Artigo
Pág. 4
A Combinação de Rupturas
e Continuísmos na História da Ciência
O presente artigo versa acerca de duas
posições interpretativas distintas no âmbito da história da ciência. A primeira
refere-se a uma linha de pensamento defendida por Pierre Duhem,
Crombie, entre outros, de que a ciência moderna não é
resultado de uma ruptura ou da revolução de certos princípios científicos característicos
desta época, mas, ao contrário, uma continuidade dos trabalhos desenvolvidos
por pensadores de períodos passados, como por exemplo, a Idade Média.
Por
outro lado, apresenta-se Thomas Kuhn como expoente da concepção de que na idade
Moderna se consolida a criação de novos paradigmas na física moderna,
necessários para que se forneçam explicações devidas aos fenômenos naturais em
questão.
Entretanto,
não deverei explorar os conceitos complexos delineados por Kuhn em seu A
Estrutura das Revoluções Científicas, mas propor o fato de que dentro da
história da ciência, sempre houve uma combinação de continuísmos e de rupturas
radicais.
Vale,
deste modo afirmar, a existência de paradigmas estáveis e instáveis nos modelos
científicos apresentados em inúmeros períodos históricos, ao mesmo tempo em que
tais arquétipos convivem com alguns elementos que denotam um determinado continuísmo.
Tomemos como paradigma instável, o caso da explicação da visão na antiguidade.
Houve
várias teorias que propuseram a transferência simultânea de raios dos objetos
para os olhos e vice-versa. Ora, nenhum dos princípios intramissionistas
e extramissionistas satisfizeram rigorosamente uma
explanação plausível sobre os mecanismos ocultos do processo visual, e por tal
motivo, a ausência de um modelo único para a visão, tornou inviável o fato de
que houvesse algum tipo de superposição de um modelo em relação ao outro. Ao
entrarmos, porém, nos séculos XVI e XVII, a dificuldade de se ter claramente definida
uma posição de como as cores eram produzidas, foi empecilho para que um modelo
prevalecesse.
Newton
e os cartesianos, como Hooke e Huygens,
passam a se digladiar no cenário científico moderno, pois, cada grupo possuía
uma versão quase que infalível para dar conta de qualquer tipo de explicação
que envolvesse a luz ou o espectro colorido que se nos apresentava nos
arcos-íris. Contudo, se não há um paradigma universal para o fenômeno das
cores, as propostas de Newton de que as cores são agregados heterogêneos,
ou já estão inseridas previamente na luz branca monocromática, revelam que esta
conclusão carece de uma explicação científica cabal. Em outras palavras, Newton
apenas forneceu o que os medievais chamam de quia,
ou a mera descrição do fenômeno, desprovida de alguma explicação, propter quid. A preocupação
do filósofo medieval Robert Grosseteste é tão
pertinente na modernidade quanto na Idade Média.
Um
outro ponto a ser considerado na história da ótica, dentro da idéia de
continuísmo na ciência, é quando o próprio Newton se depara com o formato
oblongo do espectro colorido, após realizar uma série de experiências com
prismas triangulares. Pelas leis da refração, seria possível encontrar uma
forma geométrica circular. Por que então a oval surgiu? Newton se dispõe a
formular hipóteses, ou como ele mesmo diz, suspeitas,
para ter claramente a causa daquela aberração espectral. As sucessivas
suposições e os descartes feitos por Newton, nos permite afirmar que durante a
Idade Média os procedimentos padrões estavam voltados no sentido de que todo o
problema científico seguia um procedimento de serem criadas hipóteses e pelo
processo da verificação empírica, desconsiderava-se um sem número de suspeitas.
O século XII, Teodorico de Freiburgo
defendia a concepção de que este é o método mais eficiente para se investigar
os fenômenos naturais.
As
rupturas radicais, por outro lado, aconteceram principalmente no momento em que
Galileu, Copérnico e o próprio Kepler formularam novas interpretações
astronômicas para substituir os epiciclos e deferentes de Ptolomeu. Galileu
alterou a forma de entendimento da queda dos corpos, criando uma nova teoria de
que os corpos, independentemente de suas massas, caem com acelerações
idênticas, questionando, assim, totalmente o raciocínio de Aristóteles. Mas, de
qualquer jeito, se há rupturas no modo de pensar a natureza dos homens
modernos, é fundamental sustentar que um Kepler e um Copérnico, e até mesmo Galileu
não se desprenderam, de certo modo, do estilo de pensar platônico.
Paulo
César Gomes de Souza
Mestrando
em Filosofia – Unicamp