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A Interpretação de Hannah Arendt da proairesis aristotélica

 Adriano Martins Soler

Mestrando em Filosofia - PUCSP

Introdução

O presente artigo trata de uma releitura do texto exposto na primeira parte do Capítulo 2 – A descoberta do homem interior – do Volume 2 – O Querer (A vontade) – da obra A Vida do Espírito de Hannah Arendt. Depois do Pensar, é o Querer que é solicitado, para confiar o segredo antropológico da aberração que, certo destino histórico da modernidade, demonstrou através de uma nova crítica do juízo. Desta vez, Arendt vai em busca de uma genealogia das teorias da vontade - da proairesis antiga até Nietzsche e Heidegger, passando pelo pensamento medieval.

 

Nosso pleito é abordar de maneira específica a questão da proairesis como precursora da vontade dentro da filosofia grega, além de procurar expor de maneira sistemática a dialética que Aristóteles trabalha sobre o tema. Cabe ressaltar que ainda que haja pequenas menções quase imperceptíveis sobre outros autores antigos, todo o foco da questão da proairesis gira em torno das obras aristotélicas, “passeando” de maneira sutil entre o De Anima, Ética a Nicômaco e o Ética a Eudêmio.

Todo conteúdo daquele trabalho apresenta uma introdução à Filosofia da Vontade, explicando de maneira sistemática e detalhada o modo como ela poderia ter surgido já dentro do pensamento grego. Tal pensamento é de extrema importância dentro do Filosofia Clássica.

 

Proairesis, a precursora da Vontade.

 

O capítulo se inicia com Hannah fazendo um pequeno apanhado sobre o que fora tratado anteriormente. Explica que usara o termo “falácias metafísicas” em sua discussão sobre o Pensamento, sem refutá-las. Ao tratar do ego pensante e seu conflito com o mundo das aparências, afirma que o ego pensante retira-se temporariamente deste mundo, sem nunca chegar a deixá-lo de todo, porque está incorporado a um “eu corpóreo”, a uma aparência entre as aparências. A faculdade da Vontade se tornou manifesta bem mais tarde em relação à descoberta da razão e de suas peculiaridades; esta, no entanto coincidiu com a descoberta do espírito e com o início da filosofia.

Mas, que experiências fizeram com que os homens tomassem consciência de que eram capazes de constituir volições?

Não podemos confundir, diz-nos Hannah Arendt, a Vontade com ideia, tal confusão tornaria a discussão sobre o assunto deveras superficial. As ideias são “coisas-pensamento”, artefatos do espírito que pressupõem a identidade de um artífice.

Temos o hábito de confundir essas questões por identificarmos quase automaticamente espírito com cérebro. Na realidade são distintos, o espírito é o que determina a existência tanto dos objetos de uso quanto das coisas-pensamento; o cérebro, é ferramenta do espírito, não está mais sujeito a mudanças operadas pelo desenvolvimento de novas faculdades espirituais do que a mão humana pela invenção de novas ferramentas. Porém, destaca o quanto o espírito do homem é afetado pelas mudanças no mundo, examinando sua significação através de suas próprias atividades, dando ênfase às atividades do ego volitivo, que jamais poderia funcionar bem sem a ferramenta imutável da potência cerebral.

Nesse momento, aponta o modo como a filosofia grega lidou com fenômenos e dados da experiência humana que nossas “convenções” pós-clássicas acostumaram-se a atribuir à Vontade como fonte principal da ação. Para tratar da filosofia grega, Hannah se remete a Aristóteles por duas razões específicas. Em primeiro lugar devido a tudo que ele escrevera sobre a alma que teria exercido papel fundamental sobre as filosofias da Vontade. Em segundo lugar, pelo reconhecimento de que nenhum outro filósofo grego chegou tão perto de reconhecer a lacuna entre o que falamos na língua e no pensamento grego, podendo estabelecer assim um exemplo de como alguns problemas de natureza psicológica, poderiam ser resolvidos antes de a Vontade ser descoberta como uma faculdade autônoma do espírito.

