Artigo
página 7
NIETZSCHE, o novo milênio e a humanidade.
Apesar de estarmos num novo século,
na entrada de um novo milênio, ainda temos muito que se rever.
Até hoje, desconfiávamos que os
homens da atualidade aprenderam com os
homens do passado. Ledo engano essa nossa
idéia. Isso infelizmente não é verdade e nem há como disfarçar essa afirmação.
Num mundo que é por nós, seres humanos, intitulado como “mundo
globalizado”, devíamos pensar mais no legado que toda essa high-tech que criamos para nos perpetuarmos para as próximas
gerações, está de fato, deixando para os tais descendentes desses milênios
vindouros. Se víssemos homens vindos de Portugal, por exemplo, como vimos nos
quadros que homens do passado nos deixaram, chegando hoje em qualquer que fosse
o local desse mundo, não deixaríamos acabar com essa nova civilização,certo?
Não tenho certeza alguma se lhes disser sim.
Vejamos, por exemplo, o povo afegão. Mortos por todos os lados, de fome,
de cansaço de andar, de sede e muito mais que isso; fronteiras fechadas não só
para o povo, mas, também, para a tal solidariedade humana. A tão sonhada
solidariedade conquistada no final do milênio passado, parece mesmo, ter sido
filme nos dias de hoje. O Homem não acredita mais no próprio homem. As
fronteiras fechadas para um povo faminto, doente e
“crédulo”, não fazem parte nem de um mundo globalizado e muito menos de um
Homem preocupado com sua própria
espécie.
O povo afegão não tem para onde
fugir, se refugiar e está “pagando” por alguns que nem sequer temos a certeza
de estarem naquele território.
É difícil acreditar que pessoas que
estão passando por tantas carências, tenham muito mais vontade de sobreviver e
manter a espécie de que nós, Homens globalizados, Homens do Terceiro Milênio,
que sequer abrimos as “fronteiras” para sedentos de alguma solidariedade.
Repensemos como animais racionais
ou pelo menos como animais homens. O poder político é, sem dúvida, muito
importante, mas só quando se tem a quem governar, e se
subjugar a ele. Ao fundo está, pois o eterno dilema da liberdade humana.
No pensamento nietzschiano não há
um tratamento sistemático da questão da liberdade. Talvez, apenas mediante a
reunião de alguns aforismos possamos demonstrar a denúncia do poder da
liberdade, sua grande coerção normativa, usufruída, por exemplo, pelo sacerdote
e pelos moralistas. Mesmo que a liberdade resulte em uma “teoria cem vezes refutada”,
não pode ser considerada uma postura inócua. Pelo contrário, tal noção
evidencia uma efetividade notável nos discursos moralizantes. Por conseguinte,
será uma tarefa prioritária, para o crítico da cultura, questionar a força que
ela adquire na fala dos “melhoradores da humanidade”.
No primeiro momento, a liberdade apresenta-se como uma noção inserida
nos discursos prescritivos, é uma qualidade dada ao homem, na direção de
encaixá-lo num sistema de normas, fazendo com que possa ser julgado e submetido
a prêmios e castigos. Os “melhoradores da humanidade”
(sacerdotes, metafísicos e moralistas), usam este conceito para impô-lo ao “rebanho”,
levando-o assim à obediência, à submissão às suas ordens, para reforçar seu
direito de juiz e carrasco dos fiéis. É importante que os homens acreditem na
liberdade, pois enquanto crêem que ela existe, podem ser julgados, castigados e
responsabilizados por seus atos. Dessa forma, estão sempre “buscando” a
liberdade, dentro do possível, para continuarem a tê-la garantida. Um homem determinado pelos
instintos, impulsos, forças naturais, não poderia ser julgado pelo resultado de
suas ações.
Interessante notar que, refrear os
impulsos é algo bem típico de quem quer comandar, pois conhece tais impulsos
tão bem que sabe onde pode levar seu dono e, conseqüentemente, levar também a
idéia, o conceito que tem o “rebanho” a seu respeito. O livre-arbítrio pode resumir-se
na proposição “tu deves“ e “eu posso te julgar e condenar”.
Para Nietzsche, a liberdade, de
início, é como uma noção vazia que teve grande influência na tradição
filosófica e religiosa. Por que será que determinadas sociedades adotaram a
geração dessa doutrina da suposta autonomia do homem? Esta é a pergunta que Nietzsche faz para ele
mesmo, e que o instiga a ir atrás das origens e não da validade dessa teoria ou
de seus méritos. Em resumo, ele quer saber onde, como e em que condições
apareceram, bem como tenta especificar por que uma teoria, tantas vezes
criticada, ainda tem vigência, influenciando as condutas até hoje. Parte desta
questão para chegar à descoberta do seu fio condutor nesta tarefa: o
questionamento da natureza dos “ideais”, ou seja, a liberdade será criticada
pelo seu caráter “falso”, pela sua profunda capacidade de iludir e seduzir as
pessoas com promessas do “além”. Note a importância de vermos a crítica de
Nietzsche ao caráter ficcional da liberdade. Importante notar, também, em que
sentido ele contestará o livre-arbítrio devido ao seu aspecto “ilusório”.
Observemos que a liberdade não é um
conceito isolado, já que integra um conjunto de noções que garantem o controle
exercido pelos moralistas e pelos religiosos. A crítica do arbítrio adota uma
estratégia mais abrangente, no sentido
de questionar todas as noções das doutrinas formativas. O estudo genealógico visa mostrar
as circunstâncias completas em que surgiu a compreensão moral da conduta
humana. Este método, o genealógico,
permitirá, elucidar “quem fala” em liberdade e “porque fala” em
liberdade. Ao assinalar o interesse concreto, o afeto específico que gerou esta
noção, poderá questionar seu poder coercitivo. Ao demonstrar que a liberdade,
distante de ser um atributo “espiritual”, consiste em um meio, um instrumento
do poder sacerdotal, a sua eficácia poderá ser desativada. Até aqui,
pretendeu-se mostrar ao leitor que a linguagem pode, tal e qual a moral, dar ao
homem a idéia de domínio da realidade do tempo e a noção de livre-arbítrio,
seguidos da sensação de liberdade. Após ver a proposta de “leitura de mundo”
sugerida por Nietzsche, pode sentir-se e entender-se como um prostituído
consciente é capaz de usufruir desta prostituição ao seu favor e contra a
sociedade, ou prostituir-se contra si próprio e a favor da sociedade. Neste
caso último, temos presente o homem “fraco pessoalmente” e o homem “forte
moralmente” segundo a visão moral-sacerdotal.
E nós, Homens do terceiro milênio,
nos “encaixamos” onde: no pensamento do “louco” filósofo do porvir, Nietzsche
ou do lado moral-sacerdotal dos “poderosos”? Resta ainda alguma chance de
deixarmos para aqueles que permitirmos vir a esse mundo, uma atitude
instintivamente humana.
Cristiane
Guapo
Licenciada em Filosofia
- Unisantos
(Parte do texto extraída
da Monografia de conclusão do curso de Filosofia)