Artigo
A Possibilidade de
conhecimento em Kant: Fenômeno x Noumeno
Retomemos a questão kantiana exposta na primeira parte
deste artigo: por quê, afinal, é possível o conhecimento a priori na
mecânica de Newton e não na Metafísica ?
Conhecimento a priori significa um tipo de
conhecimento que envolve necessidade. Ora, algo é necessário quando sua negação
é impossível ou implica contradição. Um exemplo clássico seria o enunciado “o
triangulo tem três lados”. Trata-se de um enunciado logicamente necessário porque
se eu o nego produzo uma contradição, ou seja, afirmo e nego algo ao mesmo
tempo – afirmar que “o triangulo não tem três lados” é afirmar que uma
figura de três lados (o triangulo) não tem três lados; figura de três lados,
com efeito, é a própria definição de uma triangulo, o que torna a afirmação “o
triangulo tem três lados” uma necessidade lógica. Os princípios lógicos não são
mais que os princípios da razão pura. Portanto, apoiado exclusivamente
na razão pura, eu posso fundar o conhecimento necessário do ponto de
vista lógico formal, ou seja, posso produzir um tipo de conhecimento a
priori. Entretanto, o conhecimento que a metafísica pretende obter pela razão
pura não é um conhecimento necessário do ponto de vista lógico-formal.
Deste modo, podemos entender porque a física e a matemática obtêm sucesso onde
a metafísica só acumula fracassos: as primeiras estão calcadas no conhecimento
lógico-formal, enquanto a segunda não está. Além disso, a ciência
físico-matemática é capaz de um conhecimento necessário que se funda também na
experiência: a partir de leis necessárias e universais, estas ciências unem
experiência e razão e, desse modo, conseguem explicar com segurança seus
fenômenos. Não é de se estranhar, portanto, que Kant tenha adotado por tipo de conhecimento
o aspecto do conhecimento que se havia tornado familiar à física de Newton:
duma parte, uma série de experiências esparsas; doutra, um conceito ou lei que
o espírito descobre e que cria a ligação ou unidade entre as experiências. Para
melhor circundar a questão, voltemos a Hume.
Kant considera fundamental o questionamento proposto
Hume, e, para melhor enfrentá-lo, considera que o conceito de causa não decorre
da experiência, mas é uma capacidade que o homem possuí a priori. O
conceito de causa, entre outros, seria uma forma de pensamento que o homem
possui a priori, cujo uso correto, no entanto, só se dá no interior da
experiência. Dessa forma, o pensador prussiano acaba por se opor também a
Descartes, Leibniz e Wolff, que colocavam a causa dos fenômenos numa
inteligência divina. Grife-se com atenção: para Kant é o homem, e não um ser
superior, o princípio da explicação. Eis aqui a “revolução copernicana”,
efetuada por Kant, a propósito de sua investigação da razão: assim como
Copérnico, que havia afirmado que o centro do universo é o sol e que os
planetas giram ao redor deste, Kant irá afirmar que se deve colocar no centro
da questão acerca do conhecimento não os objetos e/ou a realidade objetiva, mas
sim o próprio sujeito do conhecimento, ou seja, a própria razão. Uma coisa
existe quando pode ser posta pelo sujeito cognoscente, entendido não como um
sujeito individual (João, Maria, Pedro, etc...), mas como sujeito universal ou
estrutura a priori universal da
razão humana, aquilo que Kant denominará de Sujeito Transcendental –
comecemos, portanto, pelo sujeito do conhecimento. E comecemos mostrando que
este sujeito é a razão universal, é o sujeito conhecedor. Em outros termos:
Kant transfere a preocupação com o mundo como objeto da ciência para o homem
enquanto capaz de fazer ciência no mundo. Ao buscar e explicar a capacidade do
entendimento humano, Kant associa homem e mundo na explicação científica – no
processo de conhecimento, as condições humanas a priori se vinculam à
experiência, o que impede que o sujeito do conhecimento se anule frente ao
objeto que deve ser conhecido. Além do objeto que deve ser conhecido, que é
fundamental para a produção do conhecimento por desencadear a ação na qual o
sujeito cognoscente deve se referir, é imprescindível também a participação do
sujeito ativo que pense.
