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Ciência: evolução ou revolução?

 Breves considerações sobre o pensamento de T. Kuhn

O homem, ao longo de sua história, firmou a convicção de que a ciência evolui pelo acúmulo linear do conhecimento, isto é, considera-se, em geral, que há um acréscimo de conhecimento a cada passo da ciência. Nesse caminhar, a ciência, segundo a concepção tradicional, vai acumulando as experiências bem sucedidas e suas teorias respectivas e descartando as que são consideradas não-científicas.

Contra essa posição, aparece, dentre outros, Thomas Samuel Kuhn, nascido em 18 de julho de 1922, em Cincinnati, Ohio, E.U.A. Foi titulado Ph. D. em física pela Universidade de Harvard em 1949 e manteve-se ali como professor assistente de educação geral e história da ciência até 1956, quando se transferiu para a Universidade da Califórnia, Berkeley, onde se tornou, em 1961, professor titular de história da ciência. Em 1964, assumiu a condição de professor de Filosofia e História da Ciência na Universidade de Princeton.  Em 1979, foi para o Instituto de Tecnologia de Massachussetts, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1991. Em 1957 publicou o seu primeiro livro, The Copernican Revolution, e dentre os livros e artigos que escreveu, podemos considerar como mais importante A Estrutura das Revoluções Científicas, escrita durante sua graduação em Física Teorética, e publicada como monografia na International Encyclopedia of Unified Science, em 1962. Essa obra vendeu mais de 1 milhão de cópias, tendo sido traduzida em mais de 16 línguas.  Em  17 de junho de 1996, Thomas Kuhn faleceu, em sua residência, em Cambridge, Massachussets, deixando a esposa e três filhos. Durante sua vida, recebeu vários prêmios culturais, entre os quais a George Sarton Medal in the History of Science, em 1982.

Para adentrar à questão principal, mister se faz uma breve consideração acerca das polêmicas levantadas, sobretudo, a partir do pensamento de David Hume, empirista inglês do séc. XIX, o primeiro a se insurgir contra, a colocar em xeque o método científico empirista vigente no mundo moderno.

Segundo Hume, a ciência não pode se valer do método dedutivo porque não é possível estabelecer uma premissa universal válida. O método, pois, só pode ser o indutivo, qual seja, o raciocínio pelo qual a partir de uma premissa particular chega-se a uma conclusão universal. Mas, para que o homem pudesse afirmar o futuro – porque uma conclusão universal envolve o futuro, obviamente – com base no passado, teria de haver um princípio garantidor. Porém, a busca desse princípio levaria ao infinito, porquanto sempre haveria a necessidade de um princípio anterior que justificasse o posterior. Então, diz Hume, esse princípio deve ser aceito não-racionalmente, sem discussão, posto que não há como fundamentá-lo. Nesse sentido, a ciência é, pois, não-racional. Para Hume, a relação entre causa e efeito está fundada meramente no hábito.

Evidentemente, essa posição ganhou muita crítica, mas, na verdade, é um problema para o qual não há resposta lógica satisfatória até hoje. Mesmo Karl Popper, filósofo da ciência renomado, tentou afirmar a racionalidade da ciência e, para isso, teve de negar a indução. Kuhn, por sua vez, com sua teoria, gerou entre os filósofos contemporâneos a sensação de que a ciência não é racional, porquanto, para ele, não é dedutiva e nem indutiva, causando, sem dúvida, maior polêmica ainda. O grande centro de discussão deu-se entre Popper e Kuhn, posto que para Kuhn, somente a teoria daquele era merecedora de atenção maior, vez que admitia a impossibilidade da indução, muito defendida entre os demais.

Pretendemos, aqui, neste artigo, em breves linhas, apresentarmos, então, a partir de quatro conceitos fundamentais, quais sejam: Ciência Normal, Ciência Extraordinária, Anomalia e Crise, o que Thomas Kuhn denomina como Revolução Científica.

