Deus e o homem segundo Sartre

O existencialismo sartreano sofreu influências de Husserl, Heidegger, Jaspers e Max Scheler, dentre outros, chegando até as obras de Kierkergard (1813 – 1855). Na nova atitude, o filósofo de carne e osso se inclui a si mesmo no pensar, que até então se propunha objetivamente e distanciado vivido.

Jean Paul Sartre (1905 – 1890), escreveu O Ser e o Nada, sua principal obra filosófica, em  1943. Mas em 1938 já havia publicado o romance A Náusea. Seu pensamento é muito conhecido e gerou, inclusive uma “moda existencialista”, também pelo fato de ele ter se tornado famoso romancista e teatrólogo.

Sartre revolucionou a compreensão de muitos conceitos. Abordaremos, hoje, algumas conceituações fundamentais para se compreender sua visão a respeito do homem. Segundo a concepção tradicional, a essência do homem precede a existência. Não é essa, no entanto, a posição de Sartre. E sendo ateu, não aceita a concepção de criação divina a partir de um modelo. Por isso especifica que, ao contrário das coisas e animais, no homem a existência precede a essência, e isso significa: “Que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e quer só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista (Sartre), se não é definivel, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro do existencialismo”. [1]³

Qual a diferença entre o homem e as coisas? É que só o homem é livre. O homem nada mais é do que o seu projeto. A palavra projeto significa, etimologicamente, ser lançado “adiante”, assim como o sufixo ex da palavra existir significa “fora”. Ora, só o homem existe, porque o existir do homem é “para si”, ou seja, sendo consciente, o homem é uma “ser-para-si”, pois a consciência é auto-reflexiva, pensa sobre si mesma, é capaz de pôr-se “fora de si”.

Portanto, a consciência do homem o distingue das coisas e dos animais que são “em si"” ou seja, como não são conscientes de si, também não são capazes de colocar “ do lado de fora” para se auto examinarem. O que acontece ao homem quando se percebe “para si”, aberto à possibilidade de construir ele próprio a sua existência? Descobre, que não havendo essência ou modelo para lhe orientar o caminho, seu futuro se encontra disponível e aberto, estando portanto de Dostoiévski em os Irmãos Karamazov: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, para relembrar que os valores não são dados nem por deus nem pela tradição: só o próprio homem cabe inventá-los. Se o homem é livre, é conseqüentemente responsável  por tudo aquilo que escolhe e faz. A liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de operar modificações no real.

O homem não é “em si”, ele é “para si”, que a rigor não é nada, pois se a consciência não tem conteúdo, não é coisa alguma. Mas esse vazio é justamente  a liberdade fundamental do “para si”, que, movendo-se através das possibilidades, poderá criar-lhe conteúdo. Eis que o homem, ao experimentar a liberdade,  e ao sentir-se como um vazio, vive angustia da escolha. Muitas pessoas não suportam essa angustia, fogem dela, aninhando-se na má-fé. A má fé é a atitude característica do homem que finge escolher, sem na verdade escolher. Imagina que seu destino está traçado, que os valores são dados; aceitando as verdades exteriores, mente para si mesmo, simulando ser ele próprio o autor dos seus próprios atos já que aceitou sem criticas os valores dados. “O ser humano não é somente o ser pelo qual se revelar negatividade no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si.” [2]

O homem sartreano é desamparado, sem presente, sem chão, voltado para o passado buscando um futuro a ser construído. Sua moral é da escolha, pois segundo Sartre: O homem é livre para agir, para engajar-se na luta pela vida da qual o próprio homem é contingente.

Diante de um período de descrença de valores, hipocrisia da burguesia, Sartre investiga que ele é, quem são os homens e qual o sentido da vida?

Para Sartre o homem vive de escolhas, e são através dessas escolhas, dependendo de qual escolha  fizer, é que o homem vai manifestar a sua presença dentro do mundo. O homem primeiramente existe, e durante o processo de sua existência, ele se torna e vai construindo a essência, ou seja, a existência precede a essência, a essência é um construtor humano. Com isso, Sartre quer dizer que o homem é uma construção que se faz mediante a liberdade, a qual é fruto da sua escolha. Quando nasce, o homem é nada. Não existem idéias inatas, anteriores ao surgimento do homem  e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. As idéias, o homem extraí de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência”.[3]

O homem deve ser inventado todos os dias, sintetiza Sartre.

É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser, escolha sua essência e busca realizá-la. É a escolha  que  faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha. Ao escolher, o homem escolhe sua essência e realiza.

Como se processa a aquisição dessa essência? Justamente  através das nações de projeto e de escolha, já mencionadas antes. Se o homem  primeiramente, não sendo nada a principio, se a idéia de Deus é eliminada, se cada instante o homem primeiramente existe, se cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe  criar valores sob os quais dirigirá sua vida. Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, conforme Sartre, não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através  da série de seus atos. Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada. O sucesso ou o fracasso dos atos do homem é sua obra; não lhe é permitido culpar os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.

O mundo é opaco. O homem é definido por suas ações, e o destino está em sua ação que permite que ele viva.

Quanto do cogito, Sartre diz que o ponto de partida não pode existir a obridade. A verdade absoluta é o fato do homem aprender a si mesmo ser um intermediário.

Quando o homem se descobre, quando ele se compreende, ele não se prostitui, pois à medida que se encontra, o homem também encontra o outro. A liberdade do homem começa onde  começa a do outro e não termina onde começa a do outro.

É no mundo que o homem descobre o que ele é e o que são os outros homens, então não é uma subjetividade de relações, mas de relação. A verdade  é dada pelo sujeito que pensa. Quando o homem se compreende, não o faz de maneira isolada, mas na relação com o outro. O homem não existe sem os outros homens (eu não existo sem o outro), e o humanismo é isso, um descobrindo o outro. Para Sartre os projetos humanos são diferentes, mas o que os torna iguais, é que existe uma universalidade entre eles e podem ser entendidos porque são maneiras de lidar com o mundo, de manifestar a existência dele e do outro no mundo. Podemos assim compreender toda a forma de cultura.

A coerência do homem está no momento que ele coloca os valores em vida e só depois é que ele pode julgar. Construímos nós mesmos, na medida que agimos, na media em que o ético se reflete na ação, onde aquilo que o homem é, aquilo que ele faz e não fala, e que seu discurso se não for referendado pela prática estará agindo de má fé. A ética só é realidade na ação, no viver, “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, a salvação esta na ação do homem”. [4]

O homem só acontece na vida moral, escolhendo a uma moral. Ao buscar um projeto que esta na possibilidade de superação de si próprio é que o homem se realiza.

Para Sartre o homem vai além, superando-se. O existencialismo não é

um ateísmo engajado que se preocupa, mediante a ação do homem que se preocupa em provar a não existência de Deus, mas  que se preocupa mediante a ação do homem que é o humanismo. O existencialismo é uma moral da ação, porque considera a única coisa que define o homem, é o seu ato. Ato livre por excelência,  mesmo que o homem sempre esteja situado em determinado tempo ou lugar. Não  importa o que as circunstancias fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.[5]

Para Sartre o importante não é se Deus existe ou não, mas sim entender e compreender o homem e sua humanidade em seu existir no mundo, mediante a sua ação frente a si e ao outro.

 Paulo Leandro Maia

Mestrando em Filosofia –PUC/SP

 



[1] CF SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um Humanismo, pág. 216

[2] CF SARTRE, Jean Paul. O ser e o Nada, pág. 92

[3] PENHA, J. da, O que é Existencialismo, pág.63

[4] CF Evangelho de Matheus, cap. 25 , 31

[5] CF Filosofando, pág. 308