O EXCESSO DO VAZIO:

Breves comentários a respeito da problemática da comunicação em Gilles Deleuze e Félix Guattari

  Laura Elizia Haubert*

 Este texto busca expor as opiniões dos autores Gilles Deleuze e Félix Guattari a respeito da nova postura frente à comunicação, as quais não a colocam como transmissora de informações ou mensagens, mas demonstram os vazios que se encontram em seu interior.

A comunicação excessiva sufocou a linguagem e o homem tornando ambos vazios. A pesquisa entra em acordo com as observações tecidas por Eduardo Cordeiro (2007), trabalhando brevemente o modo pelo qual a comunicação se distancia da filosofia e de seus significados. Contrapondo-se sempre à criação, aproximando-se de uma ideia repressiva, tais pensamentos que parecem recorrentes nos últimos textos dos autores.

Em nossos dias atuais, somos envolvidos boa parte do tempo pela comunicação até mesmo em uma tentativa de pensar a respeito desta comunicação, a qual se torna constantemente mais veloz graças às tecnologias e redes sociais, bem como adentra os âmbitos pessoais transpassando os limites originários levantando questionamentos a respeito de seu significado.

Na tradição do domínio acadêmico, em especial filosófico, é comum que a comunicação seja definida por uma noção de troca de mensagens, de conceitos e entendimentos, segue-se assim:

 Selon l’étymologie, le verbe communiquer signifie rendre commun. La communication désigne donc le passage de l’individuel au collectif. Ce que je ne garde pas pour moi, ce que je livre à autrui, c’est ce que je lui communique... Schématiquement, toute communication peut être décrite comme la transmission d’un message à partir d’un émmetteu à un récepteur. (CAZENEUVE, 1989, p.265)

 Percebe-se que a comunicação, conforme Jean Cazeneuve (1989), refere-se sempre a um emissor e a um receptor que interagem em relação a algo, mas necessariamente toda interação será uma comunicação, ou toda comunicação necessita intrinsecamente de uma mensagem que seja trocada? Toda comunicação será, portanto uma informação?

A noção de uma comunicação voltada para uma informação ou embasada em uma troca de pontos de vista é característica da herança do pensamento de Habermas, que buscava uma espécie de “intersubjetividade ideal e universal.” Não apenas isto, Habermas ainda afirma o lugar que pertence à comunicação em meio “ao imaginário predominante nos mercados e nas mídias”.

Ao optar por uma trilha nova diante da noção de Comunicação, o seu significado encontra-se com a filosofia de Deleuze, que parece a Alessandro Carvalho Sales (2005, p.3) conter “uma completa teoria da comunicação”, ainda que não pareça no primeiro contato com suas ideias.

O que na obra deleuziana, no entanto, difere de um pensador como Habermas? Em princípio, eles são opostos, pois Deleuze e Guattari, em seus livros, esforçam-se para fugir de quaisquer noções de universais, conforme se vê também segundo Chediak (2006), dando preferência continuamente aos paradoxos e oposições.

Para referir-se à comunicação também é preciso aceno àquilo que ela não é ou nela não se encontra, ou seja, uma definição por oposição; por exemplo, se para a filosofia clássica é necessário a comunicação de conceitos, de mensagens, de ideias, Deleuze coloca-se em oposição a tradição, no sentido em que para ele:

Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem em sua potência e sua competência... A filosofia não contempla, não reflete, não comunica se bem que ela tenha de criar conceitos para estas ações ou paixões. A contemplação, a reflexão, a comunicação não são disciplinas, mas máquinas de constituir Universais em todas as disciplinas. (DELEUZE, 2010, p.11/13)

 Vemos em Deleuze (2010) uma nova compreensão do que é Filosofia, considerada como criação de conceitos, mas, principalmente conceitos que não se relacionam à contemplação, à reflexão e muito menos à comunicação; em verdade a Filosofia opõe-se a esta tríade; afasta-se, repulsa a isso, a estas maquinarias que podem sufocá-la em sua sensibilidade.

A comunicação em Filosofia é realizada constantemente através de discussões, de mesas redondas, de conferências, debates, colóquios, ou seja, uma comunicação infindável de opiniões, práticas que encontram a oposição no pensamento deleuziano, pois tais discussões parecem sempre a Deleuze uma trivialização da Filosofia.

Muito além de uma trivialização, a forma de uma imagem do pensamento relacionada à comunicação, à discussão, será para Deleuze (2013, p.190) uma “imagem idiota, mas mesmo os idiotas têm uma imagem do pensamento”.

Não importa em que instância se coloque a comunicação, ela não é efetiva para o aprendizado, para a Filosofia, porque, segundo Deleuze (2010, p.37) “a comunicação vem sempre cedo demais ou tarde demais, e à conversação está sempre em excesso, com relação a criar”. A comunicação nunca se efetiva, seja antes, seja depois, ela mantém-se à deriva, atrás da criação.

