Coluna do Leitor
O Positivismo de Comte e a supremacia da razão
O iluminismo, no século XVIII, exaltou a razão como
fonte para resolver todos os problemas da humanidade. Tudo teria que ser explicado
através da razão. Pela razão o homem afastaria a ignorância e a
superstição, guardando a esperança de um mundo onde as luzes da razão
permitiriam a melhor qualidade de vida possível e a emancipação dos
preconceitos, da violência e do arbítrio. Foi com esse ideal burguês que se
originou a Revolução Francesa e os anseios de liberdade e fraternidade.
A Revolução Industrial no século XVIII, expressão do
poder da burguesia em expansão, demonstrou a eficácia do novo saber
inaugurado pela ciência moderna no século anterior. Ciência e técnica
tornam-se aliadas. A exaltação desse novo saber e
novo poder leva à concepção do cientificismo, segundo o qual a ciência é
considerada o único conhecimento possível e o método válido, devendo
portanto, ser estendido a todos os campos da indagação e atividade humanas.
Isso se deve principalmente ao grande progresso das ciências naturais,
particularmente das biológicas e fisiológicas do séc. XIX e pela
grandemente valorizada atividade econômica, produtora de bens materiais,
Nesse clima, desenvolveu-se no século XIX o pensamento
positivista, que tem Auguste Comte como principal representante.
Para Comte, há uma grande lei fundamental que consiste
em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos
conhecimentos, passa sucessivamente por três estados históricos diferentes:
estado teológico ou fictício, estado metafísico ou
abstrato, estado científico ou positivo.
No estado teológico, o espírito humano quer saber o
porquê dos fenômenos e os atribui a seres sobrenaturais.
No estado metafísico, o espírito humano também procura
as causas dos fenômenos, mas os atribui a forças
abstratas da natureza, inerentes aos diversos seres do mundo.
Enfim, no estado positivo, o espírito humano vê sua
incapacidade de obter noções absolutas, e renuncia ao conhecimento das
causas, para preocupar-se unicamente em descobrir, com o uso da razão e da
observação, as leis dos fenômenos, suas relações de sucessão e similitude.
Escreve Comte: “... O caráter fundamental da filosofia positiva, é tomar todos os
fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta
precisa e cuja redução a um menor número possível constituem o objetivo de
todos os nossos esforços, considerando como inacessível e vazia de sentido
para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam
finais.” (Curso de Filosofia
Positiva, Primeira Lição, in Coleção “Os Pensadores”, Editora Nova
Cultural, tradução José Arthur Gianotti, pág.
26).
Para ele, “Todos
os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais os
conhecimentos que repousam sobre fatos observados”. (Idem).
Ele considera a filosofia positiva o verdadeiro estado
definitivo da inteligência humana, uma verdadeira revolução, que ele crê
impossível de ser determinada a origem, mas que se processou constante e
gradativamente desde Aristóteles e que se pronunciou pela ação combinada
dos preceitos de Bacon, das concepções de Descartes e das descobertas de
Galileu.
A maturidade, para Comte, consiste no abandono de
todas as formas míticas e religiosas. O termo positivo designa o real em oposição ao quimérico, a certeza em oposição à
indecisão, o preciso em oposição ao vago. Assim, enquanto o primitivo
poderia explicar, por exemplo, a queda dos corpos pela ação dos deuses, o
metafísico Aristóteles a explicaria pela essência dos corpos pesados, cuja
natureza os faz tender para baixo, onde seria o seu lugar natural. Galileu,
espírito positivo, não indagaria o porquê, não procuraria as causas
primeira e última, mas se contentaria em descrever como o fenômeno ocorre.
Comte divide os fenômenos em astronômicos, físicos ou mecânicos, químicos,
fisiológicos e sociais. E classifica as ciências em: matemática,
astronomia, química, biologia e sociologia. O critério de classificação vai
da mais simples e abstrata até a mais complexa e concreta. E essa ordem não
é só lógica, mas também cronológica. Segundo Verdenal
“a idéia de ordem está ligada à idéia
de hierarquia como sistema de subordinação rígida da parte ao todo, do
inferior ao superior, do processo ao resultado, e isso dá a chave da famosa
palavra de ordem: pelo progresso para a ordem”. (Verdenal,
apud F. Châtelet, História da filosofia; idéias,
doutrinas, v. 4, p.205). À filosofia
cabe sistematizar as ciências e determinar o que elas devem estudar. Há uma
divisão do trabalho intelectual, visando a especialização dos
conhecimentos. Não se pode esquecer a relação com o sistema e deve-se fazer
do estudo das generalidades científicas outra grande
especialidade que encaixe o particular dentro do sistema – filosofia
positiva.
Para Comte, enfim, a previsibilidade alcançada através
do estudo dos fenômenos, que obedecem ao critério da necessidade inerente à
natureza, é o que constitui a ciência e o verdadeiro conhecimento.
Luis Antonio da Silva
Bel. Em Direito – Unisantos
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