A COISA E A OBRA EM MARTIN HEIDEGGER
Percebemos, com inteligibilidade,
que a arte está perdendo sua legitimidade e sua essência, hodiernamente, em
detrimento de um subjetivismo atroz e sem consisistencia.
Alem desta problemática contemporânea, outra se impõe: o caráter do fazer
artístico tende a diluir-se enquanto encontrar-se preso a conceitos
totalitários e, principalmente ao niilismo da técnica que veementemente esta
realizando uma dissipação do ente.
A discreta simplicidade de valores mais
autênticos escapa à sufocante mentalidade consumista e
massificada, amarga e reivindicatória, do homem que se pretende auto-suficiente
num mundo tecnologicamente domesticado e que quando muito somente se deixa
atingir por efeitos especiais.
Desse
modo, buscamos uma incursão no universo da arte, partindo de um pensamento
filosófico que dará respaldo para a reflexão e também para que tenhamos,
especialmente na contemplação de uma obra de arte, um discernimento consistente
e sustentável.
Buscamos,
desse modo, resgatar princípios essenciais, que propiciarão, indubitavelmente,
uma condição inexorável, para que o homem, integrando-se à arte e, por conseguinte,
deixando aflorar sua sensibilidade intrínseca, consiga vislumbrar a
possibilidade de um mundo mais humanizado, onde as pessoas possam viver em harmonia.
Tomando
como ponto de partida o pensamento de Martin Heidegger, analisemos a partir de
sua obra A origem da obra de Arte o sentido de coisa.
Segundo
Heidegger, as obras de arte são coisas e estão presentes como coisas. As obras
são coisas, mas não exaurem sua realidade num caráter de coisa. Há algo mais. A
obra de arte tem uma natureza tal que a distingue de outros entes. Há o artístico.
No
linguajar cotidiano, recorremos freqüentemente ao termo coisa. Tanto a pedra no
caminho, quanto a nuvem no céu são denominadas coisa.
Sob o ponto de vista filosófico, o termo coisa tem um emprego muito mais
especifico: a “coisa em si” e as “coisas que aparecem”. Todo ente que é, em geral,
pode ser chamado de coisa. Tudo aquilo que simplesmente não é nada, é uma
coisa.
“A
obra dá-nos a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa; ela é alegoria. A
obra fabricada reúne-se ainda, na obra de arte, algo de outro. A obra é
símbolo. Alegoria e símbolo fornecem um enquadramento em cuja perspectiva se
move desde a muito a caracterização da obra de arte”
(Heidegger, A origem da obra de Arte, p. 13).
A
obra de arte distingue-se daquilo que chamamos simplesmente coisa, sem nenhuma
especificação determinada. É portadora de um caráter peculiar que merece uma
investigação mais acurada. E é o modo como a arte é vivenciada pelo homem que
deve fornecer a chave para a essência da arte.
O
caráter de coisa é o primeiro traço em que esbarramos, no encontro com a obra
de arte que é “criada”, e é pro-duzida. Quando alguma
coisa é pro-duzida, é trazida à existência, isso
supõe que tenha havido antes uma finalidade. O produto deve ser necessário
útil, e isso deve ter motivado sua produção. Na obra de arte percebemos, logo
de inicio, que essa finalidade de ser útil, não aparece. A arte é gratuita em
seu aparecer. Na obra de arte, não é a utilidade que provoca seu aparecimento,
mas é a realização do Ser no produto.
Analisando
a pintura de Van Gogh, Les Souliers, Heidegger dirá que
o apetrecho, o par de sapatos do camponês, na verdade é. Ou seja, o ente que
emerge no desvelamento do seu ser. Ao desvelamento do ente chamavam os gregos Alétheia.
Nos dizemos verdade e pensamos bastante pouco sobre o sentido dessa palavra. Na
obra, se nela acontece uma abertura do ente, no que é e no modo como é, esta em
obra um acontecer da verdade. Na obra de arte, põe-se em obra a verdade do ente.
”Por” significa aqui erigir. Um ente um par de sapatos de camponês, acode na obra
ao estar na clareira do seu ser. O ser do ente acede à permanência do seu
brilho. A essência da arte seria então o pôr-se em obra da verdade do ente. As
marcas dos pés do camponês nos sapatos são indícios de seu modo peculiar de
caminhar, de sua labuta diária, de seu repousar após o cansaço da lida; enfim
as marcas do ser do camponês estão ali intuídas, impressas na verdade de sua
realização.
Qualquer
fazer imprime significado; o fazer artístico instala na obra o sentido de transcendência,
o sentido que ultrapassa sua mera utilidade. A obra de arte revela muito mais
do que revela a coisa.
A
essência do objeto utilitário funciona como uma espécie de redutor do seu
caráter de coisa (ente). E a essência da arte está no por-se-em-obra
a verdade do ente.