Ciência normal,  para Kuhn, é “a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas.” [1]

A pesquisa que segue esses caminhos constitui-se em ciência normal e Kuhn utiliza o termo paradigma para indicar o arcabouço teórico de sustentação dessas pesquisas, deixando claro que a ciência sustenta-se não apenas por um único paradigma, mas, sim, por vários paradigmas compartilhados. Nas palavras de Kuhn: “Com esse termo, quero indicar conquistas científicas universalmente reconhecidas, que por certo período fornecem um modelo de problemas e soluções aceitáveis aos que praticam em certo campo de pesquisas”. [2]

Por outro lado, as pesquisas que visam ao rompimento desse arcabouço, ou seja, do paradigma vigente Kuhn as denomina ciência extraordinária. Assim, enquanto a ciência normal procura respostas valendo-se dos paradigmas vigentes, a ciência extraordinária procura encontrá-las fora do paradigma, ou seja, debruça-se sobre questões não respondidas pelo paradigma vigente buscando outros fundamentos científicos. Como diz Kuhn, a “ciência normal parece ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites preestabelecidos e relativamente inflexíveis fornecidos pelo paradigma”. [3]

A ciência normal, portanto, jamais irá procurar algo novo verdadeiramente no campo científico, pois estará sempre amparada nos paradigmas vigentes. Nesse sentido, defende Kuhn: “Quando é bem sucedida não as encontra (coisas novas)”. [4]

É inegável, entretanto, que várias teorias novas surgem no dia-a-dia da ciência. Essas teorias ensejam a mudança, quer por novas descobertas, quer por novas invenções. Essas novidades constituem as anomalias paradigmáticas que induzirão ou não à formação de novos paradigmas, vez que coloca o paradigma vigente em crise, isto é, em uma situação de impossibilidade de responder satisfatoriamente ao novo problema. É nesse período de crise que tem vez a ciência extraordinária, procurando novas soluções para novos problemas, com novos pontos de vistas, “os dogmas são postos em dúvida e conseqüentemente, suavizam-se as normas que governam a pesquisa normal.” [5]

Vale notar que nem sempre uma anomalia levará a um novo paradigma, porque a resposta poderá ser encontrada no próprio paradigma, a partir de um novo ponto de vista. É que “sempre existem dificuldades em qualquer parte da adequação entre o paradigma e a natureza; a maioria, cedo ou tarde, acaba sendo resolvida, freqüentemente através de processos que não poderiam ter sido previstos.” [6]

A crise se estabelece definitivamente quando não é encontrada uma resposta segundo o paradigma vigente, e, portanto, somente com a adoção de um novo paradigma será possível a solução. Um novo paradigma implica dizer descartar o velho paradigma, o que, evidentemente, enfrenta sempre resistência na comunidade científica, que se pauta, via de regra, na ciência normal. É muito comum, inclusive, a adoção provisória do novo paradigma, como que se num período de testes, quando, então, parte dos problemas é resolvida tanto pelo novo quanto pelo velho paradigma. Importa ressaltar que, para que se constitua um novo paradigma, é imperioso que o velho paradigma não consiga dar respostas a todos os problemas e o novo o faça satisfatoriamente.

Esse período de transição é o que Kuhn denomina de Revolução Científica, um período em que o velho paradigma vai caindo frente ao novo, um período em que a comunidade científica vai-se convencendo da necessidade de abandonar o velho e adotar o novo.

O capítulo 8º do livro Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Samuel Kuhn, trata da natureza e da necessidade dessas revoluções.

A revolução consiste na mudança parcial ou total de um paradigma, e, explica, tanto na política quanto na ciência, o termo revolução guarda o mesmo sentido, uma insatisfação, uma insuficiência crescente dos princípios que norteiam o estado atual. Esse sentimento leva à crise, pré-requisito de uma revolução. Ressalta que para se caracterizar uma revolução não é necessário que todos a percebam assim, alteradora de paradigma, mas apenas o campo restrito a que se refere essencialmente. Para os demais, pode, portanto ser apenas mais um conhecimento acrescido. Isso se dá porque não existe apenas uma comunidade científica, mas várias. Vale dizer, existem vários campos científicos e o que é paradigma para um pode não ser para outro.

Afirma, ainda, que a escolha no campo científico de um ou outro paradigma, assemelha-se à escolha no campo político desse ou daquele regime, incompatíveis entre si. E as discussões ocorrem da mesma forma, cada grupo defendendo seu paradigma, fundamentando-se no próprio paradigma que se pretende seja adotado e não no paradigma vigente.

Conclui, então, que para solução do problema, não se pode utilizar apenas a lógica, pois esta também está fundada no paradigma em discussão. É necessário ir além. É necessário saber se há fundamento interno para aceitação de um novo paradigma e rejeição do anterior.

Exemplifica: a ciência admite determinados requisitos para existência de vida. Na Lua, segundo esse paradigma, não há possibilidade de vida. Se, porventura, descobrir-se vida na Lua, todos esses princípios deverão ser rejeitados por necessidade. Já, se encontrarem vida em outros planetas longínquos, ainda não estudados detalhadamente, os efeitos serão bem menos contrários à ciência atual.

