Artigo
O
Problema da natureza do espaço em Kant
A
presente reflexão, além de explicitar o problema da natureza do espaço em Kant,
pretende demonstrar que a concepção espacial defendida na Crítica da razão pura é fruto de uma evolução que ocorreu
concomitante ao desenvolvimento do pensamento kantiano.
O
problema de Kant sobre a natureza do espaço perpassa toda a produção acadêmica
até atingir sua concepção definitiva na
obra supracitada. Nela, o filósofo de Königsberg
concebe o espaço como forma a priori da sensibilidade, representação necessária que
fundamenta todas as intuições externas.
A
reflexão kantiana sobre o espaço é específica do seu tempo, circunscrita em um
contexto de intensas discussões filosóficas para saber se o espaço é a condição
da possibilidade da existência das coisas espaciais ou se é a conseqüência da
relação entre as coisas espaciais, dito de forma mais clara, é uma discussão
sobre a concepção de espaço absoluto e relativo.
O problema do espaço é abordado por
Kant desde o seu primeiro escrito. Na dissertação de 1746, intitulada Pensamento sobre a verdadeira estimação das
forças vivas, defende a tese da precedência das coisas espaciais sobre o
espaço, mais tarde, realiza uma inversão axiológica aderindo à concepção oposta
de que o espaço precede às coisas espaciais. Nessa obra, como o próprio título
sugere, Kant busca a correta estimação das forças adentrando na polêmica entre
cartesianos e leibnizianos. Apesar desta dissertação ao se referir diretamente ao problema da
natureza do espaço, Kant, ao falar da forças que cada substância possuir para
estabelecer relações fora de si, é obrigado a referir-se ao espaço.
A
existência do espaço e da extensão depende, necessariamente das forças que as
substâncias possuem para estabelecer relações fora de si, e mais, sem força não
haveria enlace, sem enlace não haveria ordem, e, por fim, sem ordem, não
haveria espaço. Nessa perspectiva, o espaço é concebido como um sistema de
relações entre as coisas espaciais que estabelecem relações fora de si, impulsionadas
por suas forças, em outras palavras, a estrutura do espaço dependerá da lei que
regula as forças próprias de cada coisa espacial.
Na Monadologia Física, Kant enfrenta o problema da
divisibilidade infinita do espaço e a não divisibilidade das substâncias
simples, realizando uma tentativa para conciliar duas
formas de saber antagônicas: a metafísica leibiniziana
e a física newtoniana.
A
metafísica leibniziana sustentava a existência de
substâncias simples, desprovidas de qualquer composição, ou seja, substâncias
que não são divisíveis, pois a divisão dessas partes simples implicaria
necessariamente na perda de sua unidade constitucional.
Ao
contrário da metafísica leibniziana, a física
newtoniana sustentava a infinita divisibilidade do espaço geométrico e sua
identidade com o espaço físico, negando, assim, a autonomia das substâncias.
A
identidade entre espaço físico e geométrico faz derivar uma conseqüência
incompatível para a metafísica lebiniziana se o
espaço geométrico é divisível ao infinito e idêntico ao espaço físico, o qual
também será divisível ao infinito e conseqüentemente, a divisibilidade do
espaço físico ao infinito implicará na divisibilidade infinita das cosias
espaciais, ou seja, para a geometria a matéria é inseparável do espaço que
ocupa e a divisão do espaço implica na divisão dos corpos espaciais que ocupam
o espaço.
A
metafísica pode admitir a infinita divisibilidade do espaço, mas não pode
admitir a divisibilidade infinita das substâncias, pois a divisibilidade
infinita de partes simples é incompatível com a unidade constitucional de cada
substância. O problema entre filosofia transcendental e geometria pode ser
resumido da seguinte maneira: o que é divisível ao infinito não pode ser
constituído por partes simples, colocando o problema de outra forma, o que é
divisível ao infinito não pode ser constituído por partes indivisíveis.
Ambas as
teses possuem uma incompatibilidade interna que as anulam. Porém, Kant e sente
capaz de resolver essa contradição sem sacrificar nenhuma das posições, isto é,
sem sacrificar a divisibilidade infinita do espaço sustentada pela geometria e a não
divisibilidade das substâncias simples como exigia a metafísica.
Segundo
Kant, o principal impedimento que levava a metafísica de Leibniz a não aceitar a
identidade entre espaços físico e geométrico, sustentada pela física
newtoniana, consistia no postulado de que toda divisão do espaço implica necessariamente
na divisão do corpo que o ocupa.
Para Kant, é possível a conciliação
entre metafísica e geometria, pois a tese da infinita divisibilidade do espaço
e a não divisibilidade das substâncias que o ocupam é perfeitamente compatível.