Estamos constantemente soterrados por informações, por comunicações de exageros, de clichês, de ideias e imagens que se tornaram vazias pela repetição infindável; fala-se em demasia sobre tudo sem que antes se tenha tempo para dar conta do que se diz; é por isto que Deleuze (2010, p.130) afirma “Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente”.

A resistência está relacionada à criação; é apenas a criação que liberta desta comunicação em excesso que mata o que há de vivo ainda, esvaziando de sentindo imagens e falas, tanto que Deleuze (2010, p.133) escreve “criar é resistir”. Deste modo, pode-se entender que para o autor a única força capaz de se contrapor a toda essa enxurrada do que é dito, do esvaziamento perante a comunicação, é a criação; daí a máxima que criar é resistir.

O ato de criar em Deleuze é imanente, aproximando-se do campo das artes muito mais que o formalismo comum; opõe-se a autores como Ostrower que entende a criação com o relacionar, comunicar, estruturar entre outros.

Resistência é oposição à comunicação porque, para Deleuze, a fala demasiada às quais as sociedades contemporâneas estão imersas leva ao esvaziamento não apenas da linguagem, mas também dos sentidos, recaindo em um inevitável estado de controle ou, como Deleuze irá preferir, de comunicação. A fala acaba ligada a um modo de repressão, semelhante às formas ditatoriais.

A comunicação, assim, é uma força repressiva, no sentindo em que:

 O rádio, a televisão fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas as forçam a se exprimir. (DELEUZE, 2013, p.166).

 A tecnologia levou ao ápice da comunicação, comunicamo-nos constantemente, entre receptores e emissores ou junto a aparelhos; porém em meio a tanta fala, pouco sobra para, na solidão, analisarmos o que será dito; talvez, como aponta Deleuze (2013), seja exatamente esta a questão da repressão, não é o calar que denota a repressividade, mas sim a obrigação contínua de dizer e continuar dizendo, mesmo quando não resta mais nada que possa interessar.

É graças aos diálogos constantes e inexpressivos em seu âmago que encontramos o interesse, perdendo-se em meio a tanto pronunciamento:

 Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse... Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. (DELEUZE, 2013, p.166)

 Fala-se muito e pouco se escuta com interesse, estamos rodeados de assuntos já discutidos, relatados e retratados em excesso que não mais causam o efeito como anteriormente o faziam; exemplo claro pode ser encontrado na pintura: se antes os quadros de Van Gogh causavam impacto, hoje sua exposição em excesso os tornam clichês que pouco sensibilizam; foram esvaziados, assim resta pouco do abalo capaz de capturar a atenção porque, como refere Deleuze (2013), “é que isso já foi dito mil vezes”.

A comunicação mudou em vários níveis, do pessoal (o casal que transborda) até o acadêmico; já existe um novo tipo de intelectual, tal fomenta Foucault (2013), um intelectual que não é universal e não precisa mais comunicar-se a respeito de tudo, ainda que a Academia nutra um apreço nostálgico por esta figura exercendo um módulo de força aos que resistem.

Sobre os intelectuais e a comunicação, apresenta-se o seguinte excerto:

 Os intelectuais têm uma cultura formidável, eles têm opinião sobre tudo. Eu não sou um intelectual, porque não tenho cultura disponível, nenhuma reserva. O que sei, eu o sei apenas para as necessidades de um trabalho atual, e se volto ao tema vários anos depois preciso reaprender tudo. É muito agradável não ter opinião nem ideia sobre tal ou qual assunto. Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer. (DELEUZE, 2013, p.176).

 Novamente reaparece nesta passagem a ideia de uma comunicação opressora por querer que algo seja dito, mesmo quando não há nada, quando não há lembrança, quando não se sabe; a necessidade que a fala em excesso tem de permear nossa sociedade adentra aos mais diversos setores, estagnando-se consolidada. Do comum à academia, parece sempre inevitável encontrar a ordem da comunicação.

Na filosofia deleuziana e em seus pronunciamentos não apenas encontra-se a oposição a essa comunicação, mas uma pincelada em um cenário que pode fornecer a chave para a possível solução do problema em relação a este dizer em demasia que chega a sufocar tornando-se opressor.

Para Sales (2003) a questão se põe para Deleuze de um modo aparentemente simples, basta que não se fale quando não há nada a ser dito, que não se comunique ou explique o que não necessita, que o silêncio e a solidão sejam lugares seguros nos quais a criação encontra espaço para respirar e resistir.

Tal preceito de Deleuze, torna-se explicito quando em entrevista a Toni Negri diz:

Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas (...) É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle. (DELEUZE, 2013, p.221).

 A fala e a comunicação “talvez... estejam apodrecidas” (Deleuze, 2013), por tudo que se produziu, foi dito, fez-se sem necessidade, pela corrupção e coerção na qual ambas foram tomadas como armas de uma luta a que não pertenciam, assumindo papéis que não se desfizeram.