 A ciência evolui não-cumulativamente, ao contrário do que se costuma pensar. A cumulação só ocorre no caminhar ordinário, comum da ciência.  Por isso, a autêntica evolução da ciência traduz-se por uma revolução, isto é, rompimento do paradigma atual e adoção de um novo sistema. Não há cumulação, como se acredita ordinariamente.

Para criação de uma nova teoria, existem três tipos de fenômenos que podem servir de ponto originário:

a) os fenômenos já bem conhecidos cujas novas teorias a seu respeito dificilmente são aceitas porque já há um paradigma assentado e os caminhos não podem escapar a eles;

b) fenômenos apenas indicados pelos paradigmas existentes, ainda não estudados a fundo, constituintes, não raramente, no ponto inicial para a ruptura do paradigma existente, vez que o fracasso na explicação desses fenômenos pelos paradigmas atuais leva os cientistas à constatação de falhas e insuficiências no sistema e

c) fenômenos novos, que colocados sob a luz do paradigma vigente não se encaixa e, portanto, exige uma pesquisa em direção a um novo paradigma.

Esses fenômenos, consistentes em insuficiências do paradigma, levam os cientistas à procura de um novo paradigma, necessariamente, para explicação do fenômeno, e que de sustentação à nova teoria.

Assim, explica, a teoria de Einstein a respeito da dinâmica só pode ser aceita se for rejeitada a teoria de Newton, pois são conflitantes. Na melhor das hipóteses, a teoria de Newton seria apenas  aplicável a determinadas situações, absorvidas pela de Einstein. E, ressalte-se, para que seja considerada nova a Teoria de Einstein, necessariamente deve contradizer a de Newton. O que se conclui é que Einstein contradiz apenas os excessos da teoria de Newton. Nesse aspecto é portanto, uma nova teoria, nos demais, não.

Para a ciência evoluir extraordinariamente, é necessário livrar-se do paradigma atual e durante determinado tempo, caminhar sem paradigma preestabelecido. Algo como caminhar no escuro, correndo o risco de escorregar e se perder. É o que podemos denominar de hipóteses.

Assim, a teoria nova deve conflitar com a antiga, e se a antiga, para ser aplicada, como no caso de Newton, ficar tão restrita e absorvida pela nova, então, evidentemente, torna-se obsoleta.

Nessa mudança de paradigma, o que era fundamental pode passar a ser insignificante ou apenas mero detalhe, enquanto o que não era considerado anteriormente, agora, pode tornar-se o fio condutor da nova pesquisa.

Destarte, o autor releva que a sucessão de paradigmas não expressa uma queda ou aumento dos padrões científicos, mas efetivamente, uma mudança nesses padrões, que levam, mesmo, a mudanças de concepção de mundo,  posto que, uma vez adotado o novo paradigma, todo o sistema científico deve ser revisto, o cientista deve olhar para o mundo e todos os seus fatos com novos olhos, pois sempre poderá encontrar alguma interpretação superada pelo novo paradigma.

Enfim, para que pensemos um pouco mais acerca dessa questão, lembramos a frase de Kuhn: “Para mim, uma revolução é uma espécie de mudança envolvendo certo tipo de reconstrução dos compromissos de grupo. Mas não necessita ser uma grande mudança, nem precisa parecer revolucionária para os pesquisadores que não participam da comunidade – comunidade composta talvez de menos de vinte e cinco pessoas.” [7]

Luiz Meirelles

Mestrando em Filosofia PUC/SP

Bibliografia

Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Perspectiva,              São Paulo, 1975.

Nicola Abbagnano, História da Filosofia, vol.14.

Giovanni Reale e Dante Antissieri, História da Filosofia, vol. III,  Paulus, São Paulo. 1991.

Wolfgang Stegmüller, A Filosofia Contemporânea, v. 2, Edusp. 1977



[1] Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Perspectiva, São Paulo, 1975, pág. 29.

[2] Idem, pág. 32.

[3] Idem, ob. citada, pág. 45.

[4] Ibidem, ob. citada, pág. 77.

[5] Giovanni Reale e Dante Antissieri, História da Filosofia vol. III, Paulus São Paulo, 1991, pág. 1043.  

[6] Thomas S. Kuhn, ob citada, pág. 113.

[7] Thomas Kuhn, ob. citada, pág. 225.

 

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