Eis o ponto nevrálgico: Kant funda a possibilidade do
conhecimento a priori no próprio sujeito do conhecimento, no próprio
sujeito cognoscente – ora, se partirmos da suposição que o sujeito, no ato de
conhecer, é totalmente passivo e limita-se a receber um objeto dado, que existe
em si mesmo e é independente do ato de ser conhecido, então é impossível
explicar como o conhecimento a priori é possível. Isso era exatamente o
que faziam os antecessores de Kant, fundavam a nossa possibilidade de conhecer
o mundo em uma instância superior, por exemplo Deus, e, desse modo, faziam do
ato de conhecer algo exterior ao próprio sujeito do conhecimento. Kant inverte
os termos da equação, posta o sujeito cognoscente como centro do processo de
conhecimento e faz com que o objeto gire em torno dele. Pois bem: a única forma
de explicar a possibilidade do conhecimento a priori é admitir que o
sujeito não é passivo no ato de conhecer o objeto e que, portanto, pelo menos
em parte, esse sujeito cognoscente colabora na constituição do conhecimento do
objeto. O conhecimento a priori é possível se admitirmos que o sujeito
só pode conhecer a priori aquilo que ele mesmo “produz” ou que depende
de algum modo dele. Inversamente, diremos que ele não pode conhecer a priori
aquilo que ele não “produz” ou que não dependa dele. Em outros termos: o
sujeito só pode conhecer a priori aquilo que depende do seu conhecimento
e não ao contrário, ou seja, aquilo que existe de forma absolutamente independente
de seu conhecimento.
Retomemos agora nossa questão: como são possíveis
conhecimentos a priori acerca das ciências físico-matemáticas e não são
possíveis conhecimentos a priori acerca da metafísica ? Eis a resposta
kantiana: o sujeito pode conhecer a priori unicamente os fenômenos,
mas não as coisas em si, ou seja, em linguagem kantiana, os noumenos.
O centro da argumentação é o seguinte: uma coisa é a realidade tal como ela é,
e outra coisa é a maneira como essa mesma realidade aparece diante de mim
enquanto sujeito do conhecimento. A realidade, tal como ela é, em sua essência
(noumeno) é incognoscível, ou seja, não podemos conhecê-la. Contudo, eu
posso conhecer o modo como ela me aparece (fenômeno), posto que o modo
de seu aparecimento não dependerá só dela, mas de mim também. Portanto, jamais
conhecemos as coisas em si (noumeno), mas somente tal como elas nos
aparecem (fenômenos).
Vejam bem, a física e a matemática se ocupam
unicamente com os fenômenos, e, portanto, podem produzir conhecimento a
priori; a metafísica, por seu turno, ocupa-se unicamente com as coisas em
si, com o absoluto, enfim, com o noumeno, e, por essa razão, é
incapaz de produzir conhecimento a priori.
Kant apresenta-nos, com isso, uma nova relação entre
sujeito e objeto no processo de conhecimento. Em Kant, o objeto é
necessariamente submetido ao sujeito: “/.../ o fenômeno é aquilo que de modo
algum pode encontrar-se no objeto em si mesmo, mas sempre na sua relação com o
sujeito sendo inseparável de representação do primeiro”.1 Ou ainda:
“/.../ toda a nossa intuição não é senão a representação do fenômeno; /.../ as
coisas que intuímos não são em si mesmas tal qual as intuímos, nem as suas
relações são em si mesmas constituídas do modo como nos aparecem”.2 O
sujeito é o centro. O conhecimento tem validade objetiva no que se refere ao fenômeno,
pois se trata de uma regra que vale universalmente para todos os homens, mas
não tem validade objetiva no que se refere à coisa em si. Deve-se levar em
conta ainda que, para Kant, o noumeno não é dado à sensibilidade, aos
sentidos, nem ao entendimento, mas é afirmado pela razão sem base na
experiência e no entendimento. Mais uma vez: se o noumeno é aquilo que
nunca se apresenta à sensibilidade nem ao entendimento, mas é afirmado pelo
pensamento puro, não pode ser conhecido – logo, se o noumeno é o objeto
da metafísica, então ela não é um conhecimento possível.
André Constantino Yazbek
Mestrando em Filosofia-PUC/SP
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1 e 2 KANT, I. “Crítica
da Razão Pura”. In: Kant. São Paulo, Abril Cultural, 1983, col. “Os
Pensadores”.