A salvação, portanto, diante do abuso da comunicação seja para a arte, filosofia, ciência ou outrem é o silêncio. Os locais nos quais não há a opressão do dizer para que se possa escapar, o que Deleuze (2013) chama de “vacúolos”, bolsões, são os ainda seguros para resistir.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 A imagem da comunicação vazia pode ser encontrada em boa parte dos textos deleuzianos, mas sua presença é mais efetiva nos últimos escritos, como se notou nos trechos relacionados no presente artigo.

Em sua última obra publicada em parceria com Félix Guattari, Deleuze expressa com pinceladas que parecem ora claras, ora irônicas, o que pensa a respeito dessa comunicação em excesso que se encontra cada vez mais esgotada, tanto no significado quanto no significante:

 Estamos na idade da comunicação, mas qualquer alma bem-nascida foge e se esquiva, cada vez que lhe é proposta uma pequena discussão, um colóquio, uma simples conversa. Em toda conversa, é sempre o destino da filosofia que se trata, e muitas discussões filosóficas, enquanto tais, não vão mais longe do que aquela sobre o queijo, com suas injúrias e confrontos de concepções do mundo. A filosofia da comunicação se esgota na procura de uma opinião universal liberal como consenso, sob o qual encontramos as percepções e afecções cínicas do capitalista em pessoa. (DELEUZE, 2010, p.174).

 Primeiramente, o autor, que por conhecer demais, ou talvez pela falta de conhecimento, o que não parece ser o caso em especial dos autores, prefere sempre caminhar na direção oposta dessa insistente comunicação coerciva realizada em sociedade. Não dizer, não participar mais de debates, de colóquios, de palestras, porque nada ali se aprende; como Deleuze (2010) refere-se constantemente, não escutamos os outros ou eles não nos escutam, eis uma das razões pelas quais é indiferente todo esse barulho exaustivo.

Depois, toda conversa está sempre ligada ao futuro ou história da Filosofia, e isso é sempre um risco, já que a probabilidade de cair nos abismos da “opinião universal liberal” são grandes; assim é mais sábio ou melhor que se cale, o silêncio não como celibato ou repressão, mas o silêncio libertador.

Não que seja um silêncio reflexivo, especialmente em Filosofia, já que Filosofia é criação e não reflexão, no entanto a solidão que encontramos também em outros autores como saída; a exemplo deles podemos citar Spinoza e Nietzsche com quem Deleuze mantém um diálogo sutil durante sua obra.

Para Deleuze e Guattari, portanto, parece ser preferível em nossos dias atuais o silêncio do que a fala decorada, que se arrasta sem ter nada a expressar, o dizer apenas pelo ato em si, pelo barulho, para impor-se, ainda que ninguém queira escutar ou que nada reste para comentar. A fala excessiva sobre pessoas, ou coisas que sufocou a história e continua a sufocar os entes deixando a mercê da repressão os incapazes de perceberem a armadilha em que estão envolvidos.

A filosofia de Deleuze e Guattari, deste modo, parece sobrepor-se em nossos dias saltando para os sensíveis que encontram em seus textos a identificação com o autor, mas também um refúgio diante dessa pregação da publicidade e da mídia da contínua exposição, que nos induz a uma militância sincera contra todos estes excessos vazios quais estamos cotidianamente preenchidos.

 

 REFERÊNCIAS

 CAZENEUVE, Jean. Les Pôles de la Communication in Encyclopédie Philosophique Universelle, vol.1. Presses Universitaires de France, 1989.

CHEDIAK, Karla. O Universal na Filosofia de Deleuze. Rev. O Que Nos Faz Pensar, n°21, Rio de Janeiro, 2006.

CORDEIRO, Eduardo. Deleuze:comunicação, controlo, palavra de ordem. Revista de Comunicação e Cultura. N.8, 2007.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. Editora 34: 3 ed. São Paulo, 2013.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Que é Filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Editora 34: 3 ed. São Paulo, 2010.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. 27 ed. São Paulo: Graal, 2013.

SALES, Alessandro Carvalho. Considerações Sobre o Sentindo em Deleuze: apontamentos para uma teoria do signo e da comunicação. [Dissertação de Mestrado em Comunicação e Semiótica], Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.

SALES, Alessandro Carvalho. Notas sobre o Problema da Comunicação em Gilles Deleuze. Artigo apresentando no XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, UERJ, 2005.

ZORDAN, Paola. Criação na Perspectiva da Diferença. [Artigo], 2003. Disponível em < http://coral.ufsm.br/lav/noticias1_arquivos/Cria%e7%e3o%20na%20perspectiva%20da%20diferen%e7a.pdf> Acesso em 26 de nov. de 2014.

 


* Graduanda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Escritora com duas obras publicadas. Contato: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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