Para Hannah, o ponto de partida das reflexões aristotélicas, se baseia na questão: “O que é que, na alma, origina o movimento?” Aristóteles admite o ensinamento de seu mestre, de que a razão dá ordens porque sabe o que se deve buscar e o que se deve evitar, mas nega que essas ordens sejam necessariamente obedecidas. Para ele, o homem incontinente segue seus desejos independentemente das ordens da razão, porém, por recomendação da razão, o homem teria a capacidade de resistir a esses desejos. Portanto, os desejos têm uma força inerente em si, mas não originam movimentos por si sós. Aristóteles trata de algo que, após a descoberta da vontade, estabelecerá a distinção entre vontade e inclinação. Tal distinção torna-se a pedra angular da ética kantiana, aparecendo primeiramente na filosofia medieval sobre a questão da inclinação para pecar e a vontade de pecar, não sendo a inclinação um pecado.

Ainda em Aristóteles, pode-se perceber que o desejo guarda uma prioridade na origem do movimento. É ele que estimula a entrada em cena da razão que calcula as melhores formas de obtenção do objeto desejado ausente. Tal razão é denominada pelo filósofo de nous pratikos, razão prática, que é diferente da nous theoretikos, razão especulativa ou pura: a primeira está interessada somente no que depende exclusivamente dos homens em coisas que estão em seu poder e que são, portanto, contingentes, enquanto a razão pura interessa-se somente pelas coisas cuja modificação está além do poder humano.

A ação humana é explicada pelo filósofo por essa relação entre a razão e o desejo insatisfatório. Tal relação se baseia na dicotomia platônica entre paixão e desejo. No primeiro Protreptikos, Aristóteles interpretara da seguinte forma: “Uma parte da alma é a Razão. É ela a soberana e juíza natural das coisas que nos dizem respeito. A natureza da outra parte é segui-la e submeter-se a seu jugo.” Na verdade dar ordens está entre as características principais da Vontade. Em Platão, a razão podia assumir essa função por causa do pressuposto de que a razão diz respeito à verdade, e a verdade de fato compele. Mas notem que a razão como reveladora da verdade, é persuasiva e não imperativa, no diálogo sem som do pensamento comigo mesmo; somente aqueles que não são capazes de pensar precisam ser constrangidos.

 

A ideia de que a razão é governante dentro da alma humana está intrinsecamente ligada à mensuração entre razão e desejo, por estes serem cegos e destituídos de racionalidade. Tal sujeição do desejo à razão é necessária para a tranquilidade do espírito. Quando os desejos não se submetem à razão, o resultado em Aristóteles é o “homem-vil”, que se contradiz e está em “desacordo consigo mesmo”. Esse conflito interno é uma luta entre razão e apetite, podendo funcionar na explicação da conduta, mais especificamente na má-conduta do homem incontinente. Não explica a ação, o tópico da ética aristotélica, pois a ação não é a simples execução das ordens da razão; entretanto, ela é uma atividade da razão prática e não da razão teórica. Nos tratados éticos, ela é chamada de phronesis, uma forma de intuir, não sendo nem sabedoria nem inteligência, algo necessário nos assuntos humanos e que se entende ser atribuição da velhice. Vale lembrar que tal sentido prático, orientava a produção e as artes. Há ainda nas questões aristotélicas, a eupraxia, que seria a ação bem feita, ou seja, fazer alguma coisa bem, independente de suas consequências. São ações movidas pelo desejo, todavia, não é um desejo de “o que” posso pegar e utilizar como um meio para outro fim, e sim de um desejo de “como” posso desempenhar algo de uma maneira excelente. Posteriormente, Plotino, seguindo a tradição aristotélica, diria de uma maneira parafraseada “O que está realmente em poder do homem, no sentido de ser aquilo que depende inteiramente dele [...] é a qualidade de sua conduta, to kalos; o homem, obrigado a lutar, ainda está livre para lutar com bravura ou com covardia”. (conf. Andreas Graeser, Plotinus and the Stoics, Leiden, 1972. Pag. 119. In ARENDT, Hannah, op.cit. pag.231)

