Entrevista
com Mônica Aiub1
Colaboração:
Almir José da Silva
O
que é Filosofia Clínica? E como se originou este ramo?
A filosofia clínica é uma terapia que faz uso da
metodologia filosófica para abordar questões existenciais, e tem como
princípios fundamentais o respeito à singularidade e a ausência de teorias
prévias que orientem o trabalho. Um filósofo clínico é alguém disposto a
“pensar junto” acerca das questões cotidianas. Este ramo origina-se com Lúcio
Packter, filósofo brasileiro, que inspirado nas experiências de filosofia
prática, iniciadas na década de 80, na Europa, construiu uma metodologia
própria, singular. Entre as citadas experiências, destaco Gerd Achenbach, um dos primeiros a questionar por que um
filósofo não poderia utilizar a metodologia própria da filosofia para ajudar as
pessoas em suas questões cotidianas, se a psiquiatria e a psicologia fazem uso
da filosofia em seus métodos. Ao conhecer a filosofia de aconselhamento
desenvolvida a partir da proposta de Achenbach,
Packter, com formação inicial na área médica, iniciou suas pesquisas. A
metodologia desenvolvida por Packter diferencia-se radicalmente do
aconselhamento filosófico por possuir um instrumental capaz de localizar
existencialmente a pessoa, e encaminhar os trabalhos de acordo com as
necessidades de cada um. A partir da historicidade, contada pela própria
pessoa, o filósofo clínico observa três eixos fundamentais: Exames Categoriais,
Estrutura de Pensamento e Submodos, respectivamente,
o universo no qual a pessoa está inserida, as formas como se constitui e as
maneiras que possui para lidar com suas questões. Através de tal estudo, o
filósofo clínico busca, juntamente com a pessoa, possíveis formas de lidar com
as questões propostas.
A
Filosofia Clínica é Filosofia, ou é uma psicoterapia?
Há uma
longa discussão a respeito. Sua questão já foi tema de debates em vários de
nossos encontros. Eu defendo que a filosofia clínica é filosofia, pois exige,
do filósofo clínico, a postura de abertura, de “dis-posição”,
própria da filosofia. Além disso, uma questão, quando abordada filosoficamente,
é considerada a partir de seu contexto, de sua gênese. Não se aborda um
problema filosófico isoladamente, nem dissociado de sua história, sob o risco
de superficialidade. No consultório, a abordagem às questões trazidas pelo
partilhante supõe situá-las em seus respectivos contextos, e situar tais
contextos no todo da historicidade do partilhante, e esta nas circunstâncias
nas quais tal historicidade se insere, ou seja, busca-se um olhar mais amplo,
que considera a gênese das questões, e estuda as formas de articulação entre os
elementos que as compõem.
Por outro
lado, uma abordagem filosófica também exige análise conceitual, clareza,
método, rigor. E a abordagem em filosofia clínica exige a pesquisa acerca dos
significados dos termos, das estruturas lógicas, das construções lingüísticas
de cada partilhante. A leitura da Estrutura de Pensamento, assim como os
procedimentos denominados enraizamentos (que consistem numa pesquisa
epistemológica), trabalham diretamente com análise conceitual, buscam clareza, e para tal, fazem uso da metodologia
filosófica.
Ainda no
que se refere à leitura da Estrutura de Pensamento, a observação dos padrões
estruturais que se mostram ao longo da historicidade, através de repetições de
estruturas formais em diferentes conteúdos, permite ao filósofo clínico a
aproximação a aspectos singulares da estruturação de um partilhante.
Eu
poderia elencar outros aspectos metodológicos, mas isso se tornaria muito
extenso. Resumindo, se partirmos do conceito de filosofia proposto por Deleuze
e Guattari em “O que é a filosofia?”, ou seja,
construção de conceitos, é possível afirmar que o filósofo clínico pesquisa a
gênese dos conceitos; analisa-os a partir da historicidade; recorta, articula,
sobrepõe elementos – às vezes oriundos de outros planos de realidade – e com
isso constrói, com o partilhante, novos conceitos. Por
isso, considero a filosofia clínica, um modo de fazer filosofia.
Qual
elemento diferencial tem a Filosofia Clínica das demais psicoterapias?
