EditorialTelevisão:
Informação ou Desinformação?
Quando a
televisão apareceu aqui no Brasil, foi um sucesso! Logo, os mais apressados
decretaram o fim do rádio! Nas propagandas de revistas dos anos quarenta, era
comum a família reunida ao redor do rádio escutando programas. Mas o quadro foi
alterado com a tal telinha que transmitia imagens ao vivo. No início, porém, o
acesso foi difícil, pois nossa pouca industrialização não permitia uma massiva
implantação do produto da novidade comunicativa.
Foi nos países industrializados que
as mudanças logo foram sentidas e os aperfeiçoamentos também, para o mal e para
o bem (se isso é possível). Herbert Marcuse, filósofo
alemão contemporâneo, exilado nos Estados Unidos desde o período da II guerra
mundial, foi um dos primeiros a refletir criticamente sobre a nova forma de
comunicação de massa e a sua sintonia com a exploração capitalista. A “cultura
de massa’’ encontrara um novo veiculo de transmissão, com uma sofisticada
linguagem e também com um aparato técnico-ideológico perfeito”.
Ao final dos anos cinqüenta, no
mundo industrializado, tivemos as primeiras transmissões via satélite, e no
começo dos sessenta, encontramos as transmissões coloridas. É famoso o debate
entre Kenedy e Nixon, em que o primeiro soube explorar
a sua imagem na TV, e, numa votação apertada, venceu a eleição. Abria-se,
assim, mais uma faceta para a famosa telinha, a estrutura política.
E no Brasil? Bem, nos anos
cinqüenta, sabemos, começa o processo de industrialização dependente do governo
Juscelino, e embarcamos na telinha, que, mais acessível às camadas médias
urbanas, aos poucos foi tomando o seu papel no cotidiano da população. Um dos
primeiros sintomas que ocorre por aqui é a saída do
povo da rua, que perde para a tv. O ponto de encontro foi transformado, o
público tornou-se cada vez mais privado.
Nos anos sessenta, eclode a chamada
“redentora”, a ditadura militar. São anos duros para o livre pensar. Porém, na
tela, o Brasil “oficial” desfila ao lado de festivais de musicas, enlatados, luta-livre, circo do Arrelia e dos
esportes em geral. A televisão sofre um terrível controle da censura,
principalmente depois do AI-5, e no início dos setenta, a estatal Embratel
torna possíveis as comunicações via satélite, surgem os programas, agora, em
redes nacionais. Em 1970, a copa do Mundo é transmitida diretamente do México,
e a manipulação ditatorial é total, é a época do “pra frente Brasil...”
A televisão não acaba com o rádio
(este é sempre mais rápido no informar e no analisar), porém, aos poucos, firma-se como um veículo de comunicação de
massa, e, ao mesmo tempo, um dos fatores da idéia de “mundo
global ou aldeia global”. Portanto, fomos “globalizados” primeiro pela tv.Com o
fim da ditadura militar, não existe a democracia comunicativa (longe disso, os
canais de tv são exclusividades de alguns grupos ou de estruturas
oligárquicas, que não abrem mão dessa
estrutura de comunicação); porém, tecnicamente, nossa tv sofisticou-se, exporta
programas e novelas.
Na última década, dois novos fatores
tornaram possíveis mudanças na questão televisiva. Em primeiro lugar temos o
advento dos canais pagos, ou tv por assinatura. As técnicas sofisticadas e a
necessidade de lucro fazem parte da população, com poder econômico de compra,
alvo dessas companhias. Outro fator foi o barateamento do computador.
Paulatinamente a audiência das tvs abertas vem sofrendo uma queda. Na estrutura
sociológica, isto pouco mudou o que vinha ocorrendo desde o inicio dos anos
sessenta em nosso país; a tv não é um bem que aprofunda as relações, pelo
contrário, isola pais e filhos à sua frente.
Aspecto agravante deste quadro é o
que vem ocorrendo nos últimos meses, com o surgimento do reality show, isto é, o confinamento de pessoas em uma casa, com todos
assistindo suas aventuras e, também, desventuras. A fama rápida, a falta de
conteúdo, bem pós-modernos, toma o dia-a-dia das pessoas. Programas como Big Brother e Casa dos Artistas tornam-se coqueluches
nacionais. O “artístico” está cedendo lugar para quem? A pasteurização das tvs
abertas torna-se cada vez mais visível. Estaria a tv imitando a linguagem do
computador (seu mais direto concorrente)? Poderia ser uma resposta, porém o
destino é trágico em todos os sentidos. O que estes programas fazem é
desqualificar o pouco de vida inteligente que existia em alguns programas. Por
outro lado, o afastamento do espetáculo, fator necessário para a reflexão,
como, por exemplo, das “naturalistas” novelas, onde, apesar de tudo, algo de
nossa realidade podia ser encontrado, como defendia Bertold
Brechet, aos poucos vai perdendo campo para a
banalização do cotidiano. E assim a telinha vai tornando-se não só vulgar (quer
pela sua violência, pelos programas de exploração de um verdadeiro “mundo cão”,
quer pela violência ideológica anunciada em cada fato noticiado), como, também,
cada vez mais excludente de qualidade. Isso nos lembra, oportunamente, o quanto de razão tinha Theodor W. Adorno,
falecido em 1969, ao afirmar que os meios de comunicação de massa não informam,
mas, sim, desinformam, e, sob o pretexto de dar liberdade, aniquilam a
autonomia do homem.