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Editorial

Desde o início do século XX, o homem começou a despertar para o fato de que a razão pura e unicamente não o poderia levar muito adiante. As duas grandes guerras comprovaram a decadência do sistema que pregava a supremacia da razão.  O tempo, contudo, continua passando e parece que não há alternativas. O sistema vigente está organizado dentro de uma razão de produção e acumulação de riquezas, ainda que isso signifique a exclusão, a marginalização de 1/3 da raça humana ou mais. Os números indicam que não há motivos para tanta gente passando fome, morrendo sem ter um pedaço de pão ou um gole de água, salvo a razão que apregoa não se poder produzir se não for para se auferir lucros. Ao mesmo tempo em que as nações do chamado primeiro mundo perscrutam o espaço em busca de um novo habitat, supostamente preocupadas, entre tantos objetivos, com a sobrevivência do homem, vemos na televisão, em jornais e revistas as maiores crueldades sendo praticadas contra o homem desde a segunda guerra, e pasmem! Pelas nações mais desenvolvidas da face da terra.  Que será que somos nós, homens? Animais bons e dóceis, desvirtuados pela sociedade ou animais antropófagos – no pior dos sentidos –, domesticados pelo Estado?

Em meio a esse estado de selvageria que permeia a civilização humana, principalmente a ocidental, não podemos deixar de lembrar Thomas Hobbes, que viu no Estado a solução necessária para a sobrevivência humana. Mas talvez Hobbes não se tenha atentado para o fato de que o seu Estado forte, absoluto, evidentemente se transformaria não apenas no Estado de Direito, mas no Estado de Guerra, não entre os particulares, mas, o que é paradoxal, entre os próprios Estados, legitimando, em última instância, o estado de guerra entre os particulares, posto que se o homem já não mata e morre pelos seus ideais apenas pessoais, faz pior ao defender os ideais do Estado.

Não estamos aqui, evidentemente, defendendo o fim do Estado de Direito. Estamos questionando a natureza desse Estado, sua forma de agir diante de outro Estado. E não estamos tampouco pensando em inocentar o indivíduo e condenar o coletivo. Fácil é a ilusão daqueles que pensam assim. O Estado não foi criado para ser o único culpado de tudo, das boas e das más ações. Cada homem, indivíduo, é responsável por tudo, por todos os outros, e eu, você, mais do que todos. Essa é uma das questões centrais da nossa sociedade. O homem tem fugido de suas responsabilidades pessoais diante da comunidade em nome de uma tal representação política... É mais fácil reunir pessoas para uma passeata de protesto do que para um mutirão comunitário.

Mata-se em nome de Deus ou do Estado tal como se espera uma solução milagrosa de um ou de outro. E assim o homem continua a livrar-se de sua responsabilidade pessoal. É preciso fazer a releitura da natureza da responsabilidade e da liberdade humanas. Muito perspicaz foi Martins Heidegger ao detectar que não é o homem que possui a liberdade, mas a liberdade o possui. E Lévinas, por sua vez, deu o passo decisivo ao defender que a responsabilidade pelo outro é anterior à liberdade do homem. Somente assim poderemos estabelecer uma civilização ética não excludente, pois cada ato de liberdade humana estará pautado sempre na responsabilidade pelo outro. Pensamos, portanto, num resgate do humanismo, mas não fundado na totalidade do sistema, e, sim, fundante de um novo sistema que tenha por princípio maior a preservação da alteridade.

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2004
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Ética e Justiça: a proposta de Enrique Dussel para libertação

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O Itinerário de Sartre:

Do existencialismo à dialética

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V. Mathias, Santos/SP

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Jornal Paradigmas, uma publicação do CEFS – Centro de Estudos Filosóficos de Santos

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