O
diferencial, a meu ver, está justamente no fato de ser filosofia, ou seja, na
postura do filósofo clínico e na metodologia que orienta seu trabalho. A
palavra clínica, aqui, é oriunda da medicina. A medicina como ciência, possui
seu foco na investigação de doenças, a partir de pesquisa laboratorial. A
medicina como clínica possui suas atenções voltadas ao paciente, é compreendida como arte, por observar o leito do paciente, o
ser humano que recebe cuidados. O termo clínica vem do grego Klinikos, Kline, que corresponde ao leito do
enfermo. Já na escola hipocrática, era destacada a importância do médico conhecer o contexto do doente: as águas, os ventos
da região, os hábitos da sociedade e da pessoa. Como os médicos desta escola
consideravam a doença como um desequilíbrio de uma ordem natural, tais
conhecimentos indicariam as formas de restauração de tal equilíbrio. Assim como
na medicina hipocrática, o olhar do filósofo clínico dirige-se à pessoa e seu
contexto, e não à doença, ou ao problema. Este é um primeiro diferencial. O equilíbrio
que se busca não é um equilíbrio universal, mas singular. Depende tanto dos
contextos como das necessidades próprias de cada pessoa.
Desta
maneira, o respeito à singularidade, a ausência de tipologias e de teorias
prévias fazem com que o filósofo clínico parta da pessoa em seu contexto, e das
questões por ela trazidas, para construir, juntamente com a pessoa, as
possibilidades de encaminhamento das questões.
Quando
Wittgenstein diz que os problemas filosóficos resultam de mal-entendidos a
respeito da linguagem, usar o termo Filosofia Clínica e esta trabalhar com
palavras e formas de linguagem não verbal não estaria este termo gerando outra
problemática, a qual estaria apenas na linguagem?
Quando
Wittgenstein propõe a filosofia como uma terapia para curar nossos desarranjos
mentais, o que ele propõe é clareza conceitual. Nas “Investigações Filosóficas”
ele defende que o significado da linguagem encontra-se no uso. Apresenta a idéia de jogos
de linguagem, jogos cujas regras são aprendidas ao jogar. Para evitar
mal-entendidos diante dos diferentes jogos e subseqüentes sentidos advindos
deles, o que nos indicaria Wittgenstein? Uma pesquisa sobre o significado, que
consiste em contextualizar as expressões, investigar as regras do jogo, e os
significados derivados do emprego de tais regras. Não há, no Wittgenstein das
Investigações Filosóficas, significados literais, sem contexto.
Quando o
filósofo clínico pesquisa a historicidade do partilhante, pesquisa também seus
“jogos de linguagem” e faz uso destes para uma maior aproximação à compreensão
do que é dito pelo partilhante, assim como para se fazer entender no momento em
que utilizar procedimentos clínicos. Ocorre como se o filósofo clínico
construísse, junto com cada partilhante, um “jogo de linguagem” próprio, e
fizesse uso dele para auxiliar o partilhante a lidar com suas questões.
Mas sua
pergunta é sobre o termo Filosofia Clínica. A problemática suscitada por esta
terminologia parece ter origem numa confusão conceitual, num problema de
linguagem, como você supõe em sua questão. As polêmicas sobre o tema carecem de
uma investigação mais aprofundada acerca dos significados dos termos filosofia e clínica na composição de filosofia clínica. Talvez a aproximação
que tentei fazer nas questões anteriores, permita um esclarecimento a respeito.
Mas sugiro, ao leitor que desejar levantar esta espécie de polêmica, que busque
os significados de nossa terminologia no contexto de nosso trabalho, como
fazemos com os estudos filosóficos.
O
termo Clínica restringe o campo de atuação do Filósofo Clínico?
Considerando
o termo “Clínica” em seu sentido originário, como descrevi anteriormente, não.
Sendo clínica uma forma de abordar as questões a partir da pessoa, “do leito do
enfermo”, é possível ao filósofo clínico não somente o atendimento em
consultório, no qual, a partir do relato da pessoa sobre sua historicidade,
terá acesso aos dados necessários para compreender sua problemática e seus
contextos, mas também é possível que o trabalho seja
desenvolvido em hospitais, empresas, escolas, e outros ambientes, como o fazem
vários filósofos clínicos.
