Artigo
A superação da metafísica no
horizonte heideggeriano
Heidegger é o pensador por excelência
da crise da metafísica. Para o mestre alemão, é na filosofia moderna que a
metafísica atinge seu termo final, cujo tom é marcado pelo subjetivismo, do
qual o idealismo hegeliano é a expressão consumada. Destarte, sob a batuta
heideggeriana, faz-se mister enunciar a insuficiência da metafísica no
que concerne à questão mais pungente da filosofia, ou seja, aquela referente ao
Ser – neste sentido, a metafísica não passa de uma teoria do ente esquecida do
Ser.
Portanto, a história da metafísica,
aos olhos de Heidegger, pode ser vista como o desenrolar do esquecimento do Ser,
posto que sempre se pensou o Ser como mais um ente. Aliás,
note-se que a própria história do Ocidente, com todos os seus fenômenos, decorre
da metafísica, ou seja, é resultado de uma maneira específica e peculiar de
interpretação da relação entre o Ser e o pensar, logo, da forma como o homem
ocidental interpreta a si mesmo. Ora, a idéia dominante sobre o que seja a
relação entre Ser e pensar acabou por plasmar as concepções culturais do
Ocidente, fato que, segundo o mestre da Floresta Negra, tem sua expressão
consumada na técnica e na avassaladora cientificação do homem e do mundo. A
superação deste estado de coisas poderia ter lugar quando o Ser fosse
visado como o que não-é, ou seja, como um não-ente. Entretanto,
diz-nos Heidegger, o esquecimento volta a se fazer presente devido ao fato de
que o Ser é a condição mesma do aparecimento dos entes, e,
portanto, enquanto tal, o Ser não se dá senão indiretamente. O que
desvela acaba por se velar. Ora, o que permanece velado não é este ou aquele ente,
mas precisamente o Ser dos entes – alvo da interrogação da
filosofia de Heidegger. Enfim, o velar e o desvelar do Ser estão na base
de todo questionamento filosófico que procura pelo fundamento do ente na
totalidade.
Vê-se logo, então, o empenho heideggeriano na
luta contra a tradição: somente após o esforço de destruição da metafísica da
tradição e sua compreensão “substancialista” da realidade, pode-se investigar a
gênese do real desde seu puro movimento de aparecimento. O real nos aparece,
desde sempre, como uma série de entes em movimento constante de Ser,
isto é, sendo. Todavia, isso não significa que Heidegger pretenda reduzir
às cinzas toda a filosofia que o precedeu. Bem ao inverso, trata-se antes do
permanente questionamento das interpretações passivamente transmitidas pela
tradição – portanto, não se pretende aqui cortar a filosofia de seu passado,
mas assumi-lo positivamente, através de um questionar que, despertando-o como
possibilidade, o re-atualiza, sem o considerar como matéria inerte e encerrada
em si mesma. Desse modo, a tradição da filosofia, vista sob o aspecto do
acontecer da história do pensamento, não se paralisa em um passado que já não
mais diz respeito ao modo como vivemos. Assim, superação da metafísica em
Heidegger compreende, antes de tudo, a tematização entre Ser e ente e sua pertinência
no que se refere à clareira, ou abertura, na qual o Mundo se dá. A amplitude da
questão sobre o ente, com efeito, precisa conduzir-nos à profundidade da
questão sobre o Ser. Sob esta perspectiva, é pelo questionar-se que se abrem as
possibilidades de Ser do Dasein [1]
( o Ser-aí, isto é, o próprio homem ) – entendido como o lugar de manifestação
do Ser. Em Heidegger é justamente através da questão que interroga pelo sentido
do seu ser que o Dasein compreende o seu modo de ser fáctico – ou
seja, sua ausência de fundamento de existência –, no qual se encontra sempre já
lançado ao Mundo a partir de suas possibilidades de ser expressas.
Assim, a partir da constatação de
que nunca o pensamento ocidental conseguiu resolver a questão do Ser, Heidegger
pôde também afirmar que a filosofia jamais chegou a compreender seu próprio
fundamento. Ora, é exatamente no interior desta perspectiva que se situa o
pensamento de Heidegger: a sua procura em direção à vizinhança do Ser
reveste-se de caráter fundamental para a recuperação do próprio fundamento do
“filosofar”. Dessa forma, a inflexão heideggeriano em busca do fundamento do
Ser visa, sobretudo, remediar a concepção – mais histórica que filosófica – de
seus antecessores. Para tanto, urge operar uma distinção entre o Ser e o
ente. Na clareira deste itinerário sui generis, vê-se o próprio
homem, revelado enquanto lugar privilegiado de manifestação do Ser. Em
Heidegger, o Ser manifesta-se ou apresenta-se no ente, mas não o ente
apreendido como coisa em si, e sim no ente visto enquanto “coisa”
em meio ao mundo – tem-se aqui o momento da instauração de uma ontologia a partir
da fenomenologia husserliana: se, para a ótica fenomenológica, há uma
coincidência entre Ser e aparecer, isso significa, antes de tudo, que o Ser
pode ser perscrutado, manifesto e expresso no horizonte existencial de seus modos-de-se-ser-no-mundo.
Trata-se, então, de se perguntar acerca do modo-de-ser-no-Mundo do
homem, ou seja, as condições ontológicas sob as quais lhe é possível apreender
e expressar as coisas com as quais se defronta.
André Yazbek
Mestrando em Filosofia- PUC/SP