Editorial
O silêncio e a guerra: um paradoxo.
O mundo está em guerra, ela é presente, neste momento está sendo travada. Porém, ocorre um paradoxo: um dos marcos da história contemporânea é a visibilidade, desde o advento da fotografia, passando pelo cinema e o desenvolvimento da fonografia, o homem moderno tudo registra.
É possivel registrar o nascimento e a evolução das várias fases da vida de uma pessoa em todos os sentidos, desde as primeiras falas até os últimos passos.
Com o desenvolvimento da tecnologia e a informática, a velocidade da informação e a troca de registros aceleraram-se. Por exemplo, na Internet, a noticia é instantânea.
As comunicações via satélite mais do que nunca tornaram possível a idéia de “aldeia-global”, encurtaram o mundo e dão outra noção da idéia de tempo.
Historicamente, é interessante consultar os jornais do início do séc. XX ou XIX; em geral a expressão “notícias desencontradas” ou “informações não claras ainda” são termos comuns nas análises dos grandes acontecimentos. Basta ver que a notícia da independência do Brasil só chegou ao Norte do país, na região da Amazônia, um ano depois!
Hoje, o instantâneo da informação é um fato concreto, não importa o lugar, a distância ou as dificuldades do terreno, surgem na tela, quer seja de um televisor, um computador ou de um celular.
Essa dinâmica, mais do que nunca, influencia as pessoas, obrigando os homens a uma reconstrução ou releitura da Ética. Não é sem motivos que a cadeira de Ética está presente, hoje, em vários cursos universitários e mesmo nos de nível médio e de educação infantil.
Assim, a Ética está na ordem do dia. Porém, vejamos a contradição: apesar de toda parafernália comunicativa, sabemos muito pouco sobre a atual guerra, seus efeitos e seus resultados. Existe uma caçada e um governo intolerante que precisam ser afastados. O homem caçado e o governo em questão fazem parte de um Estado militarmente forte e socialmente bem estruturado?
Não! A maior potência do mundo ocidental utiliza armas de última geração (cunhadas como “inteligentes”), para enfrentar um governo tribal com algum armamento e montado a cavalo!
Parece bem desproporcional o embate, é a indústria bélica mais poderosa, contando com aliados poderosos contra as rústicas armas de uma tribo com cavalaria!
Mas é a caça ao “terror” (é o caso de se perguntar quem é o mais terrorista entre tantos existentes em meio a Estados tão beligerantes).
O que está sendo silenciado? Bem, Putin, o ex-chefe da KGB, foi muito bem recebido em Washington, foi considerado o “homem do petróleo” e, é bom ressaltar, a Rússia é o segundo maior produtor do mundo do tal “sangue do capitalismo”. É só dar uma olhadinha no mapa e lá está, o Afeganistão tem petróleo e a região próxima também, e o vizinho produz ogivas nucleares. Isto ninguém noticia ou apresenta imagem ou analisa. Tudo fica ao redor da caçada ao inimigo do momento.
A mídia, em geral (e isto um dia deverá ser cobrado), aceitou uma censura ou, mais claramente, uma autocensura diante de “tão grave situação de guerra”. Fica a questão: por que se luta realmente nesta guerra? Por que o mundo ocidental com toda sua sofisticadíssima indústria bélica tanto se mobiliza? A questão do petróleo é uma boa resposta, por isso não importa se o bombardeio vai matar x milhões de pessoas ou não, aliás, essas pessoas são meros dados estatísticos perante o objetivo maior, garantir o petróleo ou, em outras palavras, caçar o terrorista.
Interessa notar, ainda, que em um dos bombardeios, a única emissora de televisão autorizada a funcionar teve seu prédio destruído pelas bombas “inteligentes”... Ah! Foi engano...?!! Parece que se esquecem de uma velha máxima, apresentada por um experiente jornalista: “quando ocorre a censura alguma coisa quer se esconder...”
Temos aí nosso paradoxo: no mundo da informação, a desinformação dá o tom e, para variar, o processo produtivo é a chave da resposta. O tempo mostrará.
Como dizia aquele velho filósofo alemão, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. O filósofo pragmático Peirce dizia que “a verdade é a finalidade da investigação”; portanto, é preciso investigar um pouco mais para se encontrar a resposta a esse paradoxo.
O triste é saber que muitos inocentes morrerão, mais uma vez, por conta do capital, ou melhor, do petróleo.
Não podemos silenciar ou aceitar os silêncios, pois aceitá-los é se postar contra o mais fundamental dever ético: defender a vida! |
Agenda
I Encontro de Filosofia do CEFS
Dia 15 de dezembro de 2001
Local: Treinasse
Av. Conselheiro Nébias, 337, Santos/SP.
Entrada Franca
Informações: (13) 3252-3319
15 horas
André Constantino Yazbek
Mestrando em Filosofia (PUC/SP).
Palestra: Maquiavel:
Natureza Humana degenerada X Construção de uma sociedade virtuosa
17 horas
Debate:
Uma reflexão histórico-filosófica diante da guerra do terror.
José Sobreira Barros Júnior
Mestre em Filosofia-PUC/SP
Marcos Tarcísio Florindo
Mestre em História-Unesp/Franca
Janeiro: Tarde cinematográfica
Fevereiro: novos cursos, novas turmas.
Informe-se!
Tel. (13) 3252-3319
Expediente
Revista Paradigmas, uma publicação do CEFS – Centro de Estudos Filosóficos de Santos
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