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Relação metafísica e idéia do Infinito em Lévinas

“A verdadeira vida está ausente’. Mas nós estamos no mundo. A metafísica surge e mantém-se neste álibi. Está voltada para ‘outro lado’, para o ‘doutro modo’, para o ‘Outro’ (Lévinas 2000 21)”.

Com a afirmação supra começa Lévinas o capítulo “Metafísica e Transcendência” em Totalidade e Infinito. Sua concepção de metafísica tem uma abordagem muito particular, posto pensá-la inserida no mundo, fundada no homem e não em um Deus perfeito ou alguma transcendência inexplicável, como se encontra comumente em outros pensadores.

Deparando-se o Eu diante do estranho, do Outro, segundo Lévinas surgem duas opções: dominar o Outro, fazê-lo representado no mundo egoísta ou preservá-lo, mantendo a distância[1], o afastamento. No primeiro caso ter-se-á fundado uma totalidade, anulando completamente a alteridade. No segundo caso, ter-se-á uma relação estabelecida no face-a-face e sustentada pelo discurso, o qual mantém a distância e preserva tanto o Mesmo quanto o Outro.

É nessa segunda alternativa, na relação entre o Eu e o Outro, que a metafísica levinasiana encontra sustentação. É o movimento da interioridade para a exterioridade, do familiar para o estranho.

Todo movimento é provocado por uma força. Para Lévinas, o que impulsiona o movimento metafísico é o desejo, mas não um desejo que leve à mera satisfação de uma necessidade, porquanto se assim o fosse, levaria à absorção do Outro pelo Eu, como no “alimentar-me”, e permaneceria na totalidade do Mesmo.

Lévinas entende que se trata de um desejo que preserva a alteridade do Outro, sem qualquer expectativa por parte do desejante de reciprocidade. É o desejo que não pretende aproximação ou posse; ao contrário, supõe o afastamento, a alteridade. O Desejo metafísico não se refere ao que pode trazer completude, mas segue em outro sentido, com outra intenção, “deseja o que está para além de tudo o que pode simplesmente completá-lo. É como a bondade – o desejado não o cumula, antes lhe abre o apetite (Lévinas 2000 22)”.

O Desejo metafísico só pode ser, pois, o desejo do outro “absolutamente outro” e, portanto, do invisível. Trata-se aqui do desejo do ser mortal pelo Outro invisível, transcendente. Importante é notar que essa invisibilidade não enseja uma impossibilidade de relação, mas sim uma relação com o desconhecido. A visão, aliás, traz em sim a idéia da compreensão totalizante. O Desejo metafísico é inadequação, “mas fora da luz e do escuro, fora do conhecimento que mede seres, a desmedida do Desejo. O Desejo é desejo do absolutamente Outro. (Lévinas 2000 22-23).

Assim, o Desejo do Invisível provoca um movimento do Eu em direção à exterioridade do absolutamente Outro e promove uma ruptura da totalidade, caracterizando esse movimento como transcendente e, ainda, uma separação absoluta:

A transcendência pela qual o metafísico o designa tem isto de notável: a distância que exprime – diferentemente de toda a distância – entra na maneira de existir do ser interior. A sua característica formal – ser outro – constitui o seu conteúdo, de modo que o metafísico e o Outro não se totalizam; o metafísico está absolutamente separado. (Lévinas 2000 23).

Diante de uma relação do Mesmo com o Outro em que não há absorção, preservação da alteridade significa dizer uma relação em que o Eu sai de sua interioridade em direção à exterioridade manifesta pelo Outro, num movimento transcendente e, pois, metafísico.

O Mesmo, na visão de Lévinas, não se reduz à mera tautologia “Eu sou Eu”, mas principalmente se refere à relação de posse estabelecida entre o Eu e o mundo em que está, ou seja, ao domínio egoísta do Eu sobre o mundo. “A possibilidade de possuir, isto é, de suspender a própria alteridade daquilo que só é outro à primeira vista e outro em relação a mim é a maneira do mesmo.” (Lévinas 2000 25).

Considerando, então, que nessa relação o Outro não é compreendido – do latim comprehendere, termoquesignifica conter em si; constar de; abranger – pelo Eu e não faz parte do Mesmo, fica evidente que o movimento do Eu desejante do Outro invisível, ao romper a totalidade enseja uma relação de natureza transcendente, isto é, metafísica. Não é uma relação de satisfação individual, que mate a sede ou atenda aos sentidos, vai além de qualquer tipo de satisfação. É desejo que não exige satisfação, mas ao contrário, assimila o afastamento, preserva a alteridade mantém a exterioridade do Outro. Trata-se aqui da entrega total, de “morrer pelo invisível”(Lévinas 2000 22-23).Mas não é só. Essa relação não é meramente um ato mental. A fala, o diálogo deve ser estabelecido entre o Eu e o Outro como único meio de contato em tal afastamento e sustentação dessa relação. Assim se dá a ruptura da totalidade, mediante a manutenção do vazio entre o Eu e o Outro, sem que haja a absorção do Outro pelo Eu.

