Artigo
A
Filosofia no ensino médio: de mãos dadas com a maiêutica.
Como filósofos e educadores, devemos
estar atentos aos mais diversos desafios com os quais cotidianamente nos
deparamos em sala de aula, no contato direto e enriquecedor com a juventude. Cabe,
portanto, estar bem conscientes das exigências do tempo presente e inquirir com
força e sinceridade: quais atribuições da Filosofia, ou seja: para que serve a filosofia?
Estamos, porventura, contribuindo
com a juventude e inspirando-a para o desenvolvimento da capacidade crítica,
para a ampliação questionadora de sua visão de mundo, bem como para tornar um momento
de prazer a aula de Filosofia, viabilizando o
raciocínio filosófico sem barreiras ao exercício sadio do conhecer em sintonia
com o realizar?
A
Lei no 9.394/96, que
estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional até os Parâmetros
Curriculares Nacionais, definiu as atribuições do Ensino Médio, de forma que o
educando, após o término da referida fase do processo educacional seja capaz de
demonstrar: “I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; II -
conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; III - domínio dos
conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao
exercício da cidadania.” (Art. 36, par.1º da LDB)
A Filosofia no Ensino Médio é uma
área de saber que, indiscutivelmente, colabora para o despertar das noções de
Ética nas Relações Humanas, da consciência do ser cidadão na efetivação da
prática consciente de sua cidadania; Entre
as diversas possibilidades para a prática docente da Filosofia no Ensino Médio,
é importante observar a necessidade de uma linguagem que instaure o modo de
filosofar compatível com
a problemática da
juventude con-
temporânea. É urgente preocupar-se
com o desenvolvimento das habilidades e talentos do alunado, o qual apresenta
dificuldades e resistência ao conteúdo filosófico justamente pelas expressões
distantes, aparentemente incompreensíveis e, até mesmo, beirando a inutilidade
para o seu cotidiano dinâmico e inquieto.
O modo de refletir a partir da crítica é próprio do jovem; daí a oportunidade
chave para lançarem-se as colunatas basilares do saber filosófico: fazendo
notar as possibilidades, limites e riscos do saber humano; abordar e avaliar as
conseqüências do conhecer e agir com relação a si mesmo, aos outros e a sociedade
em geral; refletir sobre o papel pessoal e intransferível de cada ser no mundo.
Os filósofos devem dar testemunho de suas
próprias experiências perante o mundo filosófico: o êxtase da admiração, a
questão que se nos apresenta incentivando a busca do saber e encontrando posteriormente
o júbilo da resposta; a estética apaixonante
da fundamentação e do rigor na elaboração de idéias e raciocínios.
O aluno deve notar, caminhando com o exemplo
e empenho apaixonado de seu professor, que nenhum conhecimento ou método
filosófico está definitivamente terminado, ou seja, tudo supõe uma nova abordagem;
por isso o percurso dialético e crítico é o grande sedutor ao ofertar trilhas
oportunas ao aluno possibilitando-lhe descobrir o seu próprio valor, a riqueza
do seu raciocínio, o poder construtivo da elaboração de idéias e a
consciência de não aderir a modas sem o
crivo do juízo crítico, desenvolvendo a capacidade de argumentação e
contra-argumentação.
A dialética socrática e o percurso maiêutico contido nos diálogos de Platão são, certamente,
uma forma de método educacional-filosófico atraente tanto ao docente quanto aos
jovens, pois potencializam o diálogo franco e aberto,
rejeitando o simples acúmulo de fatos e dados históricos da filosofia.
Basta empenho e sinceridade para que a maiêutica
contemporânea torne-se realidade. Precisamos perder o medo de convidar a
juventude para Pensar, compreendendo para melhor conhecer.
Faz-se inteligente aquele docente que,
aberto criativamente ao universo do conhecimento, trabalha em uníssono com seus
colegas na estruturação de um projeto profícuo de interdisciplinaridade. É
preciso deixar claro que,
se o conhecimento não estiver aliado e direcionado
à vida, de nada vale conhecer. Aliás, deve mesmo partir dela e do seu cotidiano
e desafios.
É claro
que, o fato de atravessarmos a ponte de nossa segurança e adentrarmos ao mundo
jovem e desafiante, não exclui um compromisso com a transmissão da história
da Filosofia propriamente dita, mas assumir novos procedimento
trazendo à realidade da sala de aula os
filósofos e seus conhecimentos para nos ajudar a resolver problemas, para
sorvermos do viver e pensar, de outrora, pistas para o nosso próprio rumo.
Eis o nosso
desafio educacional: no alvoroço desnorteado da humanidade, caminhando sequiosa
diante de um novo milênio visto como fonte de salvação e alvo de todas as
esperanças, parece-me que o alerta de Lipmam precisa
ser atentamente valorizado em sala de aula: “As crianças necessitam de narrativas repletas de idéias filosóficas
(que os filósofos podem providenciar) em vez dos textos secundários, áridos ou
superficiais (eu pareço me lembrar de alguém chamado Platão). Necessitam
discussões amplas em sala de aula em vez de professores que falam sem parar.
Necessitam da lógica formal e informal, da epistemologia, do pensar crítico, da
ética, da estética e da metafísica, com a linguagem simplificada sem simplificar
os problemas filosóficos”.
Licenciado em Filosofia – Unisantos
Mestrando em Filosofia
– USP/SP