Por que não faz sentido usar o rótulo "filosofia continental"?

Moyses Pinto Neto -  Doutor em Filosofia - PUCRS

1. Uma das polêmicas mais estéreis do campo filosófico é a famosa polêmica entre filosofia analítica e a filosofia dita continental. A filosofia analítica é geralmente identificada com o mundo anglo-saxônico, embora cada vez mais esteja em expansão geográfica e sua matriz original seja o pensamento alemão e austríaco (Frege, Carnap, Wittgenstein e o posivismo lógico em geral), em contraste com as correntes mais tradicionais angla-saxãs que são o empirismo e o pragmatismo.

Filosofia continental, por sua vez, é simplesmente a designação por exclusão que o campo analítico dá para tudo aquilo que é posterior ao advento da própria analítica, no início do século XX.

Primeiro, nada estranho que estudantes se interessem por filosofia analítica. Os indivíduos podem estar fascinados pela lógica formal e em resolver seus problemas, pensando nas suas aplicações por exemplo na programação ou questões de inteligência artificial. Tampouco estranho que outros estudantes prefiram usar a linguagem cartesiana (tida como a “clara”) para se expressar e formular problemas, aproximando-se de filósofos e problemas filosóficos que se põem a partir desse referencial (por exemplo, o problema do dualismo mente-corpo). Apesar de várias críticas severas ao campo (dos que o denominam "vazio" ou "colonizado"), admito que não há absolutamente nada estranho aqui: trata-se de uma opção totalmente válida e nem vou entrar em qualquer tipo de análise do estilo “sociologia da ciência” para explicar. Digamos apenas que é a mesma opção de quem prefere se dedicar a Platão ou Spinoza.

No entanto, o problema de toda oposição não é o polo que a define, mas o outro. Quando pensamos em negro e branco, o polo que importa não é o branco, tido como transparente e universal, mas aquele que foi construído para ser marginalizado (nem peguei dicotomias mais polêmicas, apenas uma que se baseia claramente em um conceito socialmente construído: a raça). É para definir o negro que existe a oposição, e não apenas o definir: é para o subordinar que ela existe.

Dito isso, passamos ao seguinte ponto: o que importa na dicotomia entre filosofia analítica e filosofia continental não é o primeiro polo, mas o segundo. O que é, afinal, filosofia continental? A resposta é: tudo que não é analítico. Sendo assim, criou-se um rótulo para jogar no mesmo saco uma série de diferentes correntes e tradições da filosofia, tomando-as como um corpo mais ou menos único que se opõe à filosofia analítica. Esse rótulo unificador, portanto, espreme uma série de posições completamente diferentes em um único selo, como se fosse possível reduzir dois milênios de filosofia à ideia de “continental”. Se pensarmos, por exemplo, na diferença significativa entre as tradições francesa, alemã e italiana, fica risível reduzir tudo ao rótulo de “continental”. Elas são tão diferentes entre si quanto são diferentes da filosofia analítica. Por exemplo, a filosofia alemã é majoritariamente kantiana em alguma escala, enquanto a filosofia francesa em várias correntes pode simplesmente ignorar o pensamento de Kant (é o caso da tradição que vai de Bergson e Bachelard até hoje Serres e Latour). Vejam, até os filósofos da tradição analítica quando resolvem falar disso “adequadamente” se atrapalham. Em um ótimo livro, por exemplo, Lee Braver qualifica a polêmica entre analíticos e continentais a partir do duelo entre realismo e anti-realismo. Além da classificação ser problemática, já que bem olhado o anti-realismo é bem mais pop entre os analíticos que entre os ditos continentais (Derrida, por exemplo, que para Braver é a culminância do anti-realismo, está mais próximo do realismo que do anti), filósofos que os próprios analíticos têm como manifestação da continentalidade, como é o caso de Deleuze, ficam sem lugar. (Deleuze, para quem não sabe, era um metafísico realista.)

O que está em jogo então nessa dicotomia que – como gostam de dizer alguns analíticos – é “obviamente falsa”? A redução da filosofia a duas correntes, simplificando tudo que não é analítico como “continental”, na verdade é uma manobra que permite distinguir entre a filosofia e a não-filosofia. Ao reduzir estupidamente correntes completamente diferentes a um rótulo único, muitas vezes o analítico está tentando simplesmente dizer que existe uma forma legítima e uma ilegítima de filosofar. Muitas vezes essa forma vem definida pelo estilo: filosofar é “argumentar claramente”, o que significa utilizar linguagem cartesiana para expor problemas. Mas o cartesianismo não é apenas um paradigma filosófico que os ditos “continentais” muitas vezes põem em disputa? A relação com a linguagem, no caso de filósofos como Derrida, não é totalmente diferente que por exemplo um Brandom? Nem vou entrar nesse mérito que, em todo caso, seria possível. Mas só um estilo é válido na filosofia? 

