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O Problema do mal na visão de Paul Ricoeur
A principal característica
das obras de Paul Ricoeur é a busca por explicações
sobre a origem e o objetivo do mal, que inevitavelmente afetam todas as
pessoas, sejam merecedoras diretas ou
não. Essa busca se faz tanto no meio de grandes pensadores que desenvolveram
conceitos filosóficos que auxiliam uma compreensão mais clara, como no meio de uma cosmo visão mitológica que permeia a humanidade desde os
seus primórdios.
Ricoeur desenvolve uma boa
comparação dos mitos que auxiliaram a
humanidade, e fazem tal papel até hoje,
com o desenvolvimento dos conceitos filosóficos sobre a existência do mal e de
sua possível origem. A questão mais polêmica se fixa na possível contradição
entre a onipotência e máxima benevolência de Deus com a existência e até mesmo
com a autoria criadora do mal.
Infelizmente, Ricoeur não
discorre claramente, conceituando de forma especifica, sobre o homem, na sua
visão; o que existe é um estudo de suas condições como ser que sente, que
pensa, que sofre e que tem o direito a ser feliz, evitando assim, todo o mal
por seus próprios méritos e ações.
A busca por explicações mais
convincentes sobre o que é o homem, qual é sua origem, qual sua finalidade,
perdura desde o inicio do que conhecemos hoje como povo civilizado. Esses
questionamentos despertaram o interesse
de muitos pensadores que levaram as suas especulações ao mais alto nível
do pensamento filosófico.
Antes de traçarmos uma linha
norteadora do nosso raciocínio sobre o assunto, convém indagar o porquê de tão
elevado interesse do homem em ficar sabendo de suas origens e de seu destino.
Será que o interesse pelo seu destino ocupa mais os interesses dos homens em
relação às suas origens? E porquê?
Qual o papel de Deus e do
homem na responsabilidade de ter construído o passado e definir o futuro? Creio
que a grande preocupação do homem diz respeito ao seu cotidiano, pois é nele
que passa a existir determinadas situações que delimitarão o seu futuro; são
situações que podem reforçar até mesmo seu receio quanto ao porvir, ou
justifica-se na suas origens, Essa fragmentação quando assume o caráter
temerário pelas pessoas, não pode ser melhor
representado do que o é pelo MAL.
Segundo Paul Ricouer, tudo aquilo que o homem não conseguiu
racionalmente explicar foi justificado na criação de um mito. É uma definição
muito superficial mas poderá nos ajudar
no desenrolar desse raciocínio. Precisamos entender o mal e conseqüentemente o
seu oposto, o bem; este gera prazer, ao contrário da dor, e o homem gosta do
prazer; dessa forma podemos nos aproximar da visão de Paul Ricoeur
sobre o homem.
Conforme defende o autor, o
homem que é um ser racional, justifica, ainda assim, muita coisa nos mitos que
representam o seu devido papel. Então, temos a criação divina e a razão
protagonizando o primeiro confronto de contradições do homem, segundo as
impressões de Deus no mundo ocidental. Este Deus aparece como uma figura
absoluta, onipotente e benevolente; sendo assim, não se consegue encontrar uma
justificativa lógica que viabilize a criação do mal por parte de Deus. Como se
justifica a existência do mal? Como devemos superar essa contradição?
A função do mito, consoante
se depreende das obras de Ricoeur, que explica as
origens do mal, é bem exercida em relação ao geral, ou seja, às questões
universais e não satisfaz as necessidade individuais,
aquele mal sofrido que cai sobre as costas de cada um, sem a menor explicação.
Santo Agostinho, aliás, dá uma dimensão moral ao mal como resultado direto de
algum mal cometido pela pessoa, como resultado de um desvio moral. Seria
satisfatório se existisse só esse tipo de mal como resultado direto de nossas
faltas, pois a responsabilidade seria direcionada e geraria uma mudança de
conduta. Mas não podemos esquecer do mal como involuntário que gera sofrimento
teoricamente injusto. Como explicaríamos o mal na forma de uma doença de
nascença, ou alguém que sofre algum tipo de acidente onde não houve a sua participação?
Para melhor definição,
ressaltamos que, para Ricouer, o mal moral define o
que torna a ação objeto de imputação, de acusação e de repreensão. A imputação
consiste em consignar a um sujeito responsável uma ação suscetível e apreciação
moral. A acusação caracteriza a própria ação como violação do código ético
dominante. A repreensão designa o juízo de coordenação, em virtude do qual o
autor da ação é declarado culpado e merece ser punido. Dessa forma o sofrimento
passa a ser infligido.
Além disso, notamos a inversão dos papéis causada
pela repreensão, a culpa de algum erro cometido, quando sofre a devida pena,
faz com que o culpado comece a se sentir como vítima, seja do sistema ou até
mesmo de Deus. Essa característica como efeito direto da repreensão é muito
comum, mas não ignoramos que o mal
consiste, sempre, direta ou indiretamente, em prejudicar o outro; dialogicamente falando, o mal cometido por um encontra sua
réplica no mal sofrido por outro, o que torna o sofrimento muito maior. A troca
de papéis do homem em relação ao mal é constante; o ser culpado é o ser vítima.
Acrescendo um questionamento do próprio autor: "Se a punição é um sofrimento reputado e merecido, quem sabe se todo o
sofrimento não é de um modo ou de outro a punição de uma falta coletiva
conhecida ou desconhecida?"
Paul Ricoeur,
cumpre-nos dizer, enfim, desenvolve suas
considerações sobre o tema cujo método vai das mais elevadas
considerações filosóficas às mais básicas expressões representadas pelo mito.
Dessa forma, o autor nos dá uma saída; o problema do mal não é apenas um
problema especulativo, exige a convergência entre pensamento, ação moral e
política e uma transformação espiritual de sentimentos. Portanto, ele coloca a
plena felicidade como algo a ser construído pelo homem, com seu esforço e com
sua vontade.
Paulo Leandro Maia
Mestrando em Filosofia -PUC/SP
BIBLIOGRAFIA
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RICOEUR,
Paul, O Mal, Um desafio à filosofia e à teologia. Tradução: Maria Piedade Eça
de Almeida. Campinas, Papirus, 1988.