Artigo Página 8
A
Categoria da Negação em Jean-Paul Sartre
Afirmar que
toda a consciência é intencional – ou seja, que “toda consciência é consciência
de alguma coisa” – significa, antes de tudo, que ela se constitui originalmente
enquanto absolutamente “vazia” de todo o conteúdo, salvo
aquele referente ao objeto transcendente intencionado atualmente. Tal
transcendente emerge, para a consciência, com o signo daquilo que ela não é – o que implica, a cada instante,
uma ruptura com o Ser, ou, mais precisamente, o surgimento de uma nadificação no
seio do Ser. Conforme o traçado de Sartre, afirmar que a consciência é
intencional equivale a aceitar o postulado de que, de todo o modo, tal
consciência jamais lograria êxito em pactuar-se com aquilo que lhe é exterior,
que está além dela, a não ser postando-se, inicialmente e para si mesma, fora do Ser. Na medida em que uma única consciência
particular surge no âmago do Ser afirmando-se como não sendo nada daquilo que é o Ser, o mundo se mostra no horizonte
de todas as consciências como sendo
tudo aquilo que elas não são – assim, pode-se dizer que o mundo é
humano, posto que ele é para o homem seu sentido de transcendência. A
consciência está apartada do mundo por um Nada
– donde o postulado de sua liberdade enquanto característica ontológica:
liberdade é indeterminação absoluta, é a possibilidade que tem o homem de
produzir o Nada que o isola da
transcendência; é o Nada que se
insinua entre os motivos e os atos praticados. Logo, o que caracteriza a
consciência é esse Nada que a separa
de si e do mundo, ou seja, esta distancia do Ser. Esse Nada, diferentemente do Ser ( que é ), é algo que não é,
não existe positivamente. Ora, eis o ponto: contaminada pelo Nada, a consciência apresenta-se, ao
contrário do Ser, como plena negatividade.
A consciência é o Nada que invade o
Ser e provoca uma abertura em seu miolo, colocando-a à
distância de si mesma e do mundo, conferindo-lhe, assim, a possibilidade de
interrogação – própria da negatividade
proveniente da não-coincidência consigo mesmo.
Se, com efeito,
Sartre dedica grande parte das páginas iniciais de “O Ser e o Nada” à questão
da negatividade, isso não ocorre por um mero capricho seu. Bem ao contrário, o
significado da experiência negativa
é, para o nosso autor, pedra de toque na consecução de suas análises acerca da
consciência – que consiste em partir de um plano descritivo e fenomenológico
que será abandonado paulatinamente em favor da busca dos fundamentos daquilo é
investigado; tal procedimento, em “O Ser e o Nada”, não está circunscrito a
analise do ser da consciência, mas é generalizado. Dito de outra forma: as
análises fenomenológicas de Sartre têm um caráter regressivo – posto que é a
partir da descrição de certas experiências que se pretende atingir aquilo que
torna possível tais experiências. Cumpre-se assim, por exemplo, um itinerário
que se inicia na experiência fenomenológica das negatividades e que será a via de acesso até a busca da
fundamentação ontológica do Nada –
fundamento do Ser da consciência, ou seja, do Ser Para-si. Vê-se logo, então, a
importância que adquire a análise das negatividades
para a busca de fundamento do Para-si. Evidentemente, a negação é apenas uma
dentre as diversas modalidades particulares do comportamento humano. Não
obstante, porém, é a partir dela que Sartre procura afirmar a presença perpétua do não-ser em nós e fora de nós. Ainda
mais: o homem toma atitudes negativas
em relação a si mesmo – e é exatamente essa, para Sartre, a experiência
fundamental que condicionará suas análises sobre a realidade humana. Trata-se,
então, de desvelar o fundamento condicionador de tais atitudes negativas e, conseqüentemente, atingir
sua dimensão ontológica. Nesse sentido, Sartre afirma que a realidade humana é
uma “totalidade inacabada de negações”, posto que sua presença diante do Ser é negação concreta, que deve ser superada em seu movimento de
ultrapassagem a si mesma em direção àquilo que ela vem a ser.
André Constantino Yazbek
Mestrando em Filosofia / PUC-SP