Existe ainda uma área mais “benevolente”, digamos assim, que considera que a filosofia continental é simplesmente um exercício de “história da filosofia”. Assim, a filosofia é dividida entre aquela que trata de história e aquela que trata dos problemas. Uma forma sutil de dizer que existem os filósofos atuais e os antiquários. Não nego que muitas vezes existem estudantes embriagados com um filósofo que não ultrapassam a dimensão simples da história da filosofia, tornando todo debate oco, mas essa corrente sabe que a filosofia “continental” tem outra forma de lidar com a história e, de modo mais geral, com o tempo? Ela conhece as problematizações que foram se acumulando em Hegel, Marx, Heidegger e Foucault acerca das relações entre pensamento e temporalidade? A resposta é: geralmente não, não sabe.

Qual é o ponto, então? O ponto é que não existe filosofia analítica e filosofia continental, mas simplesmente filosofia. Essa dicotomia é inválida para todos os efeitos porque foi mal construida. Ela é um péssimo instrumento – surpresa! – analítico para classificar o campo. Uma ferramenta conceitual equivocada que joga o “resto” não-analítico em um saco só. Mas, se você observar o campo filosófico, vai ver que analíticos, hegelianos, kantianos, deleuzianos, derridianos etc ocupam posições bem distribuídas. Em outros termos, o que existe é o campo da filosofia e a filosofia analítica é um entre muitos, não um dos polos que divide esse campo em dois. O que surpreende quando dizemos – como certa vez disse meu amigo Charles Borges – do sucesso da filosofia analítica não é tanto pelo fato de que os problemas que ela lança são inválidos ou desprezíveis, mas que os estudantes estão importando essa dicotomia ftotalmente errada. E pior: estudantes brasileiros que, ao contrário dos colegas anglo-saxônicos, tiveram geralmente acesso à “filosofia continental”. Eles sabem que o professor que estuda Levinas é completamente diferente do que estuda Spinoza, mas fingem que não existe diferença. Por isso, agora vou para a parte mais dura do texto.

 

2. Por que uma dicotomia tão forçada e obviamente falsa vingou no mundo anglo-saxônico e foi exportada para outros países? A resposta é complicada. De modo geral, no entanto, dá para dizer que a atitude dos filósofos que procuram policiar a filosofia, dividindo entre a legítima e a ilegítima (mas sem entender quase nada da última), é uma atitude de censura. Assim, de certo modo o que eles querem é fazer o que todo censor sempre pensa estar fazendo em nome do Bem: “proteger a juventude das más influências”. Não por acaso o fundador da filosofia enquanto disciplina foi um adepto da censura, como Alexandre Nodari mostrou, entre muitas outras coisas, na sua tese sobre o assunto. Um paradoxo, já que Platão funda a filosofia com a censura à sofística e à poesia em nome da proteção da juventude, e seu exemplo de filósofo é justamente o Sócrates que foi acusado de corruptor da juventude. Em outros termos, ser acusado de corruptor da juventude, como várias vezes os filósofos analíticos “durões” acusam Derrida e Foucault, é um tremendo elogio, de Sócrates a Camila Jourdan.

Assim, na imagem bisonha da cabeça dos “durões”, os inúmeros congressos, seminários, debates, artigos e teses escritos em torno de Foucault, Deleuze e Latour são pura besteira. São adolescentes enfeitiçados por “má poesia” que ficam discutindo coisas sem sentido. Falsos doutores, impostores que seduzem a inocente juventude para essas teorias que não dizem nada sobre nada, pura enrolação sem nenhum sentido que a desvia da verdadeira filosofia. Pobres adolescentes acéfalos e mestres mal-intencionados. Cruel lavagem cerebral. Convenhamos que essa descrição é, para dizer o mínimo, very unreasonable, como gostam de afirmar os anglo-saxônicos. O mínimo que se poderia conceder – considerando o “razoável” – é que tantas pessoas mobilizadas em torno desses pensadores deve significar que eles dizem coisas com sentido. Apenas com razoabilidade chega-se nisso. 

O que está em jogo então é simplesmente a hegemonia de um paradigma filosófico imposto porque está atrelado ao núcleos de saber que correspondem às posições de poder na sociedade. É o momento que o analítico me pega no contrapé e diz: “te peguei no flagra, foucaultiano, você está dizendo que a verdade é apenas um efeito do poder!”. Não, não estou dizendo isso (e nem Foucault afirmou). Estou dizendo que algo tão obviamente falso quanto a existência de algo chamado “filosofia continental” somente pode ser aceito e chancelado se é enunciado por alguém bastante poderoso. Não estou dizendo que a filosofia analítica seja imposta pelo poder, mas que a descrição da filosofia analítica em torno do seu polo rival sim. Algo tão porcamente descrito só pode “colar” se vem do polo dominante. 