O diálogo é o fio tênue que mantém essa relação sem que haja união total entre o Mesmo e o Outro e, ao mesmo tempo, sem deixar que ela se desfaça. É a manutenção da ligação entre o finito e o infinito, que se faz tal qual como pensado por Descartes, “em que o ‘eu penso’ ... não pode de modo nenhum conter de que está separado [do infinito], uma relação chamada ‘idéia do infinito’... (Lévinas 2000 35-36).

Lévinas credita a Descartes essa forma de compreender a idéia de infinito, cujo esquema encontramos em seu pensamento, tal como nas Meditações:

Tanto Descartes como Lévinas pensam o infinito a partir de uma relação do Eu com algo que não pode ser contido na razão humana.

Mas, Lévinas estabelece um outro entendimento para a origem da idéia do infinito, diferentemente de Descartes, atribuindo-a à própria relação metafísica do Mesmo com o absolutamente Outro, exterior ao mundo do Eu, irredutível à representação e do qual só se pode ter a idéia de Infinito, posto que o conteúdo do infinito transborda os limites de toda compreensão, pois “a idéia do infinito tem de excepcional o fato de o seu ideatum ultrapassar a sua idéia”. Um ser transcendente se caracteriza precisamente pela sua infinitude. Nesse sentido, o infinito é o Outro absoluto – absoluto porque não é em nenhum momento parte do “Eu”. Assim, do transcendente só se pode ter uma idéia, porquanto está “infinitamente afastado da sua idéia – quer dizer, exterior – porque é infinito” (Lévinas 2000 36).

Discordando, pois, de Descartes quanto à origem da idéia de Infinito, qual seja, Deus, vez que estaria fadado a admitir uma totalidade fundada em Deus e, por conseqüência, uma superioridade mística ou mesmo a morte como via de acesso à verdade absoluta, também não aceita a intencionalidade husserliana para relação com o Outro, tendo em vista que isso levaria à exclusão da alteridade, ensejando a absorção do Outro pelo Eu, o que consistiria também numa Totalidade. Desse modo, Lévinas pretende uma filosofia que respeite a alteridade e, sobretudo, estabeleça uma relação ética e justa entre os homens. Qualquer outra via que não privilegie essa relação levará à injustiça.

Lévinas pretende, pois, entre uma filosofia que privilegia uma transcendência que só pode ser alcançada mediante uma elevação litúrgica, mística ou ao morrer e outra que propõe o acesso ao verdadeiro ser do Outro objetivado, reduzido a noema, encerrado no Mesmo, trilhar um terceiro caminho, longe de uma totalidade divina ou totalizante, mas focada na existência terrestre, “uma relação que não é uma totalização da história, mas a idéia do infinito. (Lévinas 2000 39).

A situação estabelece o face-a-face, numa relação em que o Outro é irredutível ao Mesmo, mantendo-se absolutamente separado, embora na experiência do face-a-face, que é a própria experiência da transcendência e da separação, impedindo dessa forma a formação de uma Totalidade (absorção do Outro pelo Mesmo). É o Infinito que sustenta a alteridade, pois entre o Eu e o Outro haverá sempre uma distância insuperável. A idéia do Infinito implica numa existência separada, mas não é meramente algo que venha de fora, pois se assim fosse encerraria uma nova totalidade. É, sim, a própria transcendência, “o transbordamento de uma idéia adequada. Se a totalidade não pode constituir-se é porque o Infinito não se deixa integrar. Não é a insuficiência do Eu que impede a totalização, mas o Infinito de Outrem (Lévinas 2000 66).

Lévinas defende, portanto, que idéia de infinito está no homem como uma estrutura formal, posto que o homem existe sempre separado do Outro. Mas tal separação não pode ser meramente espacial ou temporal. A separação de que fala Lévinas é transcendental, é o transbordamento constante do Outro, que não é adequado jamais ao meu pensamento.

E se não fosse essa capacidade de o Outro transbordar toda e qualquer representação que se faça dele, o Eu se completaria do Outro, e a alteridade estaria fadada se exaurir. Então o Outro seria sempre redutível a noema e não haveria saída para a totalidade estabelecida no mundo contemporâneo.

Luiz Meirelles

Mestre em Filosofia – PUC/SP

 

Bibliografia:

LÉVINAS, Emmanuel. Totalitade e Infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Biblioteca de Filosofia Contemporânea. Lisboa: Edições 70, 2000.

__________________ Ethique et Infini. Dialogues avec Philippe Nemo. Paris: Fayard, France Culture, 1982.

 



[1] A distância é fundamental para que o Outro não seja tido como objeto e absorvido pela mesmidade do Eu. É a distância que permite a preservação da alteridade.

 

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