Hannah Arendt destaca que Aristóteles cria um novo termo para a ação no sentido da maneira como os homens querem aparecer, a proairesis, escolha, no sentido de preferência entre alternativas – uma em vez da outra. O desejo e o logos são os começos e princípios destas escolhas: O logos fornece-nos propósitos para nossas ações, nesse sentido, a escolha seria uma mediadora entre razão e desejo.

Na contrapartida da escolha deliberada ou da preferência há o pathos, paixão ou emoção, quando somos motivados por algo que sofremos. Como exemplo, temos do adúltero que age por paixão não por ter “escolhido” adulterar; ou o que rouba sem ser ladrão. A característica da faculdade da escolha é agir com propósito, na medida em que os “meios” têm que ser escolhidos; o propósito em si, como finalidade última do ato em razão da qual ele foi iniciado, não se abre a escolha. Essa finalidade última é chamada de eudaimonia, a felicidade no sentido de “bem-viver”[1]. Na escolha, o elemento da razão é chamado de deliberação. Ora, nós deliberamos sobre os meios para atingir nossos fins e nunca a respeito dos fins.

Na obra de Aristóteles “Ética a Eudêmio”, Hannah Arendt encontra os motivos pelos quais o filósofo achou necessário inserir uma faculdade na dicotomia razão e desejo. Para isso, ele cita a incontinência, que é comumente vista como algo nocivo ao homem, que não se deve desejar: a moderação ou so-phrosyne[2]seria o critério naturalmente dado de todos os atos. Um homem que segue seus desejos, cego para as consequências futuras, cultivando assim, a incontinência, é como se “o mesmo homem devesse agir, a um só tempo, voluntária [isto é, intencional] e involuntariamente [isto é, contrariamente às suas intenções] e isso, segundo o filósofo é impossível”.

 

Desta forma, a proairesis é a resolução para a contradição. A razão e o desejo necessitam de uma mediação para que o homem, que é assediado constantemente pelos impulsos conflitantes de ambas as faculdades, possa decidir entre eles por uma escolha deliberada. O que intervém é a razão; não o nous, que diz respeito às coisas que são para sempre e não podem ser diferente do que são, mas dianoia ou phronesis que lidam com as coisas que estão em nosso poder.

 

A ideia conclusiva de que a proairesis, faculdade da escolha, é a precursora da Vontade, é deveras tentadora. Estávamos anteriormente entre duas forças, a força da autoevidência - nela não somos livres para concordar ou discordar - e a força das paixões, que seria como se a natureza nos dominasse, a menos que a razão nos “obrigasse” a dela nos afastar. Há, porém, o problema do pequeno espaço que é deixado para a Liberdade atuar. Deliberamos somente sobre os meios para alcançar um fim que não podemos escolher. Hannah coloca o exemplo da felicidade que não se pode escolher, mas apenas os meios para alcançá-la. Quanto aos meios, “ora temos de descobrir quais são, ora como devem ser utilizados, ora por meio de quem eles podem ser adquiridos”. Por consequência, os meios e não somente os fins, são dados; e nossa livre escolha é apenas uma seleção “racional” entre eles; A proairesis seria o “árbitro” entre as diversas possibilidades.

A faculdade da escolha em Aristóteles encontra o correspondente no latim como liberum arbitrium. Nas discussões medievais, quando nos deparamos com o termo, estamos lidando com uma capacidade que haveria em nós de renunciar a uma livre escolha[3]. O liberum arbitrium não seria nem espontâneo, nem autônomo.

