Relação entre fato e
proposição em Wittgenstein
Por Valdeni Lopes de Araújo
Licenciado em Filosofia - Unisantos
As investigações desenvolvidas por
Wittgenstein, no Tractatus, levaram-no a postular uma profunda
mudança na teia do conhecimento. Wittgenstein, diferentemente de Kant, vê o
mundo como uma totalidade de fatos e não de coisas.
Wittgenstein considera a linguagem
como expressão de um espaço lógico, o qual representa o campo lógico do mundo e
este é o espaço da possibilidade, possuindo “n” fatos. A linguagem se expressa
O pensamento, na filosofia de
Wittgenstein, tem uma posição importante, porque é mediante o pensamento que o
mundo pode ser conhecido, uma vez que o pensamento é expresso através da
linguagem. Portanto, o mundo só pode ser conhecido por meio da análise da
linguagem.
A linguagem está sempre em relação ao mundo e
a validade deste só ocorre quando fundamentado nos fatos, os quais têm como correspondentes
as proposições. Mas, o que é um fato? - Fato é uma
apresentação e uma configuração lógica dos objetos, sendo que estes acontecem
de forma independente uns dos outros, mas não podendo ser conhecidos isoladamente.
Wittgenstein postula, então, uma relação
entre fato e proposição da seguinte maneira: ao fato corresponde uma realidade;
por sua vez, a percepção da realidade proporciona uma imagem no pensamento; e
por último forma-se a proposição com a expressão do pensamento (a imagem).
As proposições têm a função de
expressar os nossos pensamentos sobre os fatos que por nós são percebidos. Em
outras palavras, elas são as nossas representações lógicas dos fatos. Wittgenstein,
no aforisma 1.13, diz: os fatos no espaço
lógico são o mundo. Com isso, o filósofo quer significar que o mundo não é
constituído apenas dos fatos atuais, mas de todos os fatos possíveis.
Pois, afirma no aforisma 2.06: a subsistência e a não-subsistência dos
estados de coisas é a realidade. O estado de coisas refere-se àquilo que é
dito em uma proposição, ou seja, é o significado da proposição. Pelas
proposições é possível expressar a respeito do mundo, dizendo como os fatos
podem figurar. Assim, o estado de coisas faz parte da categoria dos fatos, por
isso não faz parte da categoria das coisas singulares e atributos.
Ou seja, estado de coisa é apenas
algo que possivelmente ocorre, ao passo que o fato é o que realmente ocorre.
Ainda sobre o referido aforisma é possível perceber
que Wittgenstein se refere à realidade como a existência de estado de coisas
possíveis, mas também como inexistências de estados de coisas possíveis. Não
obstante, a possibilidade diz da existência e inexistência de estado de coisas
reais. O que pode ser expresso pela proposição corresponde ao fato, aquilo que
existe e está no domínio da realidade, ao passo que o modo pelo qual codifico o
mundo é pessoal. O mundo não sou eu, mas o conheço por meio do meu pensamento,
representando-o. Assim, quando dizemos que o
mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes, referimo-nos à
representação que cada um projeta na realidade a partir da experiência pessoal
de vida. Cada pessoa pode ter uma representação do mundo, mas sem cair no relativismo.
Essa representação da realidade é um pespectivismo, ou seja, a representação
depende do ponto de vista da pessoa.
Por exemplo: um casal de namorados
apaixonados, contemplando o luar pode, pela força do sentimento, enxergar ou representar
a lua como uma inspiração para seu namoro, ainda que a lua nada mais seja de
que um astro luminoso. Por outro lado, a lua para um o homem devoto de São
Jorge pode representar, levado pela crença, a enxergar na lua a figura de um
dragão sendo morto pos um valente cavaleiro.
Como o fato corresponde à proposição, tanto um como
outro pode ser classificado em elementar (atômico) e composto (complexo). O
fato elementar é constituído de elementos simples (objeto), enquanto o fato complexo
é composto de elementos complexos. Se o fato é atômico, logo a proposição é
atômica ou elementar. Ou, se o fato é complexo, logo a proposição é complexa.
Já sabemos que a linguagem é a
totalidade de proposições. E o que significa uma proposição? A proposição é a
pintura lógica dos fatos. A proposição mostra um estado de coisas que figura a
realidade, ou simplesmente, é uma imagem da realidade. Mas, ela também pode ser
definida como expressão do pensamento e o pensamento é a proposição com
sentido.
