívio social. Para o filósofo, o homem é um zoom politikon, ou seja, um animal político por natureza, o que significa que ele tem uma necessidade genuína para a convivência social. Assim sendo, a virtude ética, de acordo ao Estagirita, só pode ser alcançada no seio da sociedade. Segundo o filósofo:

Por fim, parece que os homens perseguem a honra para se convencerem de que são bons. Pelo menos, procuram ser honrados pelos sensatos e por aqueles que os conhecem, e, de fato, honrados em vista da excelência. É evidente que, pelo menos para estes, a excelência é mais poderosa do que a honra. Talvez, pois, se possa supor que a excelência seja mais propriamente o objetivo final da vida política (ARISTÓTELES, 2017, 1095b 27-32).

No entanto, as virtudes éticas não são obtidas de maneira inata, mas por intermédio da educação. É através da educação do pensamento que a razão se torna o principal guia para aquisição do comportamento moral e ético. Segundo Aristóteles, o homem, por ser um ser social, ao realizar suas ações deve fazê-las incluindo a si próprio e também aos outros cidadãos, tendo isto, como representação máxima da vida em comunidade.
Para o Estagirita, todas as ações humanas são desempenhadas pensando em um fim último, ou seja, nada é realizado dentro do interior da polis que não tenha como meta o desejo de alcançar uma determinada finalidade. Essa visão ética apresentada por Aristóteles é conhecida como teleologia, palavra derivada do grego telos, que significa“fim”, no exemplo em evidência, o fim último das ações humanas deve ser encontrar a vida feliz a Eudaimonia.
No entanto, o filósofo faz uma distinção sobre o que seria uma vida feliz. A sociedade contemporânea, por exemplo acredita, que a felicidade está ligada a acúmulo de riqueza, posse de prestígio ou fama. O fato é que esse ideal de felicidade, idealizado por muitos, diverge daquilo que a Aristóteles acreditava conduzir o homem à vida feliz. Em seu tratado ético, ele deixa claro que a felicidade está diretamente ligada ao controle das nossas ações e isso só é possível fazendo uso do aprimoramento da razão, pois somente a razão humana pode conduzir o homem à felicidade. Sendo assim, a vida contemplativa seria o meio privilegiado para o homem alcançar a felicidade, pois:

O excesso de exercícios físicos, por exemplo, e a falta deles destroem o vigor físico. De modo idêntico a ingestão em demasia ou insuficientes de líquidos e de alimentos sólidos destrói a saúde. Contudo, a medida proporcional produ-la, aumenta-a e conserva-a. assim, com efeito, também acontece com a temperança e a coragem, bem como com as restantes excelências (ARISTÓTELES, 2017, 1104a 14-22).

Para o filósofo, a felicidade é atingida no momento em que o homem encontra a virtude do meio termo, ou seja, a excelência: o equilíbrio correto entre o excesso e a falta. Fazendo uso das palavras de Aristóteles:

A excelência é, portanto, uma disposição do caráter escolhida antecipadamente. Ela está situada no meio e é definida relativamente a nós pelo sentido orientador, princípio segundo o qual também o sensato a definirá para si próprio. A situação do meio existe entre duas perversões: a do excesso e a do defeito. Demais, é relevante ao meio que as perversões ficam aquém ou vão além do que é devido tanto nas afecções como nas ações; e a excelência encontra e colhe o meio. É por isso que a excelência é a posição intermediária, mas de acordo com o bem supremo e a extremidade do que é bom (ARISTÓTELES, 2017, 1107a 1-9).

A justa medida é o critério essencial para a formação da virtude ética em Aristóteles. Vale ressaltar que essa virtude não é adquirida de forma inata, mas se desenvolve por meio da prática, sendo assim, o homem deve buscar atingir esse equilíbrio por meio do controle das suas ações. A prática contínua da virtude, leva o homem a controlar os seus impulsos e suas paixões. Pois quanto mais se pratica uma ação humana de forma correta e equilibrada mais próximo da vida ética o ser humano está.
Essa noção de vida ética e feliz, afirmada por Aristóteles, disponibiliza ensinamentos preciosos para a nossa civilização. Para uma sociedade que vive mergulhada nas redes digitais e no uso da tecnologia, fazer uso dessas ferramentas, de maneira correta, é o caminho não apenas para o desenvolvimento do autoconhecimento, mas uma forma de resgatar o nosso senso de coletividade, que foi perdido a partir do momento em que o homem deixou de realizar a interação social para se isolar no mundo virtual.
Pois, as relações humanas não podem se restringir ao entretenimento vazio de conteúdo e de emoções humanas difundidas pelas redes sociais. A filosofia ética de Aristóteles nos convida a refletir sobre o valor de manter relações mais intensas com as pessoas com a quais convivemos em nosso meio social, afinal somos seres que vivem em sociedade e como tal a socialização é fundamental para a nossa existência.
Podemos concluir algo dessa breve reflexão. De fato, mesmo tendo passados mais de dois mil anos acerca das considerações apontadas por Platão e Aristóteles, a relevância filosófica continua atual, principalmente por vivermos em uma época caracterizada pelo egoísmo e pelo individualismo presentes em nossas relações sociais. O debate proposto pela Alegoria da Caverna de Platão, demonstrou que precisamos o quanto antes sair das amarras da ignorância e de todo preconceito que nos impede de enxergar a realidade como ela se apresenta. Afinal, as cavernas contemporâneas nos aprisionam tal como a descrita na metáfora de Platão.
Em compensação, a ética de Aristóteles destaca a necessidade da mediania e do uso da razão para alcançarmos a verdadeira felicidade. Lembrando que não adquirimos virtude éticas de maneira natural, mas precisamos cultivá-la por meio de exercícios práticos diário durante nossa convivência social.
Desde modo, tanto Platão quanto Aristóteles oferecem orientações atuais para a construção nosso autoconhecimento e nossa formação crítica do pensamento. Afinal, o modelo de educação, proposto por Platão, e o uso do equilíbrio, segundo Aristóteles, são diretrizes fundamentais para enfrentarmos os desafios contemporâneos presentes em nossa sociedade. Desde modo, valorizar o ensino de filosofia é uma forma de atualizarmos a prática do professor como o mediador de um conhecimento que foi e que continua sendo fundamental para a construção de uma sociedade justa e mais consciente.

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017.

PASCAL, Blaise. Diversão e tédio. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

PLATÃO. A república. 15 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017.