 

 

Para Hannah Arendt, Kant nos apresenta os últimos vestígios de um mediador entre razão e desejo, porém, essa “boa vontade” parece criar um estranho impasse: ou é “boa sem restrições – caso em que goza de completa autonomia – ou recebe sua lei[4] da “razão prática”, que diz à Vontade o que fazer. A Vontade em Kant retira seu poder de imposição da coerção que a verdade autoevidente ou o raciocínio lógico exercem sobre o espírito e, nesse sentido, sua “razão prática” se assemelha em muito ao nous pratikos de Aristóteles. Na verdade, a convicção de que tudo depende de nós e diz respeito somente a nós mesmos, está em nosso poder e é esse ponto comum que fica claro entre o pensamento de Aristóteles e o de Kant.

A Liberdade começa a tornar-se um problema, e a Vontade uma faculdade autônoma à medida que surge a seguinte questão: As coisas que só a mim dizem respeito estão em meu poder? [5]

 

Considerações Finais

 

A leitura do Texto de Hannah Arendt faz com que possamos entender como e onde se originaria no ser humano a questão da Vontade. Há uma sistemática adotada por ela que estabelece Aristóteles como o precursor desse pensamento acerca do tema.

Tal visão tem por base a questão do nous aristotélico, que passeia entre a prática e a teoria, na dialética da Vontade exposta pelo filósofo. Nesse pensamento, contemplamos a possibilidade de um mediador entre desejo e razão. Aristóteles visa solucionar essa dicotomia com a proairesis, que seria a escolha refletida dos meios para alcançar um fim, ou seja, o desejo deliberado.

Parece-nos, no entanto, que a autora poderia ter trabalhado a Vontade na filosofia antiga dentro de uma perspectiva platônica, sem olvidar da aristotélica. A questão do Eros dentro de uma visão ontológica de saciar-se com o objeto almejado, nos parece uma visão ainda mais antiga sobre uma filosofia da Vontade. Platão entendia que os desejos e os instintos poderiam, por vezes, subjugar a razão, porém, ao mesmo tempo, acreditava que uma “correta” educação da alma, permitiria ao homem controlá-los e orientá-los. Tal pensamento está exposto no Timeu, no Fedro e em alguns pontos da República.

A tensão do Eros dentro do dinamismo humano motiva-se no desejo de obtenção de algo. No caso do sujeito racional, este aplicará sua inteligência e seu discernimento para alcançar certos objetivos que valham realmente a pena.

Ressaltamos que a ideia de haver uma exposição de uma propositura platônica visa apenas enriquecer a discussão sobre uma genealogia da Vontade.

Referências

ARENDT, H. – O Querer. In A vida do espírito. Relume Dumará, RJ, 2000, 4ª. ed. Revista, trad. Helena Martins.

ARISTÓTELES – Da Alma (De Anima). Textos Filosóficos, edições 70, Lisboa, Portugal, trad. Carlos Humberto Gomes.

________ - Etica a Nicomaco. Ed Atlas, 2009, São Paulo, SP.

_________- Ética a Eudemio. Ed Tribuna da História, 2005, Portugal.

RYLE, G. Concept of Mind. University of Chicago, EUA, 1949.

TRABATTONI, F. Platão. Ana Blume, São Paulo, 2010. Trad. Rineu Quinalia.



[1] A relação entre os meios e os fins, quer na ação, quer na fabricação, é que todos os meios são igualmente justificáveis por seus fins; o problema moral específico na relação meio-fim – se todos os fins justificam os meios – jamais é mencionado por Aristóteles.

[2] Tal termo seria a conjunção de sozein (aquilo que salva) com phronesis (razão prática).

[3] Para esclarecer, citamos o exemplo do asno de Buridan: o pobre animal teria morrido de fome entre dois montes de feno equidistantes, cheirando igualmente bem, já que não haveria processo deliberativo que pudesse lhe dar uma razão para preferir um ao outro; ele só sobreviveu porque foi suficientemente esperto para renunciar à livre escolha.

[4] Imperativo Categórico.

[5] ARENDTH, Hannah, op.cit. pág. 233.