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EDUCAÇÃO E EXISTENCIALISMO: um diálogo possível entre Freire e Sartre

 José Alan da Silva Pereira

Graduado em licenciatura plena em filosofia pela faculdade de filosofia, ciência e letras de Caruaru – FAFICA. Atualmente mestrando em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

1. Introdução

 

          No prefácio para o livro Pedagogia do Oprimido, o professor Ernani Maria Fiori traz um dos testemunhos mais contundentes e uma das frases mais elucidativas sobre a personalidade educadora de Paulo Freire: “Paulo Freire é um pensador comprometido com a vida: não pensa ideias, pensa a existência” (FREIRE, 2005, p. 7). Ao ler tal sentença, percebemos a partir de onde um diálogo pode ser estabelecido entre esses dois gigantes do pensamento contemporâneo, a saber: Freire e Sartre.       

   

          Talvez esta seja uma das frases que melhor condense a proposta pedagógica tão discutida por Freire ao longo de sua vasta produção bibliográfica: o comprometimento com uma educação que liberte! De uma educação cujo foco é o sujeito, o indivíduo e, cujo palco de sua atuação, é o mundo. Como pensador comprometido com a vida, Freire consegue enxergar que nem o sujeito e nem o mundo estão desarticulados, que a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele; aliás, Sartre tratará sobre isso também ao discutir sobre o engajamento e sobre a responsabilidade.

          Nosso diálogo com o existencialismo já começa aqui. Concentraremos nossos esforços na responsabilidade do sujeito livre que, responsável por todos os seus atos, é responsável também por sua educação, por sua existência concreta, por aquilo que se pode experimentar a cada dia, quer seja numa prática pedagógica, ou na construção do conhecimento, ou na práxis humana, sobretudo, na construção humana, na construção do “si mesmo”. Então, pensar a existência, seja pelo viés da educação ou da filosofia, é pensar a condição humana; é pensar o modo como nos fazemos, nos desejamos e nos queremo diante da vida.

          Reconhecemos de antemão que o primeiro ponto de diálogo entre esses dois pensadores é justamente a compreensão antropológica. Para ambos, o homem é projeto e, como tal, responsável por seu fazer e construir-se. Freire é defensor da autonomia; Sartre, da liberdade. Para aquele, educação é ação e atividade, logo, fundamentos da autonomia; para este, “a condição indispensável e fundamental de toda ação é a liberdade do ser atuante” (SARTRE, 1997, p. 540). Desse modo, a autonomia pensada por Freire não seria semelhante à liberdade proposta por Sartre? Ambos os pensadores trataram sobre questões éticas, estéticas, antropológicas, filosóficas. Ambos falaram sobre escolha, engajamento e responsabilidade. Ambos discutiram sobre a importância da autenticidade. Todas essas questões debatidas nos fazem ratificar que o mais necessário para uma educação progressista é realmente pensar a existência. É isto que realmente importa.

2. Existencialismo e Educação

 

          O existencialismo é uma filosofia de protesto e, como tal, seus partidários não se preocupam com uma metodologia e uma exposição sistemática. Os existencialistas acreditam que a maioria das filosofias do passado pensam a partir de abstrações que tem pouca ou nenhuma relação com a vida concreta e cuja discussão se concentra sobre o improvável. Já o existencialismo é uma filosofia na qual o indivíduo é o protagonista, o agente, o participante; aquele que explora seus próprios sentimentos e os relaciona às ideias e à própria vida.

          Quanto à educação e o existencialismo, podemos notar que há uma ênfase não em um debate de ordem superior (ideias metafísicas), mas no ato de criar, ou seja, na criação de ideias relevantes às próprias necessidades e interesses da existência humana. A educação existencialista concentra-se sobre o ato criador do sujeito, isto é, sua autonomia e liberdade em fazer-se o sujeito da educação. Resulta disso que, a atenção voltada às ideias só se dá de fato porque são os homens que as inventam. O homem é o criador de todos os valores: quer positivos, quanto negativos.

