Artigo
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Economia e Ecologia
Freqüentemente ouvimos os
críticos da defesa do meio ambiente em sua defesa consciente ou manipulada,
afirmarem que esta ação leva a perdas econômicas e ao desemprego. Sob esta
afirmação, dirigentes políticos e empresariais se valem para aviltar as leis
ambientais e manipular os cidadãos para que aceitem empreendimentos às custas
de crimes ambientais.
Nosso país observou o meio
ambiente das áreas urbanas e rurais serem comprometidos pela onda do
desenvolvimentismo no processo de industrialização, ocorridos principalmente
nos períodos de Vargas e dos militares. Em meados do século passado, o mundo
não tinha plena maturidade para perceber a finitude dos recursos naturais e o quanto somos afetados pela poluição ambiental
Na Baixada Santista, além
do estigma carregado por Cubatão, como uma cidade referência em crimes
ambientais, tivemos descasos e descuidos no Porto de Santos, poluindo com
quantidades imensas de óleo, enxofre e uma infinidade de poluentes o Complexo estuarino e o célebre caso do lixão da Rhodia em São
Vicente.
Nossa região sofreu e
sangrou com mortes relacionadas a leucopenia, doenças
respiratórias, coronárias e possivelmente neoplasmas (tumores) generalizados.
Pescadores assistiam ano após ano a pesca diminuir, e muito do produto deste
trabalho não é indicado para consumo humano, em Cubatão o mundo assistiu
atônito o nascimento de crianças anencefálicas e o
risco do desmoronamento de toneladas de rochas, terras e resíduos orgânicos da
Serra do Mar, comprometendo até mesmo a atividade industrial da cidade.
Passadas duas
décadas,casos como o do Ceasa que se instalaria em Cubatão, em área de mangue,
ou de parques aquáticos que afetariam mananciais importantes para o abastecimento
da cidade, ainda nos premiam. O que falta para nossos dirigentes para compreenderem
que vidas humanas e o meio ambiente não suportam suas atitudes inconseqüentes
por um “desenvolvimento” rápido.
Não é verdade que devemos
optar pela destruição ambiental para gerar fontes de renda, salvo casos de interesses
de grandes corporações empresariais.
Vivemos hoje com opções
que figuram na defesa ecológica como forma para somar lucros, um “Modus vivendi” em que além do politicamente correto, o
ecologicamente ajustado toma a vez. Algumas empresas como a Natura e Boticário
e Ford, faturam em cima da imagem “verde”. Pessoas que buscam o turismo
ecológico aumentam de um dia para o outro, fomentados por esta nova onda verde
de consumo.
Mas não é só uma ideologia
verde que se vende em butiques, lojas de autos e nos programas turísticos
ecológicos. O desenvolvimento da biotecnologia tem estimulado discussões sobre
as biopatentes e a forma de se explorar a biodiversidade
No jornal “Folha de São
Paulo do dia 03 de Agosto de 2003, a matéria intitulada “O
Cupuaçu é nosso”, discute sobre uma campanha brasileira contra o registro do cupuaçu
como marca da Asahi Foods.
Este caso ilustra o total desrespeito das grandes corporações com os países
pobres e em desenvolvimento. Inúmeras patentes de frutos, sementes, conhecimentos
indígenas medicinais são feitas no exterior em nome de grandes empresas.
Nossa biodiversidade é
imensa e não está contida “apenas” na Amazônia, mas também em nosso imenso mar
de mais de sete mil quilômetros de extensão, na Serra do Mar, Cerrado e
Pantanal Mato-grossense.
As grandes corporações
sabem do grande potencial em produtos médicos, alimentares e industriais
contidos neste enorme meio ambiente, e a única barreira que os impede de
sorverem enormes lucros com a nossa biodiversidade é a nação
brasileira, que tem por direito o seu território.
Insistentemente, o
discurso de internacionalização da Amazônia
se propaga pelos países ricos, que em atitude descabida, imputa-nos a
pecha de responsáveis pelos crimes ambientais na região. Esquecem-se de todos
os crimes ambientais levados a cabo por suas empresas no terceiro mundo, ou a
quantidade absurda de poluentes e lixo por eles gerada,
e o pior dos exemplos dos “porcos”, o rompimento do Tratado de Kyoto pelo Governo de George W. Bush.
Nossa soberania, nossa
integridade territorial e nosso futuro seguem um caminho inescapável, a defesa
do meio ambiente. Precisamos contar com o apoio de ONG’s de todo mundo, para
imputar a desistência da internacionalização da Amazônia pelos países ricos, e
isso só é possível com atitudes generalizadas de respeito e cuidados
ambientais. O mundo deve nos ter como defensores de um desenvolvimento sustentável
não só em palavras, mas em atitudes.
O Brasil conseguiu uma boa
imagem neste sentido com os consecutivos Fóruns Sociais, ocorridos em Porto
Alegre. Várias ONG’s ambientais estiveram presentes e puderam aprofundar melhor
a questão ambiental no Brasil. A eleição de Lula, participante de todos os Fóruns
e único presidente a intermediar o Fórum Social e o Fórum Econômico, são sinais
inequívocos da aproximação destas ONG’s ao nosso favor.
Se não pela consciência,
quem sabe pela visão financeira, devemos todos ser os maiores defensores
mundiais do meio ambiente, sem deixar de lutar insistentemente contra os Biopiratas do mundo desenvolvido, ordeiro e legal.
José Henrique Garcia
Sociólogo - USP