Artigo
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Karl Popper, a questão do método científico e
seus critérios.
Uma das
questões que mais afligem ao ser humano, sem dúvida, diz respeito à definição
da verdade e, pois, à validade da ciência. É impendente a
discussão desse tema, sobretudo num momento em que a razão tem se mostrado
insuficiente para solucionar os problemas existenciais humanos, há quase um
século. Assim, trazemos, apenas preliminarmente, o questionamento do método
científico, secundados por Karl Popper.
A
primeira ilustração que merece ser trazida é quanto ao significado da palavra
lei.
Segundo
Popper, é fundamental distinguir os sentidos científico e social, pois enquanto
na ciência ela apenas expressa uma ocorrência, na sociedade ela promove uma
conduta a ser seguida. Em outras palavras, uma lei científica não determina que
algo aconteça, mas apenas descreve o que acontece, ao passo que a lei social
não descreve o que acontece, mas, sim, determina o que deve acontecer segundo
circunstâncias específicas. Em suma, enquanto a primeira não pode ser
contrariada, a segunda prevê exatamente
essa possibilidade.
A tarefa
do cientista é delimitar as leis científicas e, para isso, deve adotar um
método.Desde Francis Bacon, a Ciência tem seguido o princípio de que para
descrever uma lei da natureza é preciso testar reiteradamente, colher e
registrar os resultados, aguardar que isso se repita com vários outros pesquisadores
para, então, ser considerada válida. Isto é, uma lei científica é válida quando
a comunidade científica, fundada em experiências
particulares, colhe resultados semelhantes ou pretensamente iguais
repetidas vezes.
Esse é o
método da indução, conforme explica Popper. Costuma-se chamar de “indutiva” a uma inferência se ela passa de
enunciados particulares, ou
experimentos, aos enunciados universais,
tais como as hipóteses ou “teorias”.(2)
Evidentemente,
lembra Popper, jamais poderemos passar de enunciados singulares para universais
com a certeza da verdade. Nesse sentido, aliás, ressaltamos, David Hume já alertara muito antes. E esse, pois, continua sendo
o mesmo problema da indução, e é sobre o que Popper se debruçará.
Para
começar a solucionar o problema, os defensores da indução entendem ser
necessário estabelecer um Princípio de
Indução, o qual possa garantir o processo. Para Popper, isso é impossível
ou mesmo supérfluo, posto que esse Princípio não garante nada, vez que se funda
no mesmo método, inconsistente logicamente. É que um Princípio de Indução
válido deveria ser universal e o homem parte sempre do singular, o que não lhe
permite chegar, logicamente, ao universal.
Para
tentar resolver esse problema, Popper estabeleceu o que ele mesmo denomina método dedutivo de teste(2). Inicialmente, distingue a psicologia do conhecimento, que trata
dos fatos empíricos da lógica do
conhecimento, atinente
às relações lógicas propriamente ditas.
Na
elaboração de uma teoria, há dois momentos: o primeiro, de sua enunciação, e o
segundo, de sua provação. Não interessa, segundo Popper, como o cientista chegou àquele enunciado, mas, sim, como
justificá-lo. Isto é, é preciso eliminar o psicologismo empírico, pois refazer
os passos do cientista não justifica uma teoria, apenas indica os caminhos que
o inspiraram a concebê-la. Para justificá-la, é necessário testá-la
logicamente, e esse teste é dedutivo, pois parte de um enunciado que se
pretende seja uma lei universal. Nesse sentido, Popper concorda com Bergson e Einstein, afirmando que não há uma lógica na
descoberta científica.
Para
testar uma teoria, Popper segue quatro passos, ou espécies de provas.
1º Testes
internos: buscam a coerência das conclusões extraídas a partir do enunciado.
2º Testes
da forma: consiste nos testes para se saber se a teoria é, de fato, uma teoria
empírica ou científica ou meramente tautologia.
3º Testes
de inovação: verificação se a teoria realmente é nova ou já está compreendida
por outras existentes no sistema.
4º Testes
empíricos: verificação da aplicabilidade das conclusões extraídas da teoria
nova. Estes são os principais dos testes, pois a teoria pode passar incólume
nos três passos anteriores e ser falseada pela aplicação
empírica de suas conclusões, caso em que a teoria não será considerada
válida.
Evidentemente,
a sustentação de uma teoria é sempre provisória, posto que suas conclusões
estarão sempre sendo testadas empiricamente. Enquanto a teoria se sustentar,
nenhum progresso terá havido. Ao contrário, quando uma prova falsear a teoria
vigente, então a ciência evoluirá. Nesse sentido é que se deve, pois, sempre
buscar falsear a teoria e não confirmá-la, também porque a tentativa de
confirmação seria infinita, no tempo e no espaço. Dessa forma, Popper afirma
que uma teoria será mais válida quanto mais for falseável,
ou seja, quanto mais possibilidades de ser falseada existirem
e, mesmo assim, ela continuar respondendo aos problemas científicos.
Mas
Popper, ao derrubar o método indutivo, criou também um outro problema, qual
seja, a necessidade de um novo critério de demarcação entre o que é Ciência e o
que não é, pois até então o método indutivo era próprio da Ciência e a
distinguia da metafísica, esta última, sabidamente especulativa. Para Popper,
entretanto, esse problema já existia, pois Kant já havia comprometido o
critério da demarcação vigente. Assim, vale notar, um enunciado que não traga
limitações temporais, espaciais e subjetivas terá uma probabilidade de acerto
altíssima, a maior até, mas terá, em contrapartida, um teor informativo
baixíssimo, quase zero. Em outras palavras, não se delimita, tão somente pela
indução, o que é e o que não é ciência, porquanto qualquer pessoa, a mais leiga, pode elaborar um enunciado
desse tipo. Logo, o que demarca a Ciência da não-ciência é a falseabilidade, como diz Popper: O critério de demarcação inerente à lógica indutiva, isto é, o dogma
positivista do significado, é equivalente ao requisito de que todos os
enunciados da ciência empírica (ou todos
os enunciados “significativos”) são suscetíveis de serem finalmente decididos,
com relação à sua verdade e falsidade; diremos que eles devem ser decidíveis de modo conclusivo. Isto significa que
sua forma deve ser tal que deve ser logicamente possível tanto verificá-los
como falseá-los.(2)
Enfim,
impende ressaltar que, para Popper, é necessário o enunciado poder ser testado empiricamente, não pela sua verificabilidade, mas pela sua falseabilidade.
Dessa forma, fica, pensamos, claramente derrubado o mito da verdade científica,
sobretudo pela insuficiência de seus métodos, o que deve nos levar à reflexão
acerca das soluções científicas tão propagadas e não perder de vista que elas
são sempre provisórias.
Luiz Meirelles
Mestrando em Filosofia-PUC/SP
Bel. em Direito e Licenciado em Letras e Filosofia - Unisantos
Bibliografia:
(1)Bryan Magee, As Idéias de
Popper, Editora Cultrix,
1974.
(2)Karl Popper, Lógica da Investigação Científica, in Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo,1975.
(3)Wolfgang Stegmüller, A
Filosofia Contemporânea, v. 2, Edusp. 1977
(4)Nicola Abbagnano, História da
Filosofia, vol.14.
(5)Giovanni Reale e Dante Antissieri, História da Filosofia, vol. III, Paulus, São Paulo.
1991.