          De acordo com isso e com o que temos presenciado no quadro educacional, atravessamos uma crise de valores nos saberes pedagógicos, onde educandos desconhecem seu papel como estudantes, e professores – influenciados por inúmeras questões de outra ordem – esquecem de sua prática enquanto docentes e de suas responsabilidades. Decorrendo disso, inúmeras discussões sobre o melhor método de ensino, de avaliação, a melhor maneira de utilizar os recursos didáticos para atingir a vida dos envolvidos na relação pedagógica. Porém, essas discussões tornam-se estéreis por não acharem um ponto central. Toda essa metodologia só tem sentido se for pensada a partir da existência e das necessidades concretas dos sujeitos implicado na educação.

          Em um diálogo entre educação e existencialismo o que se pretende é mostrar que a ênfase na importância de uma pedagogia da autonomia, dos saberes necessários a uma prática educativa[1] precisa levar em consideração aspectos ético-antropológicos que perpassem a vida dos sujeitos da educação, levando em consideração que, todo estudante, bem como todo educador e educadora, precisa reconhecer suas responsabilidades, seus direitos e deveres para com a educação e os modos de vivenciá-la.

          A pedagogia desenvolvida por Freire nos dá o suporte para a compreensão de um novo acesso à educação e, concomitante a ela, a filosofia existencialista abre caminhos de importante discussão para este cenário. As idéias de centralidade e desenvolvimento da capacidade criativa, livre e autônoma dos sujeitos, a ênfase na construção do conhecimento, de uma educação voltada para o desenvolvimento das habilidades pessoais, e de seu posicionamento político-ético no mundo-vida (Lebenswelt) de cada um, é um traço da educação que o existencialismo e a teoria freiriana da educação vêm enfatizando.

          No existencialismo, bem como no pensamento de Freire, a preocupação não são com ideias – como nos lembra o professor Ernani no início do texto – nem com o universo da abstração apenas, mas com aquele que concebe estas ideias, com aquele que constrói, e esta produção de ideias e conhecimentos só têm sentido se estiverem ligados ao mundo concreto da existência, se estiverem comprometidos com a vida, pensando as condições da própria existência (FREIRE, 2005, p. 7).

          Diante da ameaça de um paradigma epistemológico de saber autoritário, vigente e dominante, diante do paradigma do opressor, que se impõe sem a mínima consideração ao sujeito, surge a pedagogia do oprimido – em freire – e porque não, a condenação à liberdade e à construção – em Sartre – como caminhos para um sadio “desequilíbrio” dos paradigmas pedagógicos vigentes, afim de que estes cedam seu lugar a um novo paradigma que, como diria Boaventura de Souza Santos, seja um paradigma de saber solidário (SANTOS, 2007, p. 55-117). A partir destas questões colocadas aqui, percebemos que, tanto a proposta pedagógica de Freire, quanto à existencialista de Sartre, abrem para a educação uma prática comprometida com a formação humana, com a formação existencial.

          Trazer para o debate uma discussão sobre o homem e a mulher, o educador e a educadora, o educando e a educanda, como responsáveis por sua própria construção, não só como sujeitos capazes de conhecimento, mas como seres totalmente responsáveis pela construção de suas próprias vidas – com conseqüências coletivas – engajadas na práxis e na história de seu tempo, em suas comunidades, sujeitos da relação pedagógica, que entendem que não existe criatividade sem uma curiosidade capaz de movê-los a saírem de si, e a colocá-los em contato com um mundo que não foi criado por eles, mas que não os exime do engajamento de fazer algo por esse mundo (Id. 1996, p. 32), é muito necessário.

          A compreensão de que o homem e a construção de sua presença no mundo não se dão isoladamente, mas simultaneamente, numa síntese de influências sociais, históricas, genéticas, culturais e que, como sujeitos da história, nossa presença no mundo deve ser a de quem se engaja, se insere, e não a de quem se adapta – são questões que merecem sempre ser discutidas e problematizadas. O juízo de adaptação é conivente com a mentalidade de submissão que tanto prejudica a transição do pensamento ingênuo para a curiosidade epistemológica (FREIRE, 1996, p. 53).

          Dessas considerações emerge a importância de uma educação para a liberdade e para a autonomia que conscientize os sujeitos da relação pedagógica, das razões de ser e dos obstáculos que se colocam frente a uma realidade que precisa de mudança: a conscientização é uma exigência humana, diz Freire (1996, p. 54), e assim sendo, é tarefa da educação buscar os meios adequados para ajudar os envolvidos com ela a superarem toda forma de hegemonia e dominação em vista de um saber mais solidário, ético e humano.

