Artefato
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Carta de Mário de Andrade para
Manuel Bandeira
São Paulo, 18 de abril de 1925.
Manuel do coração,
comunico que comprei
esta máquina. Se você estivesse aqui era um abraço pela certa, tanto que estou
contente. Já se sabe: pelo processo amável das prestações. Engraçado, por
enquanto me sinto todo atrapalhado de escrever diretamente por ela. A idéia
foge com o barulhinho, me assusto, perdi o contacto com a idéia. Isso: perdi o
contacto com ela. Não apalpo ela. Mas isso passa logo,
tenho a certeza e agora é que você vai receber cartas bonitas de mim. Afinal:
Deus é mesmo muito bom pra mim. Porque essa história de “compro-não-compro:
compro” me deu uma comoção e um interesse pra estes dias todos. Por isso não
pude pensar muito nesse escandalinho Prudente-Ronald.
Senão ele muito me havia de contrariar, tenho a certeza. E agora já sabe:
quinze minutos que seja de descanso, estou na frente da Manuela batendo tipo
sem parar. Manuela é o nome da máquina, por causa de você. Inventei agorinha
mesmo isso. Não refleti nem nada: ficou Manuela. Assim a homenagem saiu bem do
coração.
Você
adivinhou o meu desejo, Manuel. Tudo o que você ler de interessante aí, corte e
me mande. Eu já tinha sabido do discurso do Alberto em Petrópolis e estava com
muita vontade de saber mais alguma coisa sobre isso. Agora sei e acho que vou
escrever numa Carta aberta que eu quero que seja engraçada, sensata, irreverente,
amiga, camarada, sem nenhum servilismo e bastante justiça. Se escrever dou pra Estética. Vou trabalhar nisso. E vou achar jeito de botar uma
respostinha dentro dela pro Tristão. Uma queixa irônica e a minha definitiva
repulsa do nome de moderno dado pra mim. Você compreende,
Manuel, eu hoje sou um sujeito que tem muitas preocupações por demais pra me
estar amolando com essas burradas de modernismo e passadismo. “Eu é que sou
moderno!” Ora, isso hoje pra mim não significa coisa nenhuma. Tenho mais que fazer.
Não estou fazendo blague, não. É uma coisa que está a
cem léguas de mim o modernismo. Que significa ser moderno? A resposta disso é a
coisa mais complicada deste mundo ou a mais simples. Juro pra você que não
tenho tempo pra vaidadinhas. Vivo. Minha vida é sublime. Começo a achar que o Graça Aranha é o sujeito que mais mal me fez na minha vida
porque trouxe o problema da alegria pro Brasil. A verdadeira alegria nem sabe
que é alegre. Eu não sabia que era alegre. Agora é que sei. Felizmente que pude
vencer o preconceito da alegria por causa da minha intensa vida. Amém! Você não
acha que tenho razão? Ser moderno, ser antimoderno,
ora bolas! Sou, isso é que é importante. Mas sou
conforme o sentimento meu do que vem a ser. Você pela minha obra e pelos meus atos
e cartas já sabe o que significa pra mim este verbo divino.
Me mande todos os artigos do Tristão, não se esqueça. O
primeiro é singularmente sensato, por vezes arguto, boa audácia. Um pouco... regionalista. O que são as vaidades, meu Deus! Essa gente do
Rio nunca perdoará a São Paulo ter tocado o sino. Não falo de você. Você já não
é do Rio. Você já é como eu: do Brasil. Falar nisso creio que vou escrever um
poema com este nome. “Louvação de meu Estado natal”. Será clássico e gelado.
Ninguém vai gostar, mas eu vou.
Agradeça
a nota da Vanguarda pro seu amigo.
Gostei. Já sabe: não é por ser pra mim, é porque está bem escrita, é sincera, e
verdadeira como sentimento, pronto: a simpatia já
começou.
Agora
o escandalinho. Estive ontem com o Prudente. Preveni-o do que vai pelo Rio,
menos naturalmente que a desgraçada crítica me prejudicou. Eu não tive a mínima
influência nisso, nem como na Estética publicar
artigos sobre o Osvaldo. Ao contrário, me recusando sempre a aconselhar, dessa
vez aconselhei calma e cuidado. Calma
tiveram porque o guampaço saiu rijo. Prudência não
tiveram. Mas quanto mais eu penso, Manuel, mais acho
que os rapazes tiveram razão. São muito moços e é na
casa dos vinte que as desilusões são insuportáveis e o sentimento da justiça
mais puro. Depois a gente já começa a descobrir meios de acomodar as coisas
porque já vai carecendo de calma. De paz até com os homens de má vontade.
Fizeram bem. Foram lindos. Não me prejudicaram, não. E não pense que eu vou
abandonar a amizade pelo Ronald. Isso é impossível pra mim. Se ele não me
procurasse mais, eu iria procurá-lo. Os meus orgulhos são de mim, não são do
mundo. Se eu procurasse a justiça no veredicto dos outros e não de mim mesmo
fazia muito já que, não sei não, ao menos seria um desinfeliz.
Você me mande contar os dizques sabidos aí. É só pra
que eu me previna. Os rapazes não praticaram nenhuma “gaffe” como você diz. Porque é
muita vilania demais se pensar, pessoa que me conhece, que eu seria capaz de
ficar por trás, mandando os meninos escoteiros, apreciando o efeito. E se não
fosse a vilania que inclui esse ato eu encampava agora
a opinião que eles tiveram a coragem que eu não tive de dizer publicamente. Não
praticaram nenhuma “gaffe”,
me deram uma lição, isso sim. Se eu não tivesse sido
covarde, mandasse a minha opinião pra Revista
do Brasil em vez de pro Ronald, os rapazes não estariam sofrendo o mau
conceito em que se meteram de escoteiros sacrificados dum terceiro astucioso. A
culpa foi toda minha e se eu não tivesse medo que me tomassem o gesto por
quixotada romântica, pedia desculpa. E que se deve dizer então disso do Ronald chamar o Sérgio e
confessá-lo pra que ele caísse de joelhos pedindo perdão e botando toda a culpa no companheiro!
Meu Deus! pois então se pode fazer uma coisa assim
quando a gente possui um pouco acima das vaidades um sentimento de respeito ao
menos pra consigo mesmo! O Ronald não fez bem. E eu queria muito saber como o Graça classifica isso, segundo o artigo que publicou no
primeiro número da Estética. Isso é procedimento muito mais daqueles mulatos
que a literatice dele inventou pra antítese besta do moço-de-hoje que ele também inventou... literariamente.
Bom. Basta de tristezas, Manuel. Eu estou profundamente triste. Felizmente que
a Manuela vai disfarçar isso.
Li só uma vez os poemas de você. Primeira impressão deu
plena, 8, pra “Mulheres” e “Pensão familiar”, e
distinção com louvor pro “Não sei dançar”. Porém não digo que as notas fiquem
essas. Deixe eu ler num dia mais meu e vai carta.
Agora não posso mais de sono. Anteontem demos uma festa sublime pra Dona
Olívia. Sublime sem nenhum exagero. Que crianças que somos,
você nem imagina. Era dia claro, seis e meia quando
cheguei em casa. Trabalho. Ontem conversei com o Prudente até uma e meia.
Imagine que abraço mole sai este.
Mário