A proposição elementar é a mais simples,
ou seja, é aquela que afirma a existência de um estado de coisa no mundo, utilizando
elementos básicos da linguagem, a saber: nomes e predicados, que servem para
descrever os fatos atômicos. Aqui podemos diferenciar o fato e o nome: o fato é
descrito pela proposição; não obstante, aos objetos só se podem aplicar nomes,
ou seja, só se pode nomeá-los, não descrevê-los.
Não se aplica a proposição aos
objetos, mas aos fatos. Isto, porque o nome sozinho nada diz e nada representa,
e a realidade só pode ser figurada mediante a combinação de nomes. A proposição
é a representação da realidade, tal qual a pensamos. É graças a sua lógica interna que as
proposições se esforçam para representar os fatos, isto é, a realidade.
É também graças a essa lógica
interna ou articulação lógica que a proposição pode apresentar sentido, pois o
sentido da proposição só acontece quando suas palavras representam as coisas.
Logo, o valor-verdade de uma proposição está na sua adequação à realidade, a
qual tenta expressar.
A proposição atômica é a refiguração
lógica de um fato, está assentada na realidade figurada. Só pode denotar algum
sentido quando apresenta algum nexo - embora não causal - com a realidade
figurada. Na figuração, encontramos verdade, a validade e a legitimidade da
proposição que nos conduz à possibilidade: principal característica das
proposições elementares.
Ex 1: a
parede é creme.
Ex 2: a parede não é creme.
Trata-se de duas proposições, onde a
probabilidade só pode ser excluída por via de uma confirmação total. A
proposição atômica será verdadeira, quando o estado de coisas que ela procura
expressar, existir. Sua veracidade encontra-se na experiência, que pode negá-la
ou pode confirmá-la.
A proposição, para Wittgenstein, pode
ser tautológica de acordo com a sua função de verdade. Esse tipo de proposição
se faz verdadeira para todas as possibilidades de verdade da proposição
elementar. Ela é verdadeira unicamente por causa da forma, pela natureza da
construção gramatical, mostrando sempre e somente o que expressa. A proposição
tautológica pode ser comparada com o juízo analítico de Kant que não fornece
conhecimento, como exemplo: todo corpo é extenso.
Uma proposição também pode ser
contraditória e por ser contraditória não denota sentido, pois não representa
nenhuma situação possível. A proposição se faz contraditória quando o seu valor
verdade for sempre falso. Tanto a tautologia como a contraditória não mostram
nem determinam qualquer realidade. São proposições sem sentido, porque não
dizem o mundo.
Uma proposição só poderá ser
verdadeira ou falsa quando se referir ou não a um estado de coisa por meio de
uma articulação lógica. Se a proposição é verdadeira, então se refere a um
estado de coisa; se a proposição é falsa, então não se refere a um estado de
coisa. A verdade de uma proposição complexa depende de uma proposição
elementar.
Para Wittgenstein, a proposição
tautológica é sempre certa, a atômica é provável e a contraditória, impossível,
como podemos encontrar no aforisma 4.464. Estas últimas são sempre falsas no
que tange a sua ausência de sentido. No caso da complexa, a proposição é sempre
falsa para todas as possibilidades de verdade, porque as condições de verdade
são contraditórias.
Enfim, para Wittgenstein, a ética, a
estética e Deus estão no limite do mundo, transcendendo a realidade, porque não
podem ser ditos sem o risco de mal-entendidos. Não devemos falar o que
extrapola o fato, situando-se fora do mundo e não sendo passíveis de linguagem.
Não podemos dizer a ética, mas vivê-la. Não dizemos a estética, porém a
percebemos. Não podemos dizer Deus, apesar disso podemos experienciá-lo.
Referência Bibliográfica
WITTGENSTEIN, Ludwig
. Tractatus lógico-philosophicus.
Tradução e apresentação por
José Arthur Giannotti. São Paulo: Nacional, 1968, 152 p.
PEARS, David. As idéias de Wittgenstein. Tradução por Octanny
Silveira da Mota e Leônidas Hegenberg. São Paulo: Cultrix, 1988, 191p.
ROVIGHI, Vanni
Sofia. História da filosofia
contemporânea do século XIX à neoescolástica. Tradução por Ana Pareschi
Capovilla. São Paulo: Loyola, 1999, 662 p.