“Os existencialistas sustentam que a educação deveria concentrar-se na realidade humana individual” (OZMON & CRAVER, 2004, p. 254), que o indivíduo é um ser único no mundo, não só criador de idéias, mas um ser vivo, sensível e consciente; o indivíduo é tanto uma criatura sensível e irracional, quanto insensível e racional. “O indivíduo está sempre em transição, portanto, o momento em que pensamos que nos conhecemos é, provavelmente o momento de começar a examinar tudo novamente” (Id. p. 254). A educação existencialista enfatiza a individualidade, pois, é no encontro com o “si mesmo” que cada um pode perceber seus medos, frustrações e esperanças, e o melhor modo de usar a razão. O primeiro passo para a uma educação qualitativa é entendermos a nós mesmos.

          Tradicionalmente, a educação não incentiva a visão da absurdidade da vida mas apenas o lado bom é enfatizado. Um dos objetivos da educação existencialista é mostrar a realidade tal qual ela é, com suas frustrações e conquistas. Os existencialistas acreditam que uma parte vital da educação de uma pessoa é examinar o lado feio e perverso da vida, o irracional, da mesma forma que o lado bom é amplamente visto. A educação deve ensinar para as crianças as diversas facetas da realidade humana, sejam boas ou más, racionais ou irracionais [2]. A ansiedade, o absurdo, o nada, etc., são categorias centrais da filosofia existencialista, e a educação deve proporcionar um entendimento da ansiedade e dessas questões humanas. As pessoas se frustram porque a educação não as prepara para um mundo de conflitos. A ansiedade é uma consciência da tensão da existência. A vida exige certo grau de tensão. Outra categoria, talvez a mais importante da educação existencialista é a possibilidade. Esta é um dos objetivos da educação, visto que, a ênfase no ser humano é realmente uma ênfase no tornar-se, na possibilidade de vir-a-ser, já que a consciência humana nunca é estática.

Conclusão

          É desse modo que podemos perceber uma relação grandiosa e frutuosa entre esses dois pensadores contemporâneo. Cada qual a seu modo, e em suas especificidades tiveram propostas absolutamente comprometidas com o gênero humano. Ambos trabalharam a partir da perspectiva antropológica, um enfatizando a construção filosófica da realidade, outro a realidade pedagógica, ambos contribuindo consideravelmente para a compreensão contemporânea de homem.    

          Muito ainda ficou por ser dito, mas, o exercício epistemológico é bem esse: nunca esgotar-se, afinal, se isso acontecesse, perderíamos o sentido da pesquisa, da busca, daquilo que nos constitui.        

          O diálogo não pára por aqui. São tantas as contribuições desses dois pensadores que muita pesquisa poderá realizar-se sobre o tema. Quisemos desenvolver um estudo que levasse em consideração algumas das aproximações mais evidentes e imediatas e, nos deparamos com a autonomia, a liberdade, a responsabilidade, como preocupação fundamental da educação e uma das preocupações principais da teoria freiriana. Esperamos que nossa prática possa configurar-se cada vez mais com autenticidade, autonomia e liberdade.

 

REFERÊNCIAS

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 35ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

 

_____. Pedagogia do Oprimido. 47ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

 

MARTINS, Joel; BICUDO, Maria Aparecida Viggiani. Estudos sobre Existencialismo, Fenomenologia e Educação. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2006.

 

OZMON, Howard A.; CRAVER, Samuel M. Fundamentos Filosóficos da Educação. In: Existencialismo, Fenomenologia e Educação. 6° ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente:contra o desperdício da experiência. V. 1. In: _____. Da ciência moderna ao novo senso comum. 6º ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 55-117.

 

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Trad. Rita Correia Guedes. 3ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

 

_____.  O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Trad. Paulo Perdigão. 14ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

 

 


[1] Referência indireta ao título do livro Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa, de Paulo Freire.

[2] A própria literatura infantil descarta o lado negativo-concreto da vida, ao enfatizar um tipo de final feliz para os contos de fada que é impossível à realidade humana. Veja-se, ao contrário, o feliz caso de C. S. Lewis que escreveu uma obra fantástica, intitulada As Crônicas de Nárnia, onde o lado perverso e cruel da vida é mostrado, do mesmo modo que uma significação para isto também é revelado.

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