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Considerações acerca de Hans Küng e Enrique dussel

 O presente artigo tem por finalidade apresentar uma análise comparativa entre os pensamentos de Hans Küng e de Enrique Dussel fundamentando-se não apenas nas leituras realizadas, mas, precipuamente, nos estudos realizados durante o 2º semestre do ano de 2002, durante o curso “Filosofia das Ciências Humanas II”, ministrado pelo Professor Doutor Benedito Eliseu Leite Cintra, como parte do programa de Mestrado/Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo /SP.

Muitos seriam os caminhos que poderíamos adotar para o escopo pretendido. Contudo, considerando um melhor aproveitamento com vista a dar uma visão mais ampla das semelhanças e distinções entre as duas obras, procuraremos desenvolver o texto em quatro momentos. Primeiramente, uma breve apresentação dos autores objeto da análise. A seguir, destacaremos alguns aspectos que consideramos basilares para entendimento da obra de Küng. Num terceiro momento, esboçaremos algumas das principais questões abordadas por Dussel, a fim de que, num quarto instante, possamos traçar algumas linhas conclusivas acerca do tema ilustrado.

1 – Hans Küng é professor de Teologia e Filosofia e profícuo escritor. Estudou filosofia e teologia na Universidade Gregoriana de Roma, na Sorbonne e no Instituto Católico de Paris. Küng ganhou, também, vários títulos honorários de muitas outras universidades.

Nascido em 19 de março de 1928, em Sursee (lucerne, Suíça), estudou naquelas cidades e, em 1948, ingressou na Universidade Gregoriana de Roma. Em 1951, licenciou-se em Filosofia. Foi ordenado padre no ano de 1954 e no ano seguinte formou-se em Teologia; em 1957, doutorou-se em Teologia, com a tese: “Justificação. A doutrina de Karl Barth e uma reflexão católica”. No período de 1962 a 1965, serviu como consultor teológico oficial para o Concílio Vaticano II, indicado pelo papa João XXIII. De 1960 até sua aposentadoria, em 1996, foi professor de Teologia Ecumênica e Diretor do Instituto de Pesquisa Ecumênica da Universidade de Tübingen. Em 1971, notabilizou-se como primeiro grande teólogo a rejeitar a teoria da infalibilidade papal, com seu livro “Infalível? Uma questão”. Assumiu sempre uma posição independente dentro da Igreja Católica, exercendo, por meio de seus livros, o papel de crítico contundente de muitos pontos tradicionais da Igreja, o que fez com que, em 1979, o papa lhe impusesse a pena de impedimento de lecionar como teólogo católico. Em razão dessa penalidade, passou, então, a lecionar na cadeira de Teologia Ecumênica.

Atualmente, é presidente da Fundação para uma Ética Global, co-editor de alguns jornais e tem escrito muitos livros, os quais têm sido traduzidos em várias línguas. Foi o principal autor da Declaração para uma Ética Global do Parlamento das Religiões Mundiais, em 1993, bem como da proposta do Concílio InterAção, para uma Declaração Universal de Responsabilidades Humanas, em 1997.

No livro “A Igreja Católica”, Hans Küng apresenta os aspectos que considera essenciais no curso da história da Igreja Católica, acompanhados de uma reflexão crítica menos contaminada possível pelo catolicismo oficial. Assim, ao longo do livro, o leitor se depara não apenas com uma descrição de fatos, mas, fundamentalmente, com um cotejamento entre esses, o caminho adotado pela Igreja e o entendimento do autor daquele que seria o rumo indicado pela mensagem de Jesus de Nazaré.

2 – Vejamos, agora, alguns pontos que nos respaldarão na tentativa de estabelecer uma relação entre  Küng e Dussel.

A primeira grande distinção feita por Hans Küng é quanto ao sentido do termo “igreja”. Explica, então, o sentido primeiro, o de assembléia destituída de qualquer organização hierárquica, a igreja de Jesus e seus apóstolos; e o segundo, de instituição hierarquicamente organizada, a igreja papal. Ressalta, aí, a necessidade de se fazer prevalecer o sentido primeiro diante do segundo, afirmando: “Dos primeiros tempos até o presente, a igreja foi, como ainda é, a associação daqueles que acreditam em Cristo, a associação daqueles que se comprometeram com a pessoa e a causa de Cristo e atestam isso como esperança para todos os homens e mulheres”.1 E completa: “Onde não realiza a causa de Jesus Cristo, ou a distorce, a igreja peca contra si mesma e se perde”.2

Feito o esclarecimento, o autor apresenta, então, Jesus não como o fundador da Igreja Católica, mas sim da igreja enquanto comunidade, a qual, lembramos, para o autor, é mais importante do que a institucional. E esse ponto é fundamental, pois dessa forma Küng começa pôr em “xeque” os dogmas católicos, precisamente o do celibato, concluindo: “alguém que prezava o casamento e jamais fez do celibato uma condição para o discipulado, um homem cujos primeiros discípulos eram todos casados e assim permaneceram (Paulo afirma ser exceção), não pode servir de autoridade para a regra que obriga o clero ao celibato”.3

