Artigo
Matéria e Forma na Estética Musical
A música, a partir de sua forma, constitui-se
de uma sintaxe de notas musicais ordenadas em determinada disposição. É assim
que a música se expressa chegando ao nosso sentido auditivo, o qual capta o som
(que é o ruído que impressiona nosso ouvido) possibilitando, por conseguinte,
um sentimento estético.
Tal sintaxe é a ordem presente na
música, isto é, o encadeamento de sons que se unem harmoniosa e melodicamente.
Mas é um fator importante mencionar aqui que tal ordem não é necessária, pois,
caso contrário, esta arte estaria comprometida a alguns pressupostos deterministas.
A música é arte e, por isso, o importante é a capacidade de criação do artista,
sendo que, se ela possuísse regras ou leis necessárias, esta capacidade
criativa estaria condenada.
Mas como é suscitado em nós esse sentimento
estético? Seria a forma (sintaxe) em que as notas estão dispostas numa
composição ou o próprio som das notas por si mesmas (semântica) que o revelam?
Por exemplo, a nota “sol” revela algo para uma pessoa e a nota “lá” não. Por
isso, se essa pessoa ouve uma composição em que a intenção seja “sol” (ou seja,
que predomine a nota “sol”), haveria tal sentimento e em outro caso, não. Neste
sentido, temos uma “contemplação” material (semântica) e não formal (sintaxe).
Na semântica musical, a expressão das
notas se dá, principalmente, no que concerne aos instrumentos musicais. Ao
tocar um “fá” no piano, é claro que esse mesmo “fá” tocado num violino será
materialmente diferente. No entanto, se ouvimos a “9ª Sinfonia” de Beethoven
numa orquestra sinfônica e a mesma sinfonia num conjunto de jazz, mesmo que
haja outro arranjo, outros tons, bem como outros instrumentos, será a mesma
sinfonia, ou seja, sua forma (sintaxe) mantém-se inalterada. Contudo, no que
concerne à matéria, tem-se outras notas e, claro, outros instrumentos e,
portanto, outra sonoridade. Mas apesar de todos esses aspectos que diferenciam
o modo de execução de uma mesma sinfonia, não a confundimos com outras, sabemos
que é a mesma “9ª Sinfonia” de Beethoven.
Desse modo, a possibilidade do sentimento
(bem como do prazer) estético se dá através da matéria e da forma da composição
artística (nesse caso, uma obra musical). Considerando a música como a arte de
combinar sons de maneira agradável ao ouvido, é preciso, para se compor uma
obra musical, uma sensibilidade auditiva que estabeleça uma harmonia
materialmente satisfatória. Para tanto, é necessário que o artista estabeleça
uma relação com a matéria e não apenas com a forma da música, pois uma união apenas
formal entre as notas pode não atingir a esperada combinação. Assim sendo,
podemos dizer que a forma artística se efetiva “a posteriori”:
somente após a experiência sensível da matéria (a agradável combinação dos sons
ao ouvido) é que podemos criar a
estrutura formal da obra musical. É possível ainda dizer que quando ouvimos a
composição (a união da matéria e da forma), sentimos ou percebemos a ordem
(sintaxe) a partir da combinação material das notas musicais (semântica)
estabelecidas pelo artista.
Observando a história da música,
constatamos que as mudanças ocorridas ao longo do tempo referem-se à matéria e
à forma, isto é, mudanças nas construções harmônicas e melódicas, bem como nos
instrumentos musicais (timbres) e nos efeitos sonoros (como o eco). Na Idade
Média freqüentemente encontramos composições com intervalos de terças e sextas
(característica formal). No período clássico, o cravo é substituído pelo piano,
o que caracteriza uma mudança material nas obras musicais. Atualmente, temos um
número muito maior de instrumentos musicais, bem como de recursos de efeitos
sonoros, o que implica na diversidade dos muitos estilos musicais. A
pluralidade da estrutura formal, com dissonâncias e improvisações, também é
contribuinte para o alargamento desse leque de estilos.
Mas o sentimento estético nos é
suscitado, primeiramente, pela matéria ou pela forma da obra? É interessante
citar Platão que, no livro III da República,
diz que os modos harmônicos determinam certos sentimentos, tal como a coragem.
Isso quer dizer que os intervalos de certas notas (formador dos modos), ou
seja, a forma, causam alguns sentimentos. Benedito
Nunes, em Introdução à filosofia da arte,
diz: “Platão relaciona determinados modos
harmônicos com determinados sentimentos e qualifica os ritmos pela escala moral
das atitudes. Há ritmos que imitam a baixeza e o desregramento, existem
harmonias patéticas, melancólicas e lânguidas, como há as entusiásticas, energéticas
e marciais. (...) a forma das combinações de sons
corresponderia à forma característica do entusiasmo, da tristeza, da
melancolia, etc.”.[1]
Novamente Benedito Nunes, ao
analisar a matéria segundo Gilo Dorfles,
ressalta que: “A matéria lhe opõe resistência,
mas no sentido dialético: ao mesmo tempo dificultando e possibilitando a
expressão. O artista necessita dominá-la para exprimir-se e só se exprime na medida
em que a domina. Ela é, na verdade, meio expressivo,
possuindo, como tal, valor maiêutico.”[2]
E citando também, Suzanne Langer nos aponta que: “... o formal em arte não é uma estrutura
vazia, abstrata, onde vem residir um conteúdo concreto.”[3]
Apesar da forma possuir grande
importância em suscitar o sentimento estético, a matéria mediante a qual ela é
expressa também é ponto fundamental. A matéria condiz aos meios de execução da
forma (notas, timbres, instrumentos musicais - a troca do cravo pelo piano na
época clássica, por exemplo). Mas fica difícil aferir qual dos elementos
(matéria ou forma) é primeiramente percebido pelo nosso sentido propiciando o
sentimento estético. Ao escutarmos uma música com notas graves, tais notas
podem nos suscitar um sentimento antes mesmo de percebermos sua forma
(harmonia). O simples fato das notas serem graves nos suscita algo. O mesmo
acontece com a forma: não importa qual o timbre ou a tonalidade, mas, sim, a
disposição intervalar das notas na música.
No âmbito da Estética, as questões
referentes à matéria e forma encontram-se discutidas em duas correntes: o conteudismo e o formalismo. A primeira aponta a forma
como um revestimento de uma idéia. A segunda condiz à “afirmação da auto-suficiência estética da forma.”[4]
Para esta última corrente, a forma possui um efeito imediato sobre a
sensibilidade e, por isso, se sobressai à matéria.
É nesse sentido que concluímos que a
apreciação estética que nos conduz a gostar de determinada música ou estilo
musical se realiza, principalmente, através da forma (sintaxe) pela qual ela é
construída. As notas musicais ou os instrumentos em que elas são executadas são
os meios necessários através dos quais percebemos sensivelmente essa construção
artística. No entanto, seria uma pretensão apontar apenas a forma como causa do
sentimento estético na música, é o encontro
de ambas, matéria e forma, que permite uma apreciação estética da obra
musical.
Vanice Ribeiro
Bacharel em Filosofia/Unisantos