Brevemente,
qual seria o papel principal do Filósofo Clínico? E quando este da
"alta" a seus partilhantes?
O
principal papel? Ser filósofo: ouvir atentamente o partilhante, pensar junto
com ele, provocá-lo a abordar suas questões por outras perspectivas. Não há
“alta”. Há uma decisão compartilhada pelo término ou suspensão do trabalho. Ela
ocorre quando a pessoa considera que a questão trazida à clínica já foi
suficientemente trabalhada ou, apenas momentaneamente, atingiu um limite
existencial que ela não deseja ultrapassar.
Quem
pode ser Filósofo clínico e qual seria sua formação?
Para ser
filósofo clínico é necessário ter graduação em filosofia e especialização em
filosofia clínica – curso oferecido pelo Instituto Packter nas diferentes
regiões do país. A formação, na especialização, supõe várias fases. O curso
básico, que forma o especialista, o pesquisador. Nesta fase, o estudante
conhece os dois primeiros eixos do instrumental, além de estudar a semiologia
psiquiátrica (parte do curso ministrada por um médico psiquiatra, com o
objetivo de permitir ao filósofo clínico identificar sinais e sintomas de casos
que necessitem de um acompanhamento médico), metodologia da pesquisa,
fundamentos e métodos em filosofia clínica. Esta fase do curso é aberta para
graduados em outras áreas. O curso avançado, que forma o filósofo clínico, tem
como requisitos a graduação em filosofia, a aprovação no curso básico e ter
feito a clínica didática (ou seja, ter sido atendido por um filósofo clínico,
com o objetivo de trabalhar suas questões e conhecer-se a partir do
instrumental da filosofia clínica). Durante o curso avançado o aluno estuda os
procedimentos clínicos, planejamento clínico, aprofunda seus estudos sobre
fundamentos e métodos e faz estágio supervisionado, que consiste em atender
pessoas com supervisão. Para ser aprovado no curso avançado, o estudante deverá
apresentar relatórios de atendimentos (no mínimo três) para uma comissão nacional
de avaliação de estágios, que observará se o trabalho do estagiário está de
acordo com a metodologia proposta em filosofia clínica.
Há
muitas divergências quanto ao uso da Filosofia para fins terapêuticos, tal ação
já não a transforma em uma outra coisa independente da
Filosofia?
A fonte
de tais divergências, por um lado, parece estar vinculada à idéia de que a
filosofia não pode ter um uso, não pode ser prática. Se você procurar no
dicionário de filosofia o significado do termo filosofia, você encontrará
diferentes definições. Abbagnano, por exemplo, afirma
que todas elas possuem em comum algo que se encontrava na filosofia platônica:
a filosofia é a busca do conhecimento para o benefício do humano. Filósofos
como Marx, Nietzsche, Jaspers, por exemplo, nos
auxiliam a pensar de que maneira tais benefícios são práticos. Por outro lado,
há equívocos com o conceito de terapêutica. Muitos o compreendem como levar a
pessoa a atingir um estado previamente determinado, o que seria uma incoerência
com algo que se pretendesse filosofia. O conceito de terapia diz respeito a
tratamento, a cuidado. Não há um padrão previamente determinado ao qual a
pessoa deva chegar. Há um olhar investigativo para as questões, há uma
ampliação do campo de visão, há o suscitar outras possibilidades e avaliar suas
condições de satisfação. Tudo isso é, ainda, ao mesmo tempo, terapêutico e
filosófico. Assim, compreendo que a filosofia clínica possa ser,
ao mesmo tempo, terapia e filosofia, sem ser contraditória.
Por
que é estabelecida a designação partilhante para a pessoa que procura esta
prática terapêutica?
Partilhante
é aquele que partilha suas questões, sua história de vida, com o filósofo
clínico. É aquele que conduz o processo clínico, definindo seus objetivos e
oferecendo os dados para a composição da abordagem mais adequada, ou seja,
chama-se partilhante por participar ativamente de todo o processo clínico.
1Mônica Aiub é pós-graduada em
Filosofia Clínica e Mestre em Filosofia/UFSCAR.