Artigo
Filosofia e Ótica
À
primeira vista, o leitor deste artigo pode ficar atônito ao se deparar com um
título que possua a pretensão de relacionar a ótica com a filosofia. Como é possível a ótica com suas
leis matemáticas e rígidas leis físicas, ter alguma espécie de vínculo
com uma área do conhecimento responsável, entre outras coisas, por refletir a
política, a arte e a sociedade em que vivemos? Será factível detectar um elo
entre ambos terrenos do conhecimento humano?
Não é fácil desfazer a
concepção corrente de que a ótica somente se confine à física ou a matemática,
mas podemos iniciar a discussão a partir do ponto de que a matemática e a física
são partes integrantes da filosofia.
Lembremo-nos das intensas
querelas entre Aristóteles e Platão em torno do uso excessivo da geometria como elemento explicativo para
interpretar os fenômenos naturais. Entretanto Aristóteles procura dar
importância aos entes matemáticos quando menciona fortemente a presença destas
entidades na astronomia. Nos Segundos Analíticos Aristóteles “argumenta
que certas ciências, tais como astronomia, ótica e harmônica, são subordinadas
à matemática”. (1)
Deste modo, a citação de
Aristóteles acaba por revelar justamente a intrínseca rede de dependência entre
as ciências. Já na Idade Média esta subordinação epistemológica ganhará a denominação
de ciências intermediárias em São Tomás de Aquino. Destarte, um raio de
luz pode ser entendido como uma reta, noção oriunda da geometria.
Contudo, a preocupação
dos filósofos da antiguidade clássica com a ótica é muito forte, principalmente
concernente à visão. Em outras palavras, algumas vertentes filosóficas procuravam
dar suas interpretações de como a imagem de um objeto se projetava para os olhos.
Surgem, assim três correntes filosóficas bastante definidas na antiguidade
clássica:
1.
Extramissionista – Aquela que sustentava a existência
de raios projetados pelos olhos, captando a imagem do objeto observado.
2.
Intromissionista – Esta defendia a concepção de que
raios saíam dos corpos em direção aos nossos olhos.
3.
Combinação das duas teorias precedentes –
Esta nova doutrina buscar defender a idéia de que raios são tanto
lançados pelos olhos quanto pelos objetos. No meio do caminho se dá a formação
das imagens, a partir do cruzamento das duas imagens.
As três teorias serão
colocadas em questionamento quando surge no cenário cultural medieval, um
matemático chamado Ibn Al Haitham,
denominado pelos latinos como Alhazen.
Segundo o matemático
árabe, se a visão depende exclusivamente da projeção de raios para que algo
possa ser enxergado, então, desta forma, por qual motivo não observamos nada ao
nos encontrarmos em plena escuridão? Entretanto, Alhazen
não se limitou a realizar uma crítica à teoria dos raios visuais, passa a
indagar de que material são produzidos estes raios.
“Ora, diz Alhazen, se eles são feitos de substância material, podemos
constatar que eles podem ferir os nossos olhos, no momento em que são lançados
dos órgãos visuais”.
A partir deste instante, Ibn Al Haitham, fornece inúmeros
exemplos para tornar cada vez mais claro o fato de que são as imagens das
coisas é que penetram em nossos olhos, não havendo nenhuma possibilidade de
ocorrer o contrário. Um dos exemplos usados por ele é aquele em que descreve o que
acontece com as nossas vistas quando olhamos exaustivamente para o sol. É fácil
constatar que pouco tempo depois há uma geração de ardor e desconforto em
nossos olhos. Portanto, este exemplo evidencia que para se garantir a produção
da visão, não é necessário reiterar ou mesmo defender a existência de raios visuais.
É claro que Alhazen não foi o único matemático ou pensador do Islão a trabalhar com as questões da ótica. Alkindi e Alfarabi, partindo dos
trabalhos de Alhazen, desenvolvem e executam a concepção
de que para cada ponto do objeto visto há uma correspondência com a retina.
Desta maneira, fica evidente que se observo diretamente uma bola de futebol, cada
parte desta bola está dividida em tantos pontos que estão interligados com
pontos da minha própria retina, formando, assim, o objeto integralmente no
órgão visual, garantindo a percepção do objeto. A importância dos trabalhos
árabes em ótica foi de fundamental importância, pois acabaram por influenciar
uma série de outros pensadores ocidentais europeus como, Kepler, Descartes e Snell.
Paulo César Gomes de Souza
Mestrando
em Filosofia e História da Ciência-Unicamp