Cinema

Cinema brasileiro:

RETOMADA X INSURREIÇÃO

 

Formato e conceito de cinema somados à realidade e estilo do cinema do Brasil. Composição de diversas artes em uma arte. Objetos de cena, figurino, música, poesia, expressão, décor, maquiagem, fotografia, equipe. Cinema no Brasil é tudo isso, acrescido de nossa essência, nossa linguagem; é a essência de um povo formado de vários povos. “Herdeiro de todas as taras”, como disse Darcy Ribeiro ao relatar a colonização no Brasil e como a sociedade foi formada por várias etnias – Índios, Portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, Bantos. Assim como a formação de sua sociedade, o cinema brasileiro teve início por olhares de estrangeiros.

1897. Vittorio Di Maio filmou imagens do cotidiano carioca. 1905, o fotógrafo português Antonio Leal fixou em cine-jornais a remodelação do Rio de Janeiro. Na I Guerra Mundial a produção aumentou. Surgiram, no Rio, as companhias Leal-Filmes, Carioca e Guanabara, que produziram muitos títulos tendo a literatura como parceira.

Mas não vou narrar a biografia do cinema brasileiro. Vou expressar o meu olhar sobre a retomada dele desde “Carlota Joaquina”. Carla Carmurati, com um ideal na cabeça, não esperou leis de incentivo. Juntou sua experiência, história do Brasil, humor de seu povo, profissionais parceiros, dinheiro e deu um “Vou ser feliz e já volto” para o Estado e a forma de encarar a educação e a arte.  Contudo, há muitos dinossauros do cinema que não se extinguiram com a Embrafilme. Ficaram se alimentando do capim do capitalismo, a publicidade. E retornaram aproveitando-se das leis de incentivo à cultura, produzindo filmes, em sua maioria, sem um aprofundamento na história, na estética e sem preocupação com a distribuição para que a arte, através de um de seus meios, no caso o cinema, chegue realmente ao povo. Leis de incentivo: isso é muito bom para o início de uma retomada e destinação concreta de tributos à cultura. Cria a possibilidade de pessoas de baixa classe social, sem condições de pagar uma faculdade, se profissionalizar e se tornar bem sucedido, realizando seus trabalhos em uma área profissional na qual, antes, a maioria era da elite social, burgueses. No entanto, a lei de incentivo aprova, mas não há atuação do governo em relação a rigores para com as empresas com potencial de patrocínio. Essas empresas podem, sem seguir qualquer critério, escolher os projetos, estipular o percentual dentro de seu valor teto e dar o patrocínio. Então, se o projeto for retratar algo que eles não são a favor, alguma crítica contra os interesses maiores deles, fecham as portas, dizem muito bom, muito bem, mas... Mas o quê? Mas infelizmente agora não é o momento. Estabelece-se, assim, a “Censura” econômica. E isso é muito grave, vai contra toda a história da arte, contra todo o movimento artístico, contra a consciência, contra a evolução da sociedade. Diante desse quadro, constatamos a volta de produções cinematográficas, mas bem longe de uma revolução em produções artísticas. Não há uma crítica social de fundo, nem experimento de novas propostas estéticas ou de linguagem. A retomada é apenas para “alguns” produzirem, ficarem em festivais discutindo gostos e falando do suicídio coletivo para o qual o mundo caminha.

Proponho a todos que façamos a insurreição da arte, a insurreição do cinema, a insurreição de nossa cultura, o renascimento do Brasil. Em outras palavras, proponho um assalto cultural, não no sentido de violência, mas no de captura rápida da cultura adormecida, uma ação rápida em prol da cultura. Pensamentos, sim, mas com ações rápidas e precisas. É preciso tomar como exemplo o trabalho das formiguinhas, contínuo, rotineiro, sem fim, com união.

Não esperemos um líder ou um representante. Vamos à luta sem nos preocuparmos com quantos estão ao nosso lado. Não fiquemos somente reclamando, precisamos agir no meio social em busca de uma lei de incentivo à cultura mais qualificada, de uma revisão dos métodos de educação fundamental para que se possibilite a aproximação da criança e do jovem à arte, o resgate dos folclores, os rituais, a história...

Vamos procurar conhecer melhor nossos representantes, principalmente antes do voto, para que possamos cobrar-lhes uma atuação em defesa dos interesses reais da sociedade. Textos, conversas em bares são importantes,  mas no dia seguinte temos que agir, dando continuidade, realidade aos nossos sonhos.

Espero que pensar, comer bem, ter dentes, saúde, praticar esporte, ler bons livros, estudar, constituir família, escutar boas músicas, ter um lar, conversar, usufruir da tecnologia, viajar, fazer amor não sejam consideradas coisas que só os “ricos” podem fazer. Isso é o mínimo para todos.

Nattália Moura