Segundo
Heidegger, as questões ontológicas gerais (o que é uma coisa ou sua coisidade) ganharam, desde a Grécia Antiga, três respostas,
mais ou menos definidas:
a) a
teoria substancialista: que defende a tese de que a
coisa possui um substrato (substancia) permanente que lhe concede individualidade,
suportando suas propriedades e um conjunto de elementos contingentes, a saber os acidentes;
b) a
teoria sensualista: a coisidade da coisa é um conjunto
de sensações, uma unidade da multiplicidade do dado dos sentidos:
c) a teoria da matéria e forma: a idéia
de que a ciosa é matéria enformada.
Na
discussão dessas três compreensões do que sejam, em essência, as coisas, Heidegger conclui que todas podem ser aplicadas
indistintamente tanto aos objetos utilitários (utensílios) quanto as obras de arte.
Se isto é verdade e se também é verdade que a obra de arte possui algo mais que
os outros objetos, então são insuficientes os três postulados ontológicos
postos acima, quando se deseja a sua compreensão radical.
“Este
modo de pensar, que a muito se tornou corrente antecipa-se a toda a experiência
imediata do ente. A antecipação veda a meditação sobre o ser, de que cada vez
se trata. É assim que os conceitos dominantes de coisa nos barram o caminho,
tanto para o caráter coisal da obra, quanto ao
caráter instrumental do apetrecho, a fortiori, para o
caráter da obra da obra” (op. cit. p.
23).
A
exposição de Heidegger das três teorias está entremeada de observações
criticas, velando e barrando o caminho para se chegar ao caráter da obra de
arte. Nenhuma das três teorias apresentadas satisfaz as exigências de uma ontologia
que tenha por finalidade chegar a coisidade das
coisas. E principalmente, a terceira teoria, o binômio
matéria e forma, ocupa um lugar de relevo na reflexão estética do
ocidente.
Em
Ser e Tempo, Heidegger, dentro do enfoque de “destruição” da ontologia clássica,
evita, igualmente, o recurso à intuição intelectual das filosofias da
consciência cartesiana e husserliana. De fato, a
investigação ôntico-ontológica do dado sensivelmente
na ocupação do dia-a-dia mostra a “coisa”, o “instrumento”, não primeiramente
em si, mas descoberto numa totalidade presente na própria percepção.
O
caminho mais viável para compreender esta essencialidade é pensá-la no horizonte
da diferença entre coisa, objeto utilitário, (ser-apetrecho) e obra de arte. “ (...) todavia não incluímos as obras de arte entre as
simples coisas. São sempre as coisas de uso a nossa volta, as coisas mais
próximas e as coisas propriamente ditas. Neste sentido, o apetrecho é meio
coisa, porquanto determinado pela coisidade e, todavia,
mais; ao mesmo tempo é meio obra de arte e, todavia, menos porque não tem a
auto suficiência da obra de arte” (op. cit. p. 21).
Da
análise do utensílio talvez seja possível abrir caminho para a apreensão da essência
da obra de arte. Num objeto de uso como, por exemplo, um par de sapatos, a
forma como contorno, não é conseqüência da ordenação da matéria. É a forma que
determina a ordenação da matéria. É a forma que predetermina a escolha do tipo
de matéria, tendo em vista a utilidade dos sapatos. Contemplamos o quadro Les Souliers de Van Gogh. O seu par de sapatos é
um utensílio. É um objeto de uso. É útil. Está à disposição do usuário. Serve
para alguma coisa. Mas o servir para alguma coisa necessita de um fundamento
mais profundo. Trata-se do ser de confiança (Verlässlichkeit).
O camponês confia nos sapatos.Sente-se seguro neles. É por meio do ser-de-confiança que, pela primeira vez, vemos o que é o utensílio.
Como? Colocando-nos diante do quadro de Van Gogh, o quadro fala. Mas, é necessário que nós, como
espectadores, tenhamos a capacidade para apreender o que realmente é um par de
sapatos. O quadro de Van Gogh
tem o mérito de patentear o que, em verdade é o utensílio. Este ente sai ao estado
de não ocultação de seu ser.
Desta forma, a análise converge para
um dos termos prediletos de Heidegger, a verdade, consoante a concepção dos
gregos. A verdade (alétheia), no contexto do
pensamento heideggeriano deve ser interpretada
numa perspectiva filológico-filosófico. Se através de uma obra de arte –
quadro de Van Gogh – os entes
revelam o que são e como são, então na obra de arte se põe em obra a verdade do
ente. Daí se pode dizer que a essência da arte é por em obra a verdade do ente.
Na
obra de arte não é a utilidade que provoca seu aparecimento, mas é a realização
da plenitude do Ser no produto . A arte visa a pro-duzir, fazendo eclodir a natureza mesma daquilo que é
produzido. Essa eclosão, essa manifestação é a alétheia,
a manifestação do verdadeiro. Assim, a arte põe em obra a verdade, instaurando
algo como ente no mundo e illuminando-o para que a alétheia aconteça.
VANDERLEI ALVES DA SILVA
Professor de filosofia licenciado
pela Unisantos, professor de violão erudito, Bacharelando
em direito pela Unisantos.