A solução kantiana do problema foi a postulação de que
a divisibilidade do espaço físico ao infinito não implica na divisibilidade das
substâncias simples.
O que
possibilita a conciliação kantiana das posições antagônicas entre a metafísica leibniziana e a física newtoniana é justamente a sua
concepção espacial defendida em 1746 na dissertação sobre as forças vivas e
retomada na Monadologia Física
Para
Kant, o espaço não uma substância, mas, sim, o fenômeno da ação dinâmica de uma
substância sobre outra, e sua divisão ao infinito não implica na corruptibilidade da unidade constitucional dos corpos
simples.
Em última
instância, o problema existente entre os seguidores de Leibniz e de Newton e
que também será o problema kantiano, diz respeito à natureza do espaço_
trata-se de saber se o espaço precede as coisas especiais ou se as coisas
espaciais precedem o espaço. Na juventude, como já enfatizamos, Kant adere à
concepção que afirma a precedência das coisas espaciais; mais tarde, assume a
posição contrária.
Da
relação entre espaço e as coisas espaciais depreendem-se duas conseqüências que
caracterizam o problema e apresentam sua estrutura interna: a) se o espaço
precede as coisas espaciais, o espaço constitui a condição da possibilidade da
existência dessas coisas; b) se as coisas espaciais precedem o espaço podendo
determinar seu ser independentemente de qualquer realidade absoluta, fora de
suas relações, as coisas espaciais são a condição da possibilidade do espaço.
Na
primeira conseqüência, o espaço é concebido como absoluto, uma instância que
precede as coisas espaciais e determina o seu ser. O espaço
absoluto, sendo a condição da possibilidade da existência das coisas espaciais,
é distinto das mesmas e, conseqüentemente, pode existir independentemente
delas. Na segunda conseqüência, o espaço é concebido como relativo, ou seja, o
espaço é a conseqüência da relação entre as coisas espaciais. Nessa
perspectiva, o espaço somente pode existir mediante a preexistência das
substâncias que estabelecem relações, constituindo o espaço.
Dessas
duas conseqüências originam-se as concepções leibniziana
e newtoniana de espaço absoluto e relativo, ambos concordam que o espaço físico
se distingue das coisas espaciais, porém divergem sobre sua natureza.
Os
partidários de Leibniz, possuindo interesses metafísicos, defendem a teste do
espaço relativo, posterior às coisas que o ocupam e a não identidade entre o
espaço físico e o geométrico. Já os partidários de Newton, possuindo interesses
físicos, defendem a tese do espaço real, absoluto, condição da existência dos
corpos e a identidade dos espaços físico e geométrico.
O
problema kantiano sobre a natureza do espaço coloca-se em estreita conexão
tanto com a concepção espacial dos leibnizianos como a dos newtonianos.
O espaço
concebido como um sistema de relações é defendido por Kant até a publicação do
opúsculo de 1768, intitulado Acerca do primeiro
fundamento da diferença das regiões do espaço. Nessa obra, o filósofo sustenta a tese de que
sem referência ao espaço absoluto não é possível explicar a existência de
contrapartidas incongruentes.
O
filósofo de Königsberg, defendendo a tese da precedência
ontológica do espaço sobre as coisas espaciais, aproxima-se da concepção
newtoniana do espaço absoluto, mas rejeita o seu caráter conceitual. Nesse
sentido, apesar de o espaço absoluto possuir características realistas,
aproxima-se da concepção de espaço defendida na Dissertação de 1770 e na Crítica da razão pura.
Portanto,
o problema kantiano sobre a natureza do espaço constitui uma grande discussão
filosófica para saber se o espaço é a condição da possibilidade da existência
das coisas espaciais ou se é a conseqüência de sua relação, desenvolvendo-se em
estreita conexão com a concepção espacial de Leibiz e
Newton, até ser concebido como forma a priori da
sensibilidade.
Luciano Rosset
Mestrando em Filosofia-PUC/SP
Bibliografia:
KANT,
Immanuel. Crítica da razão pura. Lisboa:
fund. Calouste Gulbenkin, 1985.
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La Monadologie physique (1756). In: Quelques opuscules précritiques.
Paris: Bibliothèque
des Textes Philosophiques, 1970.
PRADO,
Lúcio Lourenço. Monadologia e espaço relativo – o jovem Kant
recepcionando Leibniz. São Paulo.EDUC/FAPESP,
2000. (Col. Hipótese).
TORRETTI,
Roberto. Manuel Kant – Estúdio sobre los fondamentos de la filosofia critica. 2ª ed. Buenos Aires: Editorial Charcas, 1980