O segundo ponto questionado é quanto à legitimidade do Papa. O autor traz ao seio da discussão o fato histórico de que Pedro, considerado a “pedra” fundamental do papado, jamais teve um poder semelhante ao de um Papa, afirmando que “na primeira igreja, Pedro sem dúvida possuía uma autoridade especial; entretanto, não a possuía sozinho, mas sempre conjuntamente com outros. Ele estava longe de ser um monarca espiritual, ou mesmo um governante único”.4 E aponta, quanto à hierarquização da igreja, que muitos documentos padecem de falsificação, que, aliás, lembramos, são comuns ao longo da história da Igreja. E afirma: “a primeira lista de bispos, do padre da igreja do século II Irineu de Lyon, segundo a qual Pedro e Paulo transferiram o ministério do episkopos para um certo Lino, é uma falsificação do século II ... a constituição presbiterial-episcopal da igreja não se baseia em nenhuma instituição criada por Jesus Cristo e de modo algum pode ser vista como absolutamente intrínseca ao cristianismo...”5       O terceiro aspecto enfrentado por Küng é quanto à autoridade da Igreja de Roma.  Ressalta o autor que a igreja teve início nas comunidades judaicas e não em Roma. E lembra: “Entretanto, indiscutivelmente não foi Roma, mas sim Jerusalém a comunidade principal e a matriz do primeiro cristianismo”. 6

Desde já, fica evidenciado que Hans Küng pretende um questionamento mais profundo de todos os valores da Igreja. Assim, aborda, com detalhes, a formação da Igreja,  desde as suas características primitivas, com a morte de Jesus, até o período patrístico, marcado por Santo Agostinho, ressaltando, entre outros, o papel de Paulo, não como fundador do cristianismo, mas como missionário fundamental para o alastramento da religião cristã, conforme se depreende aqui: ”Com esse programa e essa atividade incansável, em questões intelectuais e em teologia bem como em trabalho missionário e política da igreja, o apóstolo tem um sucesso retumbante com sua missão para os gentios. Só assim poderia acontecer uma verdadeira enculturação da mensagem cristã no mundo da cultura helenística; só assim a pequena “seita” judaica poderia tornar-se uma religião mundial que uniu o Oriente e o Ocidente”.7

Destaca, também, o surgimento da hierarquia na igreja, apontando os vícios originários, os quais incluem até mesmo falsificações, como vimos acima.

Aborda ainda, é claro, as perseguições sofridas pelos cristãos, mostrando as influências sofridas pela helenização, as quais, consoante o autor, foram de cunho altamente negativo, posto que enquanto no cristianismo hebraico zelava pela prática cristã, o helenístico voltou-se para a pregação da verdade revelada, conforme explica: “Mas as discussões, no cristianismo helenístico,  giravam cada vez menos em torno do discipulado prático de Cristo e cada vez mais na aceitação de uma doutrina revelada...” 8

Finalmente, encerra essa primeira fase histórica com algumas considerações sobre o papel de Agostinho. Com Agostinho, afirma Küng, consolida-se a supremacia da Igreja frente ao indivíduo, o que vai, somando-se a outros argumentos agostinianos, justificar as cruzadas e inquisição, consoante explica: “Assim, pelos séculos afora, Agostinho, que era capaz de falar de forma tão convincente do amor de Deus e do amor humano, e aliás definiu Deus como ‘amor em si’, fatalmente tornou-se a testemunha principal para a justificação teológica das conversões forçadas, a Inquisição e a guerra santa contra transviados de todos os tipos – algo que não ocorreu da mesma maneira no Oriente cristão”. 9

 A seguir, Hans Küng expõe a história da Igreja desde Leão I, considerado o primeiro papa, até a situação da Igreja na contemporaneidade, merecendo destaque a oposição fundamental ao iluminismo assumida na modernidade, conforme apresenta o autor: “Sob a direção de Pio IX, um homem emocionalmente instável e imune à dúvida intelectual que manifestava os sintomas de um psicopata, a fortaleza católica medieval da Contra-reforma agora era construída contra a modernidade com todos os poderes disponíveis.”10;  e a retomada da infalibilidade dogmática do papa, estabelecida em 1870, durante o papado de Pio IX. Dogma esse que foi questionado pelo autor principalmente em sua obra “Infalibilidade? Uma questão”, publicada em 1970, a qual deu origem ao seu processo de cassação.

Enfim, importa sublinhar algumas considerações do autor a respeito do futuro da Igreja, as quais também são cruciais para o fim a que nos propomos.

 Küng, defende quatro aspectos:

A igreja precisa retomar suas origens, isto é, a mensagem e prática de Jesus.

As mulheres devem ser aceitas em todos os misteres da igreja.

A igreja precisa abrir-se, pôr um fim nas excomunhões e associação eucarística.

O imperialismo romano deve dar vez à universalidade das religiões.

 Assim, acredita o autor, que a paz possa existir entre as religiões, e, pois, entre as nações, praticando e apoiando a solidariedade, a pluralidade, a igualdade entre homens e mulheres, a promoção da paz, a preservação da natureza e o ecumenismo universal, preservando-se as várias religiões.

Na próxima edição estaremos apresentando alguns aspectos biográficos de Enrique Dussel, os pontos fundamentais da sua teoria e as considerações analíticas finais.

Luiz meirelles

Mestrando em Filosofia PUC/SP

 

[1] KÜNG, Hans. “A Igreja Católica”, pág. 29.

2 Idem, pág. 30.

3 Idem, pág. 32.

4 Idem, pág. 36.

5 Idem, pág. 49

6 Idem, pág. 37.

7 Idem, pág. 45.

8 Idem, pag. 54.

9 Idem, pág. 77.

10 Idem, pág. 203.

 

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