Vamos partir do seguinte exemplo: como brasileiro, penso que a “verdadeira filosofia” é a filosofia antropofágica. A metafísica ocidental, na qual se baseiam as tradições alemã, francesa e anglo-saxônica, por exemplo, é uma simplesmente cristianização do platonismo. Assim, divido o campo entre filosofia antropofágica, de raiz brasileira, e filosofia cristã, de raiz europeia e também importada pelos EUA. A pergunta é: quem vai dar bola para isso? Quase ninguém. Por quê? Basicamente porque a minha enunciação vinda de um polo geopolítico marginal é fraca para dividir o campo. Quando um analítico norte-americano, ao contrário, faz uma distinção absurda em que qualifica como “continental” tudo que não pertence ao seu campo e cola um monte de rótulos abusivos (“subjetivismo”, “relativismo”, “nonsense” etc.), todo mundo baixa a cabeça e acha que ele está dizendo coisas profundas, mesmo que demonstre um completo desconhecimento do que está falando. Em outros termos, como disse o Idelber Avelar no seu “The letter of violence”, dizer que você está falando inglês, mas poderia estar falando qualquer língua é uma piada de mau gosto. Não é “por acaso” que nos vemos falando inglês em eventos no Brasil, na Alemanha, na China ou na Tailândia, e o “nativo” do inglês, quando enuncia a coisa no seu idioma, não está em posição neutra diante de uma miríade de diferentes línguas que poderiam ser usadas. Aliás, a própria ignorância provinciana dos norte-americanos em torno de outras línguas, citando apenas livros em inglês, é sintoma disso. Se você faz isso no Brasil, é criticado por não ser na língua original. Nos EUA, tudo bem. 

Um último exemplo e concluo: Simon Blackburn, que é um importante filósofo do campo analítico, certa vez deu entrevista sobre a contribuição de Derrida para a filosofia. No meio da entrevista, Blackburn diz “meus amigos derridianos dizem que Derrida escreve isso e não escreve aquilo”. Pera aí: é impressão minha ou você está dando uma entrevista sobre um filósofo que NÃO leu? Não seria o mínimo de “honestidade intelectual” você simplesmente se abster de opinar sobre o que desconhece totalmente? Blackburn chega a julgar a obra de Derrida sem ao menos tê-la lido. Você vai me dizer que isso não tem nada a ver com poder? 

Em síntese, estou propondo que simplesmente acabemos com a divisão dessa forma dual. Para começar, vamos rachar os analíticos não apenas, como eles próprios se descrevem, entre os da lógica formal e os da linguagem ordinária, mas entre os analíticos totalitários e os pluralistas. Os totalitários são aqueles com vocação censória que, na linha de Ayer e cia., julgam as coisas sem entender, falam sobre o que nunca leram e acham que seu paradigma filosófico é único legítimo. Os analíticos pluralistas, ao contrário, são aqueles que reconhecem a multiplicidade de abordagens filosóficas, ainda que prefiram o tipo de indagação analítica. Caso hoje, por exemplo, de Brandom, Brassier, Harman e outros. O que não dá para aguentar mais são longas digressões sobre o que não existe. Para começar, honestidade intelectual no mínimo.

 

BIBLIOGRAFIA:

AVELAR, Idelber. The letter of violence: essays on narrative, ethics, and politics. Palgrav McMillan, 2005.

CUSSET, François. Filosofia Francesa: a influência de Foucault, Derrida, Deleuze & cia. Trad. F. Murad. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DERRIDA, Jacques. Limited Inc. Tradução de Constança César. Campinas: Papirus, 1991.

NODARI, Alexandre. Censura: ensaio sobre a "servidão imaginária". Tese de Doutorado defendida no PPG em Letras da UFSC. Florianópolis, 2012.

NORRIS, Christopher. Limited Think: how to not read Derrida. Diacritics 20.1 (1990): 17-36.

PLOTNISKY, Arcady. "But It Is Above All Not True": Derrida, Relativity, and the "Science Wars". Disponível em <http://pmc.iath.virginia.edu/text-only/issue.197/plotnitsky.197>

SEARLE, John. Racionalidade e realismo - o que está em jogo? Trad. Desidério Murcho. Disponível em <http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/searle1.htm>. Acesso em 24.09.13.

SOKAL, Alan & BRICMONT, Jean. Imposturas Intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Trad. Marx Altman. Rio de Janeiro: Record, 1999.

 

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